2010: Haiti – A importância da coordenação e antecipação das crises

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Em 2010, o Mundo e o Haiti conheceram uma das piores catástrofes da sua História. Esta  catástrofe deixou a nu a vulnerabilidade, a impreparação e a desestruturação do Estado mais pobre de todo o continente americano.

A 12 de janeiro, em 35 segundos, 222.570 seres humanos perderam a vida e mais de 70.000 pereceram nos dias seguintes. Mais: 2.1 milhões de pessoas (25% da população) foram forçadas a deslocar-se e 1.5 milhões procuraram abrigos provisórios. Meio milhão de pessoas deixaram a capital (Port-au-Prince).

A primeira equipa da AMI chegou ao Haiti no dia 17 de janeiro de 2010, via República Dominicana e por estrada. Nesses primeiros dias, senão semanas, a situação era caótica. Infraestruturas e redes de comunicação rodoviária e telefónicas destruídas. As estruturas aeroportuárias estavam impraticáveis, as equipas de coordenação das Nações Unidas tinham sofrido muitas perdas.

A equipa de coordenação no terreno realizou rapidamente um diagnóstico e participou nas reuniões cluster, feitas debaixo de tendas e com equipas em estado de choque pela morte de muitos dos seus colegas, de modo a delinear um projeto de intervenção alinhado com as estratégias da comunidade internacional e das autoridades locais e permitir, simultaneamente, que a intervenção fosse célere com o envio urgente de recursos humanos e logísticos. A atmosfera era caótica e pesada. A equipa da AMI prestou cuidados de saúde em 2 hospitais, tendo, só nas primeiras 3 semanas, realizado 1.743 consultas e 605 atos de enfermagem. Paralelamente, a AMI colaborou com a equipa da Proteção Civil Portuguesa no planeamento e edificação do campo de deslocados Parc Colofé. No total, foram montadas 47 tendas, incluindo um Hospital de Campanha. Foram também instaladas estruturas de acesso a água e higiene básica. A responsabilidade da gestão do campo passou a ser da AMI, à qual se somaram outros dois, cuja coordenação foi assumida através de uma parceria com a OIM – Organização Internacional para as Migrações. No total, os três campos, localizados em Port-au-Prince, alojavam 9.865 vítimas do terramoto (número que aumentou para mais de 10.000 ao longo do ano). Para assegurar esta coordenação, que envolve toda a parte logística do campo e de gestão de soluções para a população deslocada, a AMI trabalhou diariamente com diversas organizações presentes no terreno e assegurou o acesso a cuidados primários de saúde através de clínicas móveis, contando com equipas expatriadas e locais.

Durante a sua intervenção, a equipa de saúde AMI atendeu 9.820 doentes, formou 68 elementos de saúde e ativistas comunitários, promoveu 22 sensibilizações à população dos campos e acompanhou os programas de vacinação levados a cabo pelo Ministério da Saúde. No que respeita a outros serviços essenciais, a AMI coordenou diversas organizações parceiras especializadas na emissão de documentos de registo de deslocados, na provisão de água e serviços de higiene, na construção de canais de drenagem, na proteção dos mais vulneráveis, essencialmente pessoas com deficiência e idosos, na defesa dos direitos das crianças e na proteção aos órfãos, na melhoria e manutenção dos abrigos dos campos, no saneamento, na educação, etc. Esta coordenação em rede de parceiros permitiu que a AMI atingisse os resultados esperados e cumprisse os standards internacionalmente exigidos para os campos de deslocados.

No entanto, em finais de agosto, uma violenta tempestade passou por Port-au-Prince. Foram apenas 20 minutos de chuvas intensas e ventos fortes, mas suficientes para expor a vulnerabilidade do país. As ruas ficaram intransitáveis, os mercados destruídos e as populações dos campos mais expostas às intempéries fugiram para se abrigar em estruturas mais seguras. Apesar de não se terem registado mortes nos campos geridos pela AMI, 8 pessoas ficaram feridas, 176 abrigos foram destruídos e outras estruturas nos campos também foram afetadas, inclusivamente a Clínica Móvel do Parc Colofé. O trabalho que se seguiu foi de apoio às vítimas que ficaram sem abrigo pela tempestade.

Mais uma vez, em colaboração com outras organizações, a AMI substituiu 88 tendas e recuperou 78. Distribuíram-se kits de higiene e recuperaram-se os canais de drenagem. Iniciou-se imediatamente a construção de uma nova Clínica no Parc Colofé, desta vez numa estrutura semifixa que permitisse suportar a época dos furacões. Iniciou-se também o processo de substituição das tendas de plástico por estruturas mais resistentes aos ciclones. No total, foram reconstruídos 126 abrigos. Com este primeiro alerta do que estaria para vir, foram tomadas medidas para mitigar os efeitos da passagem de outros furacões. Uma campanha de informação foi montada sobre como proceder em caso de furacão e foram providenciados refúgios alternativos aos campos para os mais vulneráveis. Os mecanismos de alerta foram montados para que se respondesse a evacuações no menor tempo possível. E assim aconteceu com a chegada do Furacão Tomás. Nas 24 horas que antecederam a passagem do ciclone, parte da população em risco foi evacuada para edifícios públicos e foi possível proceder à desmontagem das tendas e proteger bens essenciais.

Infelizmente, a consequência deste furacão foi além da mera destruição: uma grave epidemia de cólera eclodiu no centro do país. A AMI tinha consciência de que devia focar-se inteiramente na prevenção, através de medidas básicas, mas essenciais, para contenção da doença: aumento das condições de higiene dos campos, disponibilidade de água potável em quantidade suficiente e informação maciça sobre hábitos comunitários e pessoais a alterar para proteção da infeção. Ao mesmo tempo, as Clínicas da AMI muniram-se de kits de tratamento de cólera e 18.000 kits de sais de reidratação oral para o primeiro tratamento de urgência aos doentes. Duas semanas após o anúncio oficial do surto, no centro do país, confirmaram-se os primeiros casos em Port-au-Prince. Nesta altura, a AMI já tinha em curso a sua estratégia, que contava com 14 ativistas, 4 promotores sociais, 7 enfermeiros, 1 médico e mais de 30 voluntários que levaram a cabo uma série de atividades essenciais que permitiram ter uma taxa de infeção muito menor do que a generalidade dos campos do país e apenas um óbito, entre 3500 a nível nacional.

No meio do caos, a coordenação em cluster, as parcerias de complementaridade por setor de atuação e a preparação e antecipação das constantes emergências em que o país mergulhava, foram as palavras-chave para uma missão longa, exigente, mas com objetivos atingidos!

A AMI manteve a sua missão de emergência por mais de um ano neste país, contando ao todo com 29 voluntários expatriados e 36 colaboradores contratados localmente. Desde então, tem desenvolvido projetos em parceria com organizações locais no setor da saúde, rádios comunitárias, nutrição, igualdade de género e várias respostas de emergência pós-terramoto que voltaram a assolar o país, o mais recente em 2021.