Um ano após o ciclone Idai, a missão da AMI continua!

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No dia 15 de março de 2019, o ciclone IDAI atingiu a Beira, em Moçambique, de forma implacável e avassaladora, destruindo cerca de 1300km2 de área costeira, com consequências particularmente gravosas. A AMI partiu de imediato para o terreno, tendo prestado assistência médica às comunidades afetadas, participando na mitigação do risco da disseminação de doenças como a cólera e a malária. Um ano após a tragédia, é imperativo não deixar cair no esquecimento a necessidade de apostar na prevenção e na redução da vulnerabilidade das populações a doenças infecciosas num cenário de catástrofe. Para tal, a AMI permanece no país a desenvolver, em parceria com a organização local Esmabama, o projeto “Mangwana – Prevenção de Doenças de Potencial Epidémico, Pós Ciclone Idai”, com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade a doenças infecciosas prioritárias em caso de desastre nos Bairros 13 e 14 da cidade da Beira.

O Idai provocou, ainda, consequências gravosas nos países vizinhos como foi o caso de Madagáscar, Malawi e Zimbabué, resultando em 73 mil deslocados e 1.85 milhões de pessoas a precisar de ajuda internacional, de acordo com a OCHA – Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas.

Na sequência das graves inundações que deixaram um rasto de destruição em vários distritos de Moçambique, a AMI implementou uma missão de emergência na cidade da Beira, na Província de Sofala, em resposta ao pedido de ajuda internacional e ao surto de cólera que se viria a desenvolver na região, especificamente nos distritos da Beira, Buzi, Dondo e Nhamatanda.

A AMI chegou ao terreno a 22 de março e foi uma das 9 Equipas Médicas de Emergência oficialmente reconhecidas pelo Ministério da Saúde de Moçambique a intervir na Beira, sendo que o projeto implementado contou, numa primeira fase de resposta de emergência com equipas expatriadas, seguida de uma fase de intervenção com uma organização local, com o objetivo de contribuir para reduzir os índices de mortalidade e morbilidade associados a doenças infeciosas prioritárias na população afetada pelo ciclone.

A primeira fase do projeto teve uma duração de dois meses e focou-se na disponibilização de assistência médica e medicamentosa à população abrangida pelo Centro de Saúde Manga Nhaconjo, numa intervenção articulada com o Ministério da Saúde de Moçambique e com o Cluster de Saúde das Nações Unidas. Contou com a participação de uma equipa liderada pelo Presidente da AMI e constituída por 11 expatriados e 19 elementos locais, entre pessoal de saúde, logística e outros de apoio à missão.

Perante a necessidade de aumentar a capacidade de resposta ao surto de cólera e à necessidade de isolamento desses casos, a equipa da AMI passou a estar dedicada a este tipo de atendimento em exclusivo, no Hospital de Campanha (HDC), que instalou no exterior do Centro de Saúde de Manga Nhaconjo, de forma a garantir o tratamento adequado e necessário dos pacientes que apresentassem sintomas de cólera.

ami_centrodesaude_beira_mocambiqueA coordenação e implementação deste projeto, bem como a instalação do Hospital de Campanha foram resultado de um trabalho conjunto com as equipas médicas locais do Centro de Saúde. Durante o período de dois meses, a equipa da AMI realizou 2.328 consultas, das quais 726 crianças com idades inferiores a cinco anos. Do total de consultas prestadas, 869 foram casos de diarreia aguda compatíveis com cólera, tendo 168 pessoas com estes sintomas acabaram sido internadas com tratamento por fluidoterapia.

No fim da 1ª fase da intervenção de emergência, a AMI doou o Hospital de Campanha ao Centro de Saúde da Manga Nhaconjo, bem como todos os medicamentos, materiais médicos e outros materiais e infraestruturas que o compunham. Foram, ainda, dinamizadas com a equipa local do HDC e do Centro de Saúde, 5 sessões de reciclagem de conhecimento sobre Antibioterapia; Doenças diarreicas (incluindo cólera) em contexto de emergência; Medidas de higiene, assepsia e controlo de infeções; Malária; e Gestão psicológica de casos em emergência.

De forma a garantir que após a 1ª fase da resposta de emergência, as comunidades dos bairros 13 e 14, servidos pelo Centro de Saúde de Manga Nhaconjo, na Beira, continuariam a ser acompanhadas ao nível da saúde, a AMI avançou com a 2ª fase da intervenção, a partir de junho de 2019 e até maio de 2020, em parceria com a Associação local ESMABAMA.

Por se considerar importante continuar a trabalhar, após a resposta de emergência, no sentido de reduzir a vulnerabilidade da população relativamente a doenças infecciosas prioritárias num contexto de pós-desastre, apostou-se na formação de ativistas comunitários, para que os mesmos possam desenvolver um conjunto de ações de sensibilização nas escolas e nos bairros anteriormente referidos. Foram abordadas questões relativas a práticas de prevenção pessoal e ambiental, para doenças infecciosas prioritárias, nomeadamente o controlo vetorial. Em simultâneo, têm sido identificados e referenciados casos de doenças de cariz infeccioso, bem como garantido o acompanhamento e disponibilização de insumos de reidratação oral e de desinfeção das águas de consumo aos agregados familiares aos quais seja diagnosticado algum caso de cólera e/ou malária. Toda a intervenção comunitária é implementada em estreita coordenação com a Direção e técnicos de saúde do Centro de Saúde de referência, bem como com os professores das escolas e os líderes das comunidades abrangidas.

Recorde-se, ainda, que durante a resposta de emergência, a AMI retomou o contacto e parceria com a Congregação das Irmãs de São José de Cluny, e entregou 3,5 toneladas de alimentos ao orfanato gerido por esta congregação, às Irmãs Franciscanas de Maria e à Paróquia de São José.

Para que toda a intervenção fosse possível, a AMI lançou uma campanha de angariação de fundos, que resultou em 333.379,20€ (€54.318,24 provenientes da campanha autorizada pelo MAI entre 25 e 31 de março) graças à generosidade da sociedade civil, empresas e outros parceiros da AMI.