Ação Humanitária: que evolução queremos?

FernandoNobre

Como não poderia deixar de ser, com os reflexos da evolução e da involução da sociedade, também a ação humanitária viveu e vive momentos de mudança, positivos e negativos, nas últimas décadas.

Vivi-os por dentro enquanto médico humanitário há mais de 40 anos em missões concretas em cerca de 85 países nas 7 partidas do Mundo, seja em cenários de extrema urgência (catástrofes naturais ou conflitos) seja de chamado desenvolvimento, ainda que a maioria das vezes de carência grave.

No início do meu percurso humanitário no terreno com os Médicos Sem Fronteiras, a ação humanitária era humanitarismo puro, voluntariado benévolo, abnegação, entrega total e compaixão puros!

Éramos missionários, leigos. Nada recebíamos (também nada esperávamos) em troca do nosso trabalho profissional em prol dos mais desvalidos e necessitados em qualquer canto do Mundo, inclusive nas situações de mais elevado risco de vida que implicava, por vezes, a nossa entrada clandestina em certos países para socorrer populações em risco e altamente necessitadas como me aconteceu por exemplo no Chade em 1981, onde era o único cirurgião que, de avioneta, percorria o país para exercer cirurgia de guerra dos dois lados do conflito sangrento que ali se travava.

Na Carta de Princípios que assinávamos, nomeadamente nos Médicos sem Fronteiras (MSF) e que depois em 1984 adotei na AMI que então fundei, não só nos exigia o respeito por Valores claros como não exigir mais do que a organização estava em medida de dar, em troca de riscos que assumíamos ao partir para cenários de guerra, como fiz várias vezes.

Não usufruíamos de qualquer pagamento ou indemnização e a instituição só nos garantia a viagem, o alojamento muitas vezes precário em grupo e o transporte no terreno. Tudo o resto era por nossa conta e risco…

Na altura, no início da minha “saga” humanista, e penso ser hoje,  provavelmente, o médico humanitário mais antigo e mais velho ainda em ação, as instituições humanitárias eram interventivas mas com pouquíssimos recursos e raras eram as agências das Nações Unidas presentes nos cenários de conflitos, já para não dizer Estados e Forças Armadas que era impensável atuarem no campo humanitário.

A partir dos anos 1990 e sobretudo 2000 (Afeganistão, Iraque, Síria…) tudo mudou, nem sempre para melhor. Se, por um lado, e muito bem, a Ação Humanitária se profissionalizou e permitiu dedicar-se a esta lindíssima profissão, fortalecendo-se as organizações, a sua preparação e a sua coordenação no terreno. Por outro lado, os Estados e as suas forças militares apropriaram-se do conceito indo ao ponto de desencadear guerras por “razões humanitárias”.

Fundações e empresas globais, sob pretexto que as Organizações Não Governamentais não eram profissionais, acabaram por politizar e perverter a ação humanitária, ao ponto de, em situação de conflito, as organizações humanitárias serem olhadas com desconfiança no terreno, havendo dúvida se poderão estar ao serviço de interesses geopolíticos e estratégicos. Os humanitários deixarem de ser “intocáveis”.

Resta pois, às muitas ONG, agentes e humanitários por vocação, continuar a exercer esta agora infelizmente profissão, tal a multiplicação e intensidade das tragédias esquecidas e das novas, de forma abnegada e transparente, apoiadas por uma sociedade civil informada que lhe continue a dar suporte financeiro.

Ao rever o conturbado e interpelador percurso da Ajuda Humanitária no Mundo, que se foi contrapondo ao meu ideal de vida que me marcou indelevelmente, não posso deixar de mencionar certas missões e alguns momentos verdadeiramente cruciais para mim e para a nossa História coletiva:

1981 – A guerra Irão-Iraque (1981) que provocou mais de 2 milhões de mortos e onde presenciei e acompanhei a morte atroz de uma menina de 8 anos queimada a 90%

1981 – A guerra Chade-Líbia (1981) onde exerci cirurgia de guerra com parcos recursos e vivi como “flying doctor” a defesa de valores em tempos de guerra e de intolerância, as carências humanas indiscritíveis, a tenacidade e resistência à dor do povo toubou.

1982 – O Cerco de Beirute onde fui substituir um elemento dos MSF em estado de choque perante o ataque da aviação de Israel em  Beirute ocidental.

1989 – A guerra civil em Moçambique onde a AMI interveio no campo de Refugiados de Ressano Garcia, a pedido expresso da Dra. Maria Barroso, sendo o Dr. Mário Soares Presidente da República Portuguesa.

1991 – A gestão do Orfanato de Bilteni na Roménia, um dos muitos descobertos após a queda de Ceausescu, onde amontoavam crianças “irrecuperabili” em condições abjectas.

1992/2002 – A guerra civil em Angola onde a AMI desenvolveu sucessivas missões médicas humanitárias, dos dois lados do conflito, em 15 das 18 províncias.

1992 – O fim da guerra civil em Moçambique, onde a AMI se ocupou dos Postos de Saúde de 3 Acantonamentos de Desmobilização Militar das Nações Unidas nas províncias de Sofala, Zambézia e Nampula.

1994 – O genocídio no Ruanda onde trabalhei num autêntico inferno dantesco de violência, desespero, intolerância, fome, morte, epidemias e miséria humana intolerável.

1999 – A destruição da capital das Honduras, Tegucigalpa, pelo ciclone Mitch.

1999 . A entrada em Timor da primeira ajuda humanitária num avião fretado pela AMI, após os massacres no seguimento do Referendo de Agosto.

2004 – O Tsunami no Sri Lanka em que equipas de emergência da AMI prestaram ajuda humanitária durante 1 ano e desenvolveram projetos de “recovering” durante mais de 10 anos.

2010 – O Terramoto que destrui a capital do Haiti, Port-auPrince, onde equipas da AMI asseguraram a gestão de 4 campos de deslocados e organizaram equipas médicas móveis no país, entre outros.

2019 – A destruição da cidade da Beira pelo ciclone Idai em Moçambique onde as equipas da AMI atuaram na luta contra a epidemia de cólera.