Pelo fim do casamento infantil nos Camarões

Evitar 50 crianças noivas em distintas divisões administrativas dos Camarões (Donga, Mantung, Mezam, Momo e Nhokeetunkia) tem sido, desde janeiro de 2019, o objetivo que uniu a organização local Sustain Cameroon e a AMI num trabalho coordenado de sensibilização em diversas comunidades do país.

Este projeto tem tido um impacto direto nas comunidades de Nwa, Bamenda I, II & III, Mbengwi e Ndop Central (subdivisões), onde uma equipa de “community mobilizers” (agentes comunitários) se dirigem a famílias sinalizadas, líderes comunitários e religiosos para os encorajar a abdicar de práticas nefastas como o casamento infantil.

Fanwi Seraphine K., administradora da SUSTAIN Cameroon e agente comunitária, tem coordenado a implementação deste projeto e sua respetiva intervenção. Trabalha de perto, tanto com as famílias como com os voluntários para o planeamento, monitorização e avaliação das atividades e programas de sensibilização e awareness nestas comunidades.

É uma sobrevivente de violência doméstica, o que fez dela uma ativista pelo direito das mulheres e pela igualdade de género. Uma verdadeira mulher do terreno. Vive e trabalha para encorajar outras mulheres, assegurando-lhes que possam alcançar o seu pleno potencial, acreditando que é possível um processo generalizado de mudança de comportamentos através da educação.

“Uma família que não tem como sustentar os seus filhos, como dar-lhes de comer, casa-os.”

No que concerne à raiz do problema do casamento infantil, Fanwi não tem dúvida: “há uma relação direta entre o casamento infantil e a pobreza extrema. Uma família que não tem como sustentar os seus filhos, como dar-lhes de comer, casa-os”.

Estas práticas são mais comuns na comunidade Fula. Trata-se de uma população nómada, fundamentalmente praticante do islão e com ideologias particularmente severas no que toca ao cumprimento de rituais ancestrais e tradições religiosas.

Exercer influência sobre estas raparigas e as suas famílias, a priori sinalizadas por já terem contraído matrimónio ou estarem em risco de o fazer é crucial para que um de três objetivos se concretizem: que regressem ao ambiente escolar, ou que se autonomizem das suas famílias e maridos, gerando rendimentos próprios ou que frequentem algum tipo de formação vocacional.

Fanwi explica que o grande desafio deste projeto, para além do processo de identificação das raparigas, bem como das suas famílias e respetiva monitorização da sua situação foi o de “quebrar normas sociais e religiosas junto das pessoas. A sensibilização foi em muitas ocasiões encarada como um ato ofensivo para as famílias e, claro, para os líderes comunitários ou religiosos”.

Por outro lado, preocupa-se pelo tempo limitado desta intervenção que precisa de continuidade para que possa surtir um efeito alargado e em cadeia “não conseguimos garantir o futuro destas meninas se não fizermos um acompanhamento prolongado no tempo, que nos permita garantir-lhes um futuro. Temos de as encorajar a voltar à escola, de as formar para alguma vocação ou orientá-las para que criem alguma atividade geradora de rendimento”.

Lauretta Ezembe tem atualmente 18 anos e aceitou contar parte da sua história e o porquê do seu envolvimento com a Sustain Cameroon. Na t-shirt que leva vestida podemos ler palavras de resistência “I am a girl. I need opportunities. No to child marriage”.

É uma menina tímida, mas com a coragem suficiente para se ter casado aos 16 anos, para ajudar a mãe viúva e ser menos um encargo para ela. É a segunda mulher do seu marido que já tinha três filhos quando se conheceram. No primeiro ano de casamento, Lauretta engravidou e tornou-se mãe de 4 filhos, quando a primeira esposa do marido decidiu abandonar a casa onde viviam, deixando os seus 3 filhos ao cuidado de Lauretta (o mais novo com três meses na altura).

O seu filho tem já dois anos e Lauretta foi sinalizada pela Sustain Cameroon pela sua tenra idade e pela total falta de suporte familiar, agravada por um acidente que levou o marido a partir as duas pernas e ficar acamado, imobilizado.

Esta é daquelas vivências que nenhuma menina deveria ter de contar, quanto mais vivê-la… Mas Lauretta não se detém sobre o assunto, encarando a realidade doutra forma. Para ela, a maior prioridade, com o apoio da Sustain Cameroon, é ter uma profissão. Não quer acabar a escola, mas aprender o ofício da costura e tornar-se designer de moda, diz sentir-se “muito feliz por ter esta oportunidade” e que certamente a vai aproveitar. Está atualmente à procura de uma fonte de financiamento para obter mais equipamento e materiais para estabelecer a sua loja e criar a sua marca.

Desde 2019, a equipa de voluntários e agentes comunitários da Sustain Cameroon já encaminhou 21 raparigas para aprenderem um ofício, 5 raparigas para criar atividades geradoras de rendimento e conseguiu sensibilizar 10 para voltarem à escola.

A missão de acabar com o casamento infantil nos Camarões está longe de estar concluída para pessoas como a Fanwi ou a Lauretta, mas estas mulheres traçam certamente um caminho de empoderamento, superação e de luta pelos direitos de todas as mulheres a quem não é dada escolha sobre os seus corpos, a sua liberdade e os seus futuros.