Os deportados açorianos na Ilha Terceira

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Saíram dos Açores quando eram crianças. E nunca mais voltaram. Até serem repatriados pelos tribunais norte-americanos por terem cometido crimes nos Estados Unidos. Mas não voltaram para a ilha da sua infância, plena de memórias afetivas. Voltaram para uma terra que já não reconhecem, com a qual perderam os laços e as ligações e onde se sentem completamente estranhos.

Deixaram Portugal em crianças. Foram para os EUA, onde viveram toda a sua vida, mas nunca se naturalizaram. Cresceram, construíram uma família, trabalharam, fizeram todo um percurso, igual ao de tantas outras pessoas. Mas as incursões na criminalidade fizeram com que fossem repatriados e mandados de volta para uma terra que os viu nascer mas com a qual já não têm ligação. Quando chegam, chegam sozinhos, isolados e desenraizados. Muitos, continuam a sentir-se presos. Ainda que em liberdade.

A repatriação é um fenómeno que não é exclusivo dos Açores mas é aqui que esta questão é sentida de forma mais intensa. De igual modo, o fluxo desta população já foi bastante maior do que é atualmente. Dados relativos a 2017 indicam que foram 637, os cidadãos portugueses sujeitos a processos de deportação, 174 dos quais provenientes dos Estados Unidos e do Canadá. É verdade que grande parte deles (93%) tem origens açorianas mas também é certo que este número já foi bastante maior no início da década.

Seja como for, os repatriados açorianos são uma população particular e especialmente fragilizada que levanta algumas questões, nomeadamente quanto à complexidade e dificuldade da sua integração, da justiça das políticas de repatriamento – em particular quanto à falta de complacência com que estas tratam pessoas que não têm efetivamente laços reais com o país de onde vieram.

Alvarinho Pinheiro, é coordenador do Abrigo Noturno Domus Spae que recebe, na cidade de Praia da Vitória, muitos destes repatriados. Um equipamento semelhante ao gerido por Egla Alves, responsável pelo abrigo noturno Novo Rumo, no centro de Angra do Heroísmo.

Para ambos os técnicos, este é um fenómeno com cerca de 15 anos e que levanta “muitos desafios, uma vez que os deportados não conhecem a cultura, a língua, os modos de vida o que, associado a comportamentos errantes e antissociais que se acentuam quando aqui chegam, não facilita em nada a sua integração”. “Não têm família direta aqui, e esse é o grande problema. Muitos deles deixaram os filhos, as companheiras, os amigos”. Para muitos deles, a primeira vez que veem os Açores é quando chegam aqui repatriados. Ou porque partiram muito pequenos ou porque nasceram nos EUA e nunca, nem de férias, tinham vindo aqui. “É um choque cultural imenso. Para mais, chegam destruturados, sem dinheiro. Cumpriram pena nos EUA e alguns, a única coisa que têm é a roupa do centro de detenção”. Há quem se consiga integrar e se autonomizar, usando bem o apoio que recebe e adaptar-se à realidade açoriana. Mas a maior parte acaba por adotar comportamentos desviantes, nomeadamente pelo consumo excessivo de álcool. “Ficam à deriva, dependentes de ajudas e de apoios institucionais”.

Apesar de expulsos daquele que consideram ser o seu verdadeiro país, não é por isso que guardam ressentimento contra o Governo ou as autoridades norte-americanas. A revolta é antes contra um alvo um pouco mais improvável: “se há ressentimento, esse é dirigido contra nós, que somos a parte mais visível e mais concreta do seu problema. Quando aqui chegam, sentem que vêm cumprir uma segunda pena. É verdade que nós também mostramos alguma incapacidade para lidar com eles e que há um estigma em relação aos deportados, mas eles também não fazem muito para mudar: não aprendem a língua, vestem-se da mesma forma. É como se o corpo estivesse cá, mas a alma permanecesse no outro lado do Atlântico.”

Talvez a melhor prova disso “é o modo como mudam o comportamento e a atitude, sempre que são visitados pela família ou, de uma forma mais prosaica, quando lhes é permitido recriar aqui um costume querido como o Thanksgiving” (o feriado nacional americano mais importante do ano, a par com o 4 de Julho), refere Sofia Gomes, assistente social na Equipa de Apoio a Grupos de Risco da Confederação Operária Terceirense. Durante uns quatro anos, um xerife norte-americano que se encantou pelos Açores, organizou um festejo para a população deportada “com direito a peru e a final da Super Bowl (o jogo final e que decide o campeão nacional de futebol americano) e tudo. Eles adoravam!”, recorda.

Ajudam e apoiam na documentação e são o primeiro suporte social e familiar, para além de organizar o trabalho de rede que for preciso efetuar para ajudar a integração desta população.

