Um Único Planeta para Todos?

De facto, o planeta Terra tem características únicas no sistema solar que lhe permitiram ser a casa onde surgiu a vida, primeiro sob a forma de organismos unicelulares que evoluíram para multicelulares, acabando por dar origem à vida inteligente, em particular ao Homo sapiens. Têm sido feitos muitos esforços para detetar formas de vida nos outros planetas do sistema solar, especialmente em Marte, mas por enquanto sem sucesso.

Será que há vida inteligente fora do sistema solar na nossa galáxia da Via Láctea ou em outras galáxias? É uma pergunta perene sobre a qual não temos ainda uma resposta, apesar dos muitos esforços de comunicação com possíveis extraterrestres, enviando para o espaço exterior sinais rádio, e da tentativa de deteção de respostas a esses sinais. Por enquanto o silêncio é total, ninguém responde.

Haverá outros sistemas planetários semelhantes ao sistema solar com planetas a gravitarem em redor de uma estrela? A resposta é afirmativa, o primeiro deles foi descoberto por Michel Mayor e Didier Queloz, em 1995, e desde então já foram descobertos 4160 exoplanetas, ou seja, planetas em órbita em sistemas planetários extrassolares. Os cientistas procuram empenhadamente descobrir planetas que sejam semelhantes à Terra, em órbita à volta de uma estrela semelhante ao Sol. Já se encontraram alguns e agora o principal objetivo é saber se têm uma atmosfera com oxigénio e ozono. Há razões para considerar que as formas de vida mais prováveis são baseadas na química do carbono, ou seja, um tipo de vida semelhante à que conhecemos na Terra.

Note-se que todos estes exoplanetas estão muito longe do sistema solar. O mais próximo orbita a estrela Proxima Centauri que se encontra a uma distância de 4,25 anos-luz. Isto significa que se pudéssemos viajar à velocidade da luz, o que é completamente impossível, levaríamos 4,25 anos a lá chegar.

Poderá ser que o planeta B esteja no sistema solar, isto é, que algum dos planetas do sistema solar tenha características físicas acolhedoras para os humanos e sirva de alternativa à Terra quando esta já estiver “usada”, tal como um objeto que se utilizou muito e ficou velho e irrecuperável. Há 2 planetas mais parecidos com a Terra que são Vénus e Marte, mas as suas atmosferas são muito diferentes da atmosfera da Terra.

Comparemos então as concentrações de oxigénio (O2) e dióxido de carbono (CO2) nos 3 planetas. O O2 é essencial à respiração dos organismos aeróbicos, em particular dos humanos. A concentração de oxigénio é de 0.0001%, 21% e 0,25% em Vénus, Terra e Marte, respetivamente. Teremos de usar máscaras de oxigénio tanto em Vénus como em Marte.

O CO2 regula o chamado efeito de estufa na atmosfera. Se a atmosfera tiver uma concentração elevada de CO2 a sua temperatura média será elevada, mas se tiver uma concentração baixa a temperatura será baixa. Na atmosfera da Terra a concentração de CO2 é atualmente de 0,04% e o efeito de estufa eleva a temperatura média de -18º C para 15ºC. Em Vénus a concentração é de 98% e o efeito de estufa eleva a temperatura média de -39ºC para 427ºC! Em Marte a concentração de CO2 é superior a 96% mas o efeito de estufa eleva a temperatura apenas de -56ºC para -53ºC porque quase não existe atmosfera! Estar na atmosfera de Marte é como estar no vácuo.

Apesar de tudo Marte é uma proposta melhor para emigrar do que Vénus. Efetivamente ouve-se falar em fundar colónias em Marte, mas não em Vénus. O bilionário americano Elon Musk, através do projeto SpaceX, planeia construir um povoamento em Marte com um milhão de pessoas em 2060. Musk afirma que “não se trata de nos mudarmos todos para Marte mas de ficarmos multiplanetários”. Segundo ele trata-se de “minimizar o risco existencial e ter uma enorme sensação de aventura”. Risco existencial? Qual risco? Presume-se que seja o risco de “usar” a Terra, a nossa “Casa Comum”, como se fosse um objeto descartável, sobre explorando os recursos naturais, poluindo, degradando e destruindo o ambiente e permitindo o avanço de uma mudança climática progressivamente gravosa e irreversível.

 

Filipe Duarte Santos,
Presidente do Conselho Nacional de Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável