As bebés mutiladas da Guiné

“Eu levantei a voz, não para gritar, mas para que aquelas que não têm voz possam ser ouvidas.”
Malala Yousafzai

Acabou. É o que se diz. Mas sabe-se lá se no meio do mato não se faz ainda. Há poucos anos, no Leste da Guiné-Bissau, era costume organizarem-se fanados com 600 meninas para serem excisadas todas com a mesma lâmina em cerimónias que duravam semanas e que serviam para as iniciar na vida adulta. Agora isso não acontece em nenhum lado do país. Dizem. Os fanados tradicionais organizados em grandes festas nas tabancas desapareceram. Só clandestinamente. Mas as meninas continuam a ser excisadas. Mas os pais optam por levá-las à fanateca, à mulher que sempre fez o procedimento, assim que nascem. O que se passou?

Há assuntos que ninguém quer saber em detalhe. Não é preciso ter um ponto de partida: nesta história não há “bons” nem “maus”. Aliás, como podem os pais de meninas recém-nascidas sujeitá-las à mutilação clitoriana? Não se está a falar de uma ou duas “situações” mas de uma prática banal que se está a expandir, de “milhares de casos” essencialmente no Leste da Guiné-Bissau. É que se para “nós” a excisão em bebés é um atentado aos Direitos Humanos, aqueles pais estão longe de ser monstros ou fanáticos religiosos que estão conscientemente a fazer mal às suas meninas. Pelo contrário.

O mais perverso é que a excisão em bebés está a acontecer exatamente para contornar a proibição dos fanados tradicionais – em que para além de excisadas, havia todo um ritual que durava dias ou semanas e servia para as ensinar a viver em sociedade, a cozinhar, a tratar dos velhos, a fazer os trabalhos domésticos, cuidar do marido…

Mas excisar bebés recém-nascidos? Quem já assistiu a este “novo” procedimento e essencialmente às suas consequências em termos de saúde diz que é algo de terrível, pois as próprias fanatecas (excisoras) não estão familiarizadas com corpos tão pequenos e frágeis. O objetivo é com a “faca”, uma lâmina curva de cinco centímetros, proceder à remoção do clítoris. Mas estamos a falar de um recém-nascido. Nas meninas de seis e sete anos, já havia questões de saúde que perduravam para a vida adulta e que tinham que ver com o tipo de corte efetuado e que por vezes corria muito mal.

É que para além da mutilação do clítoris não era incomum outro tipo de problema de saúde. Desde incontinências de vários tipos, a afeções no próprio sistema reprodutivo e no colo do útero. Para não falar da ausência de prazer no ato sexual. E do risco do HIV. Mas quando passamos a falar num procedimento destes num bebé, então entra-se no campo do desconhecido e do horror. Não se sabe sequer quais as consequências na vida adulta, dado que a prática ainda é demasiado recente. Não há ideia, em termos físicos, do que irá acontecer àqueles bebés mutilados quando atingirem a idade adulta.

É preciso que se perceba que aquelas famílias não o fazem por maldade, sadismo ou porque desejem que as suas filhas sofram. Mas porque lhes querem bem. Querem que elas venham a casar, que não sejam “sujas” – coisa que temem que aconteça se não forem fanadas. E são fanadas porque é tradição e o imã diz que têm que ser porque está no Alcorão. Tal como os meninos são circuncisados. Mas se antes eram fanadas aos sete anos, como a tradição mandava, porque é que agora são “cortadas” logo aos sete dias? A origem remonta a uma lei de 2012 que proíbe precisamente a Mutilação Genital Feminina na Guiné-Bissau.

Não parece correto estar a culpar a lei que visa precisamente defender as meninas da excisão. O problema é que devia existir um Estado a protegê-las e que promovesse a Educação ao “desmontar” essa “tradição” alegadamente baseada no Corão. Quando para mais foi resultado de um longo processo para ser aprovada na Assembleia Nacional.

Foi precisa muita pressão para os políticos guineenses cederem e em 2011 aceitarem criminalizar a Mutilação Genital Feminina. Foi uma batalha de 20 anos para os convencer. Como qualquer político, receavam ir contra a vontade dos eleitores. O fanado é uma prática enraizada numa grande parte da população, nomeadamente no leste do país, onde a islamização é mais forte, numa mistura que conjuga uma leitura deturpada das alegadas palavras do Profeta com práticas animistas, pois subsiste praticamente em todos os países africanos muçulmanos. Sabia-se à partida que não iria ser uma lei que poria fim a uma tradição que, para mais, os imãs asseguram ter raízes nos textos sagrados do Corão. Mas fez-se.

