Uma história da Guiné-Bissau

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Em muitos dos países onde a AMI trabalha, o que para nós é tido como óbvio assume muitas vezes contornos inesperados. O nascimento de uma criança, por exemplo, nem sempre é tão simples como poderíamos imaginar.

Isabel Fernandes, coordenadora dos projetos de saúde da AMI em Quinara, na Guiné-Bissau partilhou connosco uma pequena história que ilustra bem o mundo de diferenças entre Portugal e este país africano ao qual estamos tão ligados.

Na Guiné-Bissau, o número de mulheres grávidas que optam por realizar o parto nos Centros de Saúde ainda é diminuto. As longas distâncias das tabancas aos Centros de Saúde são um obstáculo, mas são essencialmente os medos, os mitos e as tradições que fazem com que muitas mulheres prefiram que este momento tão importante aconteça nas suas casas e sem cuidados de higiene mínimos.

Assim, trata-se fundamentalmente de um tema para o qual os Agentes de Saúde Comunitária (ASC) constantemente sensibilizam, nas suas visitas aos agregados familiares, especialmente no acompanhamento às grávidas. O objetivo passa por desmistificar medos, mitos e tradições e desta forma aumentar o número de partos nos Centros de Saúde para que as grávidas e os recém-nascidos tenham os cuidados de saúde minimamente aceitáveis para o seu bem-estar.

Este trabalho, coordenado pela AMI e cofinanciado pela UNICEF começa, lentamente, a surtir efeito.

Numa noite de janeiro, Domingos Enxude, agente da Área Sanitária de Tite (Quinara) e formando da AMI, recebeu um telefonema um pouco inesperado. Do outro lado da linha, um homem pedia ajuda para “as muitas dores” que a sua mulher – grávida de nove meses – estava a sentir. Domingos correu para a morada do casal e chamou de imediato uma ambulância, de forma a chegar o mais rápido possível ao Centro de Saúde de Tite.

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O parto acabou por correr muito bem e a mãe reconheceu que, apesar das reticências iniciais, a opção por ter o bebé no Centro de Saúde, trouxe vantagens importantes: “a criança foi vacinada, pesada e tomou o primeiro leite”. Por isso, acredita que “se o tivesse tido em casa não seria fácil receber todo o tratamento que tive aqui”.

E não foram só os pais que ficaram felizes com este nascimento. O Domingos também teve boas razões para ficar: “ter o parto na comunidade é muito perigoso. Pode acontecer um problema e nós não podemos fazer nada”.

Foi o próprio Domingos que deu o nome à criança e, emocionado, confessou: “sinto-me muito satisfeito e por isso dei o nome à criança de Benção!”. Seguro da validade do seu trabalho, Domingos garante que irá continuar a acompanhar e a sensibilizar outras grávidas para que realizem o parto no Centro de Saúde e, nesse trabalho de sensibilização, vai passar a ter duas novas ajudas. Mãe e avó do Benção não lhe pouparam agradecimento e elogios: “Deus o abençoe para que tudo o que está a fazer corra bem!”.

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