Índia: lugar de reencontros

A Índia é um país de uma extraordinária complexidade social, cultural e religiosa, com uma população de cerca de mil milhões e meio de habitantes. Embora seja a décima maior economia do mundo, a Índia é um país onde imperam as desigualdades sociais e onde a pobreza extrema, de acordo com o Banco Mundial, ainda é uma realidade para 13,4% da população. A falta de acesso a saneamento básico e a parca distribuição de unidades de saúde em diversas regiões do país, são alguns dos grandes desafios com maior impacto no quotidiano da população indiana.

Ao longo dos últimos 31 anos, a AMI tem cooperado com organizações da sociedade civil indiana, mais precisamente no Bengala Ocidental. O ano de 1989 simbolizou o início de parcerias com organizações locais em contexto internacional, dando origem à tipologia de projetos de cooperação que se viria a transformar no conceito de PIPOL (Projetos Internacionais em parceria com organizações locais).

Por esta data, a AMI estabeleceu contacto com a Friend’s Society in Social Service (FSSS), uma organização não-governamental sediada em Bhawanipur, Bengala Ocidental, iniciando, assim, uma relação de cooperação que durou, embora intermitentemente, cerca de uma década.

Este primeiro projeto decorreu até 1993, e consistiu na construção de 30 poços de água potável, de aviários para a exploração em cooperativa, de latrinas comunitárias e ainda de 25 habitações para a população mais vulnerável da região. Através de uma estratégia de apoio técnico-financeiro, esta ação permitiu ainda a construção de um centro de diagnóstico e o seu apetrechamento com equipamento laboratorial. As equipas locais, bem como a AMI consideraram importante a formação de socorristas e a disponibilização de consultas periódicas às comunidades mais isoladas e com menor poder de deslocação. No decorrer dos quatro anos de projeto, que se estabeleceu em diversas fases, foi desenvolvido um programa de vacinação de crianças da região e adquirida uma ambulância que possibilitasse as deslocações de emergência à população.

Os primeiros passos percorridos pela AMI no segundo país com maior densidade populacional do mundo são dados nestas circunstâncias, mas este seria o início de uma longa jornada de cooperação para o desenvolvimento no sul da Ásia.

Em 2004, o terramoto que teve como epicentro a costa de Sumatra, na Indonésia, desencadeou um tsunami de proporções gigantescas e avassaladoras, assolando as regiões costeiras de países como a Tailândia, o Sri Lanka e a Índia. A AMI desencadeou uma missão de emergência e, para além de um missão humanitária de grande escala no Sri Lanka, regressou à Índia, reativando a sua parceria com a FSSS, financiando a de três abrigos, assim como o seu abastecimento e o de outras a 67 destas unidades constituído por 300 kits de primeira necessidade, 175 kits de higiene e saúde, 160 kits com materiais de cozinha, e kits escolares para o restabelecimento dos meios de subsistência de 735 famílias (cerca de 3.000 pessoas), nomeadamente 325 camponeses, 210 pescadores e ainda 200 alunos de diversas escolas.

Alguns anos mais tarde, entre 2007 e 2008, na sequência da intervenção anterior, a AMI apoiou um projeto implementado pela FSSS, cujo objetivo era promover o saneamento básico junto das vítimas do Tsunami, através da construção de latrinas e da sensibilização da população local sobre práticas relacionadas com saneamento básico.

Nos anos que se seguiram, esta relação de parceria foi-se revigorando com uma série de outras ações de intervenção, nomeadamente na reabilitação da sede da organização estabelecida em Bhawanipur.

O último projeto feito em parceria com esta organização, foi uma missão humanitária no Nepal, em resposta ao terramoto que arrasou aquele país em 2015.

A AMI procurou sempre que os projetos desenvolvidos contribuíssem para os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (e mais tarde, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), pelo que foi também uma das prioridades desta parceria, garantir o melhor acesso possível a água potável ao maior número de pessoas no seio das comunidades locais desta região, indo, também, ao encontro da estratégia governamental adotada pelo país.

A cimentação do projeto, tendo este objetivo como cerne, procurou dar particular ênfase à participação comunitária e à promoção da igualdade de género, trazendo as mulheres para o seio do diálogo e da mobilização. Foi aliás com esta premissa que a AMI voltou a atuar no Bengala Ocidental, contactada que foi por uma organização criada por uma jovem que participava como voluntária na FSSS. Sendo a mesma vocacionada para a prevenção de catástrofes, a AMI considerou relevante uma parceria tendo em conta as alterações climáticas e as suas particularmente graves consequências no Delta do Ganges.

As monções que sazonalmente dominam o horizonte climático do país, provocando cheias e danos irreversíveis de norte a sul, levou a AMI a reforçar em 2018, a cooperação e o investimento no norte do país, desta vez no distrito de Howrah.

O projeto “SAMPURNA – Gestão e Preparação de Desastres”, numa união de esforços com a ONG Kalikata Bidhan Manab Bikash Samity (KBMBS), resultou da necessidade de colmatar o risco de desastre face aos danos materiais e humanos causados pelas cheias. Localizado numa zona extremamente vulnerável às monções, dada a presença de quatro grandes rios nas suas redondezas – o Hoogly, o Mundeswari, o Rupnarayan e o Damodar – o distrito de Howrah, corre um risco iminente de aumento do caudal dos rios entre os meses de julho e setembro.

Assim, esta colaboração terá a duração de três anos, prevendo a formação da população de 30 aldeias das comunidades de Amta I, Amta II e Udaynarayapur para a gestão e mitigação de desastres climáticos. Além disso, a capacitação de agentes de comunicação e a criação de espaços de sensibilização e campanhas de reutilização de materiais fazem também parte das medidas adotadas para este efeito.

Setenta e cinco agentes comunitários foram já mobilizados e preparados para dar seguimento ao plano de atividades. Não só organizaram reuniões de grupo de suporte, como desenvolveram 169 sessões em espaços de sensibilização, abordando temas que englobam as alterações climáticas e os procedimentos de atuação e preparação em caso de catástrofe natural.

Em 2019, a subida do nível dos rios fez com que o distrito de Howrah voltasse a sofrer grandes estragos, nomeadamente a queda de uma ponte em Ghoraberia. Em resposta a um apelo da organização parceira, a AMI financiou a reconstrução da ponte, a compra de alimentos que foram distribuídos a 1.350 famílias da região afetada e ainda a aquisição de 120 lonas que foram entregues a 120 famílias para reforçar a cobertura dos telhados rudimentares de suas casas.

A Índia é um país no qual a AMI tem apostado fortemente em projetos de desenvolvimento, acreditando que as suas populações, de uma enorme riqueza cultural e humana, demonstram uma resiliência e capacidade de trabalho intenso aliados a uma grande vontade de aproveitar todas as oportunidades para melhorarem as suas vidas.