Contudo, teve uma perversão que não foi possível antecipar quando se legislou de forma razoavelmente dura e que posteriormente até envolveu um ou outro caso de prisão que no fim acabou em nada: as famílias começaram a desistir de todo o cerimonial que envolvia o fanado das meninas aos cinco, seis, sete, oito anos e que durava semanas, dado que as ONG começaram a chamar a polícia às tabancas e a exigir que a lei fosse cumprida. E a autoridade lá começou a aparecer e a impor a lei. Mesmo que contrariada.

Assim, para evitar qualquer tipo de problema, os pais começaram a tratar do assunto logo no momento do nascimento, aos sete dias, quando vai furar as orelhas dos bebés. Mas se condenamos a prática – como não fazê-lo? – talvez devamos ter algum cuidado em condenar os pais.

Os pais querem tão bem às suas meninas que temem que se não forem fanadas irão contra a palavra do Profeta. Mesmo que haja quem conteste com veemência esta leitura dos textos. Temem que “se as suas meninas não forem fanadas, serão sujas”, não poderão cozinhar para um marido, cuidar dos velhos e poderão até matar os filhos durante o parto, resultando em que nenhum homem quererá casar com elas. É esta a crença que está fortemente enraizada. E um pai está disposto a ir para a cadeia pelo bem da sua filha. A sua mulher é fanada. A sua mãe foi fanada. Como é que pode permitir que a sua filha não o seja? Que será dela se não for fanada?

César Gomes, um guineense de uma ONG que trabalha com Direitos Humanos no leste, junto com as tabancas na zona mais “pesada” do país, tem consciência de que não se trata só de uma questão de mudar as mentalidades de um momento para o outro. Enquanto a questão religiosa suportar e apoiar a excisão, enquanto os imames defenderem a prática, será muito difícil alterar os comportamentos em zonas fortemente islamizadas como é o Leste da Guiné-Bissau. “O fanado em bebés é uma coisa horrível… mesmo horrível… Mas os pais acham que se não fizerem, a filha vai tornar-se uma prostituta”, diz. “Fazer o corte em bebés é uma prática muito recente”, explica. “Isto só aconteceu desde que há lei e que se conseguiu mandar uma ou duas pessoas para a prisão e levar um a julgamento”. Foi o caso de um guineense que vive em Lisboa e trouxe as duas filhas para serem fanadas. Sabia da lei, mas pensou que nada lhe aconteceria. Organizou a festa e fez o maior alarido. Desta vez, acabou preso e acusado. Só que o povo não aceitou e, se não fosse libertado, ameaçava destruir tudo. Telefonemas de Bissau e antes que o processo pudesse seguir já o homem estava novamente em Portugal. Mas a verdade é que este e outros casos abafaram a publicitação dos fanados, começou a ter-se medo de fazer as cerimónias públicas. Agora, quando existem, são clandestinas.

Atualmente, César já consegue ir às tabancas do interior e conversar com as pessoas. Há algum tempo isso de ir falar em acabar com o fanado era algo impossível. “Os imames mais jovens já aceitam sentar-se connosco. Tentamos explicar que a mulher bonita e saudável não é excisada. Mas aqui é um trabalho perigoso”. É que mudar o fanado é mudar todo o sistema tribal que se acentuou nos últimos anos. A Guiné é uma sociedade de muitas etnias e ali no leste reinam os Fulas e os Mandingas com grande influência de Conacri, sempre descrita como uma sociedade mais violenta e radical. “Há muito matrimónio forçado com meninas de 12 e 13 anos, os homens têm sempre vários casamentos e são sempre as mulheres que trabalham. No caso dos fulas, eles não fazem nada e ficam sentados o dia todo. Como é que se chega e altera esta mentalidade? Isto não é só a questão do fanado”.

Mas como é que se sabe que esta prática existe em bebés? Não é só uma questão de se ouvir dizer. Acaba por saber- se. Um dia ou outro, o bebé terá de ir a um posto médico e descobre-se. Solução: prender os pais nessa altura? Mas aí talvez os pais deixem de levar as filhas bebés para serem vacinadas, não?

Mas vai desistir? “Não, isso não. Antes as comunidades viam-nos como inimigos e agora já não. E já não há fanados como antes, com grandes festas de centenas de meninas a ser excisadas com a mesma faca. Isso mudou… Sabe… com boa conversa faz-se o macaco descer da árvore”, diz convicto.

No centro do país, uma outra ONG faz um diferente tipo de trabalho para mudar mentalidades e ali o tema já é discutido mais abertamente. Pelo menos é o que parece. Durante as férias de verão, é a própria escola que cede as instalações para o “Clube das Meninas Excisadas e não Excisadas”. O objetivo é quebrar barreiras entre as miúdas. Sim, existem barreiras entre os dois “grupos”. Mas desta forma: há que mostrar às meninas que foram fanadas que as não excisadas não são “sujas” e não podem ser ostracizadas e mesmo insultadas (“blufos”). E por outro lado, tentar logo de início incutir em todas que a tradição pode passar sem a “faca”. Passa por tentar integrar as meninas não excisadas numa “normalidade”. É que para além de todos os preconceitos vindos da questão religiosa e sexual, há que ter em conta que as meninas não fanadas não fizeram a “passagem” para o mundo dos adultos. E para colmatar essa falha há estas atividades em que reproduzem o que é ensinado no fanado.

Há um professor de religião (Corão), há uma filha de uma fanateca para falar do ritual (sexualidade), uma professora de croché, uma professora de danças tradicionais. Tudo isto já tinha antes sido tentado numa prática nacional que não resultara, a que se tinha chamado “fanado alternativo”, e que visava convencer nas tabancas de que era possível fazer a cerimónia com as meninas sem as “cortar”. Mas se os imanes dizem que está no Corão…

Nas 110 meninas que frequentam o Clube das Meninas Excisadas e não Excisadas só 23 é que não “foram cortadas”. E essencialmente por questões religiosas. Ou seja, não são muçulmanas. Pauleta Sambo, a grande dinamizadora do Clube consegue colocar todas as classes a cantar a música que compôs. “Tradição é bonita, maneira de guardar não é difícil, vamos abandonar a excisão e dar voz à nossa razão. Vamos gritar com força porque deixamos a faca”.

Uma das meninas mais ativas a cantar é Fatumata Iafa, de 13 anos, excisada. E diz-nos, perentória: “Devem deixar de fanar porque não é bom para a saúde”. É órfã. Diz que não irá fanar as filhas quando as tiver. Converso com uma pequenita (vou falar o quê?). Adulei, de 8 anos. Pequenita, encabulada, está com vergonha. Claro que não quer. “Vai doer”. Esta ONG apoiada por uma outra alemã é localmente gerida por três guineenses. Têm que ter coragem para estar à frente de uma associação destas. Mas, se abordar o tema da Mutilação Genital Feminina, aí tendem a deixar de conseguir falar – ou por estar na presença de um homem ou por ser um assunto que lhes é menos confortável ou natural discutir. É impossível não ver a excisão enquanto forma de retirar o desejo sexual à mulher por parte do homem? Pergunto. Baixam os olhos na volta à resposta: “O problema aqui é mais a tradição e a religião…”.

Fátima Sanha foi fanateca, neta de fanateca, e deixou o ofício porque lhe arranjaram outro sustento e porque no sul da Guiné-Bissau, garante, a prática está erradicada. Aprendeu a ir de tabanca em tabanca desde menina, e embora agora faça campanha de sensibilizações para acabar com a excisão, lá vai dizendo que aquilo também “não era nada de especial”, que as meninas “saltavam e corriam ao fim de dois dias” e que era “uma coisinha de nada”, mostrando a pontinha do indicador para explicar o que tirava. Mas pronto. Agora sensibiliza contra o fanado, “porque faz mal à saúde”. Sabe que, lá para cima, os fulas até cortam e cosem as meninas (a chamada infibulação, embora não se saiba de nenhum caso recente), mas não, ela é da raça Biafada. “Temos sangue bom”. Diz que coava a água de palha fervida, o que cicatrizava rapidamente as meninas. E que o que interessava eram as semanas de acampamento onde ficavam a aprender as coisas de mulher, como tratar dos velhos. Foi fanateca até há quatro anos. Um regime de microcrédito permitiu-lhe criar um negócio. E a ONG contrata-a para ir pregar que o fanado não é bom. É este o rendimento que permite ter “entregue a faca” numa cerimónia oficial. O sul, garante, está livre de fanados para meninas. Aqui já não há. Não há mesmo? Desafio-a. Ela olha-me nos olhos e ri-se. É uma mulher gozona. Não há não.Tudo isto é feito com tradutor. É sempre difícil perceber as “nuances”. Se está divertida de me ver falar do assunto ou se me está a dar a volta.

