Europa e Rússia: Imprescindível o conhecimento histórico e uma visão estratégica convergente

 

A preocupante situação de conflito entre a Ucrânia e a Rússia fez-me pensar num texto que escrevi em 2008 (in “Humanidade”) e do qual transcrevo alguns excertos:

“Após a queda do muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991, com total irresponsabilidade e leviandade, o “Ocidente” (entenda-se os EUA e alguns países europeus) resolveu cercar a Rússia com o alargamento da NATO às suas fronteiras e a instalação de mísseis nas suas mais próximas cercanias, sob pretextos falaciosos de melhor intercetar hipotéticos mísseis iranianos… O “Ocidente” quis esfolar o urso pensando-o morto ou agonizante. Erro crasso: o urso – a Rússia – só estava adormecido. Acordou: ainda tem garras e dentes fortes e não aceita ser esfolado vivo. O anão político e militar europeu, sem liderança nem estratégia, anuiu, consentiu e calou-se perante essa estratégia de afrontamento contra a Rússia e fragilizou-se ainda mais. Em vez de se construir a Europa (do Atlântico aos Urais), incluindo a Rússia, o que teria todo o cabimento histórico, cultural, religioso, económico, energético, político, militar, geográfico e geoestratégico, para edificar um verdadeiro pilar europeu sólido no Mundo, que tanto faz falta, optou-se pela exclusão da Rússia. Os “líderes” europeus, na sua subserviência aos EUA, esqueceram-se mais uma vez que os interesses estratégicos vitais para a Europa não são sempre, nem necessariamente, os mesmos que para os EUA!

A Europa tem que encetar já, porque tem tudo a ganhar com isso, todos os esforços para incluir a Rússia no seu seio. Só assim a Rússia poderá aperfeiçoar e acelerar a sua caminhada para a democracia e se evitará mais cenários de guerra na Europa. Ainda não é tarde, mas é urgente começar-se um diálogo construtivo em vez da política da exclusão, da humilhação e do confronto que se tem levado a cabo contra a Rússia, desde 1991.

Assim atuando, daremos um contributo importante para a nossa própria salvaguarda futura, para a paz e para amenizar as tragédias humanas que se avizinham.”

Mais uma vez, configura-se uma tragédia humanitária com consequências imprevisíveis e incalculáveis na Europa e não só…

Mais do que nunca, há que falar de Paz que só pode ser construída com conhecimento e respeito mútuo e nunca com ameaças e humilhações.

 

Fernando Nobre

Presidente e Fundador da AMI