2019: Moçambique – Os desafios de uma ação coordenada, rápida e eficaz

moçambique equipa AMI

No dia 20 de março de 2019, Moçambique fez um pedido de ajuda internacional através do Mecanismo Europeu de Emergência. No dia seguinte, a 21 de março, partiu de Lisboa a primeira equipa da AMI para Maputo, composta por 3 elementos. Dia 24, partiu uma equipa médica para a Beira e no dia 28 do mesmo mês, a AMI iniciou a sua intervenção no Centro de Saúde da Manga Nhaconjo. A 3 de abril, entrou em funcionamento o Hospital de Campanha da AMI, no mesmo Centro de Saúde que, três dias depois, foi designado como “Centro Transitório de Reidratação Oral por Fluidoterapia”.

No dia 14 de março de 2019, o ciclone Idai – o ciclone tropical mais forte a atingir Moçambique desde o Jokwe, em 2008 – chegou ao litoral do país. Causou graves inundações em Madagáscar, Malawi e Zimbabué. Já em Moçambique matou mais de 700 pessoas, afetando centenas de milhares.

Tendo em conta a importância que atribui a uma ação coordenada, mas também o esforço acrescido que essa coordenação envolve, a AMI manteve no terreno duas coordenadoras de projeto, cuja função principal consistiu em participar nas várias reuniões do sistema cluster da saúde das Nações Unidas e do Ministério da Saúde de Moçambique que ocorriam quer em Maputo, quer na Beira. Em Maputo, a equipa da AMI participou na reunião do Sistema Cluster Inter Agências (ONU), logo no primeiro dia no terreno, registando a sua presença no país e comunicando a sua capacidade na área da saúde. A aquisição de todos os bens necessários à missão foi feita, na totalidade, em Maputo (à exceção da tenda de campanha, que foi levada da sede, em Lisboa) para enviar posteriormente para a Beira.

Na Beira, no dia 24 de março, a equipa da AMI participou na reunião de clusters, que se passou a realizar diariamente e na qual participavam todas as organizações ativas no terreno, para partilhar informações e definir prioridades ao nível da gestão da emergência. Nesse mesmo dia, a AMI participou também na reunião com representantes do Governo de Moçambique, que passou a ter caráter diário e que chegou, inclusivamente, a realizar-se duas vezes por dia. Esta reunião era liderada em parceria pelo Governo Moçambicano e pela Organização Mundial de Saúde. Começou, assim, a ser definida a instalação de um hospital de campanha da AMI para tratamento da cólera. A AMI comprometeu-se em atuar com uma equipa médica num Hospital de Campanha fixo, com capacidade para internamento.

No dia 27 de março foi declarado um surto de cólera na região. Nesse mesmo dia, realizou-se a primeira visita da AMI ao Centro de Saúde da Manga Nhaconjo, após ter sido transmitido pelas autoridades moçambicanas que a AMI iria, oficialmente, realizar a sua intervenção no mesmo, sendo que a intervenção teve início no dia seguinte. A 29 de março foi atribuída à AMI uma licença de “Emergency Medical Team” pelo Ministério da Saúde de Moçambique (a AMI foi uma das 9 Equipas Médicas de Emergência Internacionais oficialmente reconhecidas pelo Ministério da Saúde moçambicano). A AMI passou também a estar identificada no mapeamento das intervenções feitas pela OCHA / Nações Unidas.

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Até ao fim da missão de emergência, a equipa de ligação da AMI continuou a participar nas várias reuniões cluster, reuniões da taskforce de cólera e das autoridades moçambicanas, bem como a dar resposta ao preenchimento de vários formulários e reports de dados solicitados no âmbito do cluster de saúde e do Centro de Coordenação das Equipas de Emergência Médica, no sentido de realizar uma intervenção concertada e coordenada e de manter atualizado o registo da sua intervenção no país. Em todas as reuniões com o Ministério da Saúde, com a OMS e com o Cluster da Saúde foi reportada a intervenção da equipa médica da AMI e foram partilhados os dados epidemiológicos da mesma, bem como recebidas visitas regulares por diversas equipas de monitorização e avaliação, de várias entidades.

Para além deste enorme esforço de coordenação, as coordenadoras de projeto garantiram ainda um trabalho conjunto com a Diretora Clínica e a Diretora do Centro de Saúde da Manga Nhaconjo.

Ao mesmo tempo que a equipa de saúde da AMI levava a cabo a sua missão de assistência médica no hospital de campanha, a equipa de ligação garantia uma ação coordenada e adquiria localmente vários materiais para otimizar o funcionamento do serviço, incluindo um sistema de tratamento de resíduos biológicos e não biológicos. Foram adquiridos, em Maputo e na Beira, cerca de 800 quilos de medicamentos e materiais médicos necessários para a missão de emergência, tendo ainda sido recebidas e encaminhadas cerca de 4 toneladas de medicamentos e materiais clínicos de diversos doadores. Para além disso, a AMI apoiou o Centro de Saúde no transporte de medicamentos e materiais necessários e nos casos clínicos mais graves em que a equipa local pedia o auxílio da equipa expatriada. No período de 30 de março a 23 de maio, a equipa da AMI realizou 2.328 consultas, dinamizou sessões de reciclagem de conhecimento sobre questões de saúde, ações de sensibilização comunitária sobre temas como tratamento de água, medidas de higiene e cuidados de prevenção da cólera e da malária, adquiriu 3,5 toneladas de alimentos e distribuiu mais de 6 toneladas de alimentos provenientes de diversas doações.

No dia 25 de maio, data do fim da missão de emergência, a AMI doou o Hospital de Campanha ao Centro de Saúde da Manga Nhaconjo, bem como todos os medicamentos, materiais médicos e outros materiais e infraestruturas, sabendo-se hoje que foi extremamente útil nos últimos 2 anos como parte da resposta à COVID-19.

De forma a garantir que, após a missão de emergência, as comunidades da Manga Nhaconjo continuariam a ser devidamente acompanhadas ao nível da saúde, a AMI implementou um projeto, em parceria com uma organização local, logo a 1 de junho de 2019, com a qual continua a trabalhar em parceria até hoje.

A crescente profissionalização da ação humanitária acarreta desafios humanos, logísticos e financeiros muito impactantes para os agentes humanitários. No entanto, mais transparente e focada no longo prazo, traz resultados bastante promissores.