A ideia que é apenas uma “coisinha de nada” está presente em muita gente. Como se a excisão e a circuncisão se equivalessem. Os meninos para serem homens ainda têm de ser circuncisados e mostrar o que valem no mato. A cerimónia do fanado serve para mostrar que é valente. Lá no leste, César nas tabancas vai dizendo: se o homem fosse fanado como as mulheres, cortavam-lhe metade do seu órgão. Mas o macaco, com esta conversa, não desce da árvore.

“Mutilação genital feminina é obra do diabo”

• “Está a excisão no Alcorão?” Não há nada no Alcorão que ordene a excisão da mulher. Pelo contrário. Na Suara 95, Versículo 4, diz: “Criámos o ser humano na mais perfeita proporção”
• “Está na Suna, nos Hadiths?” – todas as passagens, segundo os quais o Profeta terá dito essas palavras, foram classificadas por eruditos islâmicos reconhecidos na História como Hadiths “frágeis”, que não podem ser utilizados como prova.
• Outros argumentos falaciosos: “O clítoris e a vulva não crescem até aos joelhos. As mulheres não excisadas não cheiram mal e não atraem insetos. O Profeta excisou as suas filhas. As mulheres não excisadas excitam-se com a fricção das roupas. O clítoris fica muito grande, duro e pontiagudo e magoa o homem durante a relação sexual e os bebés durante o parto”.

O fanado dos rapazes à beira da estrada

“Um fanado! Parem o carro!”. Na beira da estrada, algures, de repente e a interromper o sono encostado ao vidro do carro na viagem, um grupo de meninos perfilados e enrolados em trapos sujos, com ar de pintinhos arrogantes: sim, é um fanado de rapazes, a cerimónia iniciática que os faz entrar na vida adulta. Aparentemente estavam na estrada à espera que alguém desse uma contribuição para o arroz. Ali estão eles, já enrijecidos pelo mato. Os tutores perguntam se querem que eles vistam os fatos de guerreiros. Nos longos dias que vão passar no mato vão suportar algumas provações. E mostrar coragem. Quando voltarem para os pais, já não serão os meninos que partiram. Aliás, quando posam já mostram altivez adulta. Nunca fraquejam quando o Alfredo avança sobre eles com a máquina e olham bem para a objetiva. Os homens ali ao lado estão orgulhosos daquele bando de bichinhos que estão quase a sair da casca. Dias antes, a centenas de quilómetros, numa picada, tínhamos tido um problema numa roda do jipe, à entrada de uma tabanca. O Alfredo Cunha fez-se ao caminho de máquina ao peito. Dez minutos depois, fui dar com ele no meio de uma festa de mulheres aos gritos lá nos fundos da aldeia. Um homem tinha-me dito que aquilo era “um casamento”. Onde estava o noivo? Ora os fanados são cerimónias só de mulheres. Já no regresso, e longe, foi o nosso motorista, o senhor Alfa, que nos garantiu que sim, era um fanado. Nunca saberemos.

Chega de fanados. De tragédias causadas pelo Homem. Bastam as naturais. O ébola vai chegar de Conacri lá no Leste. O Governo mandou fechar as fronteiras. Em Buruntuma esticou uma corda. Em Fulamore estacionou a piroga. Há povo retido. Do lado de lá que se faz ouvir. Um fulano que insiste na sua motorizada com o graduado (um admirador dos comados portugueses ali desterrado) que necessita passar. Nada feito. Ali não passa ninguém. Mas são 80 quilómetros de fronteira e apenas 15 militares. Por que o Ébola no seu pico de 2014 não chegou à Guiné-Bissau não se sabe. Contornou o país. E ainda bem. As medidas disponíveis para combater a epidemia eram escassas. Uns fatos para mostrar mas nem lixívia havia em muitos postos de fronteira. Mas como definir isso do ébola em relação a outros males que afetam a região? Chega uma motorizada com um casal. A mulher traz qualquer coisa enrolada num pano colorido entre o peito e as costas do homem.

É um bebé. Está morto. O médico faz uma curta vistoria e manda-os seguir. Sim, morreu de diarreia mas não é ébola, diz. Já no sul, quando estávamos a falar com a enfermeira Genebu, entrou um homem com um velhote no posto e assim que o deitou na maca, ele acabou ali. “Estava nas últimas. Deve ter sido malária. Só os trazem quando estão assim”. Nem sequer se colocou a hipótese de ser ébola. É o quotidiano de um posto médico no interior da Guiné, um país onde a malária mata diariamente centenas ou milhares. No posto da canoa, o membro da segurança do estado, um rapaz com uma t-shirt a dizer Sex Drugs & Rock N’ Roll lembra que a região já se está a ressentir economicamente com o fecho da fronteira. O governador da cidade de Gabu (Nova Lamego no tempo colonial) conseguiu fazer algo de “revolucionário” na sua cidade o fim de semana passado. Gabu tem fama de ser a mais suja da Guiné e, de facto, o impacto é bastante forte. Um dos elementos que impressiona logo à chegada é o grande número de jagudis (uma espécie de abutres) que pairam no céu ou estão poisados com aquele ar tétrico de quem lucra com a morte dos outros. A cidade tem muito comércio de rua e os estrangeiros de má fama, o lixo acumulado na lama, a água nos buracos transformada numa pasta que se agarra de forma peculiar aos transeuntes e um nível de agressividade maior do que noutras cidades, faz com que Gabu tenha uma envolvência “especial”. Pois o governador prometeu que iria limpar a cidade devido ao ébola e muita gente duvidou. Mas no sábado passado, às nove da manhã, toneladas e toneladas de porcaria acumulada ao longo de anos estava a ser retirada das ruas – se é que lhe podemos chamar ruas. É o que faz o medo, diz um residente.

Uma autoridade garantia então que o ébola não vir era uma questão de fé. Terá resultado. A Guiné é um país de fé.

O tipo de mota foi parvo. A fronteira abriu ao fim de dois dias. Ele insistiu e acabou morto. Acidentalmente.

O mergulhador do saltinho

Há locais cuja beleza é ensombrada pelos fantasmas que nós próprios carregamos para lá. O Saltinho, as quedas de água do Saltinho são um daqueles cantos do mundo feitos para constar num qualquer top. As quedas de água, os tons verdejantes que abraçam o rio se misturam com uma explosão de sons: a água a precipitar-se com as famosas lavadeiras que batem a roupa na pedra a uma cadência brutal, mantendo os seus bebés a dormir nas costas. Mas ali passaram-se dramas terríveis da guerra. De uma guerra que aqui e ali ainda vai surgindo, seja com placas colocadas discretamente por portugueses a homenagear os seus camaradas mortos, seja nas histórias que vão surgindo pela voz já tranquila de guineenses que combateram de um lado ou de outro ou de ambos. E que de repente ainda se arrepiam quando passam por uma ponte e se lembram de algo que tinham esquecido. Mas está tudo na nossa cabeça. Não há mácula na paisagem. Não fica nada senão a memória dos homens. Olho ao fundo e vejo um miúdo a nadar e a saltar das tocas para a água numa zona de corrente forte. Aproximei-me e vejo que não tem uma perna. Tem um coto muito acima do joelho. É um espetáculo fantástico, não por ser um “miúdo sem uma perna a saltar”, mas pela sensação de felicidade mais verdadeira e pura que é possível encontrar. Sim, está a
exibir-se um pouco. Mas que maravilha.

De repente, desaparece e vou apanhá-lo na estrada a pedalar vigorosamente numa bicicleta. Descubro-lhe a história. Perdeu a perna ali mesmo, num atropelamento. Um médico português ficou tão impressionado com a alegria e vontade de viver do puto que lhe enviou a bike. E não quis conversar e lá foi ele à sua vida. O Saltinho, que quando cheguei era o local onde tinham morrido tantos portugueses, é agora o ponto onde vi um dos miúdos a exercer a sua infância feliz mesmo com tudo contra ele.

 

Texto: Luís Pedro Nunes
Fotos: Alfredo Cunha