Como muitos “não sabem falar uma palavra de português, têm dificuldades acrescidas em arranjar trabalho ou uma ocupação, o que acentua e agrava os problemas de alcoolismo e toxicodependência que alguns deles apresentam”. Outro problema apontado é o das expectativas, que são tantas vezes ilusórias “há quem chegue com a expectativa de que vai ter um rendimento razoável, que lhe permitirá ter uma vida relativamente tranquila mas isso não é verdade, uma vez que têm, como qualquer outro cidadão nestas circunstâncias, apenas acesso ao RSI (Rendimento Social de Inserção) ”.

O RSI é o único rendimento que Elísia Pedrosa, 60 anos, atualmente aufere. É “visita” regular do Centro Porta Amiga de Angra, onde toma as suas refeições. Elísia foi para Boston, nos EUA, quando tinha 10 anos. Casou-se lá e teve 2 filhos. Quando o marido foi preso, por tráfico de droga, ela também foi, acusada de cumplicidade. Nunca lhe ocorreu tratar da cidadania. Limitou-se a renovar a carta verde (que autoriza a residência) e foi essa “falsa sensação de segurança” que a traiu. Acabou por ser deportada depois de cumprir pena, novamente acusada e julgada, desta vez por agressão à autoridade. “A verdade é que tinha um problema grave de alcoolismo e precisava de dinheiro para pagar a defesa para lutar contra a deportação. Não tive como evitar”.

Apesar da dureza da medida de repatriação, Elísia sente, mais do que injustiça, “vergonha pelo que fiz” e acha que o castigo da deportação acaba por ser “merecido e justificado” pela sua conduta. “Não se pode dizer que me tenha surpreendido, até porque fui avisada várias vezes pelos juízes”. Chegou há cinco meses à Terceira, onde tem um irmão, mas só pensa no momento em que vai poder voltar. “Posso regressar daqui a 10 anos. Tenho lá os meus dois filhos e os meus netos (de 4, 5 e 13 anos).“ Apesar das dificuldades, gosta dos Açores. “Aqui a vida é mais difícil. Não tenho carro, não tenho trabalho. Ainda não sei ler ou escrever bem português mas estou a aprender. Assim que começar a trabalhar, a minha vida vai melhorar.” Como tantos outros deportados, Elísia não se recorda de praticamente nada. “Reconheci a cidade (Praia da Vitória) mas não consigo lembrar-me de nada. Da casa onde vivi, da comida, de nada”.

Ilda Garcia, de 50 anos, também frequenta diariamente o Centro Porta Amiga de Angra. Foi aqui que encontrou o apoio e o carinho que necessitou quando deles mais precisou. “Foi aqui que percebi que não estava sozinha”. Ilda tem uma história de vida particularmente complicada. Foi dada, juntamente com a irmã, para adoção por um casal americano quando tinha 7 anos. Foi para uma pequena cidade, Palisade, Colorado. Os pais adotivos eram molestadores mas Ilda acabou por conseguir sair de casa aos 15 anos. Apesar de ter limitações de aprendizagem, conseguiu estudar e aprender uma profissão. Aos 18 anos alugou um apartamento, comprou um carro e começou a trabalhar. Aos 20 anos, teve o primeiro filho e desde aí recebeu apoio institucional. “Tive uma vida muito instável e problemática. Tornei-me toxicodependente e fui obrigada a dar os meus 6 filhos para adoção” Dos seis filhos, só mantém contacto com os 3 mais velhos e do que sabe, “já tenho 7 netos, veja só”.

Ilda refere que só cometeu um crime (posse de droga) e acha que até poderia, senão ter evitado, “pelo menos adiado a deportação mas queria muito rever a minha mãe”. Encontrou-a no hospital no dia em que chegou. Quando chegou, também descobriu que “tinha muita família nos Açores. Muito mais do que poderia imaginar. Irmãos, meios-irmãos, tios, tias…” mas não foi por isso que recebeu apoio ou se sentiu mais integrada. “Não reconheço nada”. Os primeiros tempos de Ilda nos Açores foram um verdadeiro inferno. Ainda hoje, passados oito anos, não fala português. A falta de audição e a dificuldade de aprendizagem que ainda hoje retém não facilitaram. A somar a isso, uma relação tumultuosa com a irmã que a acolheu quando chegou aos Açores tornaram os primeiros anos de Ilda na Terceira muito complicados. “Cheguei a viver na rua mas agora divido uma casa com mais 3 mulheres no centro de Angra do Heroísmo.” Contudo, esta não foi a única mudança na vida de Ilda. 

“Ao princípio, a vida nos Açores era difícil, monótona, não me enquadrei. Tive medo de sufocar aqui. Com o tempo, acabei por encontrar a minha paz interior. O mar, a beleza e a tranquilidade desta ilha ajudaram-me muito e agora posso dizer que aprecio a vida que tenho” ao ponto de não ter sequer vontade de regressar aos Estados Unidos. “Gostava de rever os meus filhos e netos mas não quero voltar”. Está à espera de um professor para aprender português.