Ucrânia: a Missão continua

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A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia, despoletando um conflito que deu origem a uma grave crise humanitária e levou milhões de pessoas a abandonar o país, sobretudo para as regiões fronteiriças. Segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), em apenas 6 semanas, mais de 4,3 milhões de pessoas saíram da Ucrânia e 7,1 milhões estão internamente deslocadas. Mantendo-se fiel à sua vocação em Ação Humanitária, a AMI desenvolveu a sua intervenção na Ucrânia a partir das fronteiras com a Hungria e com a Moldávia, numa primeira fase com equipas expatriadas e depois em parceria com organizações locais, estando também a dar apoio a refugiados ucranianos nos seus equipamentos sociais em Portugal.

No dia 2 de março, uma equipa da AMI partiu para a fronteira com a Hungria, com o objetivo de fazer um levantamento exaustivo de necessidades no terreno, estabelecer contactos com organizações locais e solicitar as devidas autorizações junto das autoridades húngaras para poder intervir.

Verificou-se a dificuldade de todo o processo de fuga da Ucrânia, devido aos longos percursos efetuados pelos refugiados para chegarem à fronteira, fosse pelo risco associado a deslocações, muitas vezes, debaixo de fogo, fosse pelas temperaturas muito baixas, ou pelo facto de a maioria dos refugiados serem maioritariamente mulheres (muitas grávidas) acompanhadas de crianças muito pequenas (aumentando ainda mais o grau de vulnerabilidade) e os inúmeros check points das forças ucranianas, acrescido do facto de os homens não estarem autorizados a sair do país e as pessoas em estado de saúde mais grave não conseguirem sequer deslocar-se.

As principais infraestruturas e serviços básicos na Ucrânia deixaram de ser assegurados, provocando escassez de stock de medicamentos, alimentos, bens de primeira necessidade, água, aquecimento e combustível, devido à destruição causada pela guerra. Por outro lado, as estruturas de saúde das cidades fronteiriças do lado ucraniano viram as necessidades de atendimento crescerem em muitos casos em 100% devido aos deslocados.

A intervenção da AMI na Hungria focou-se na necessidade mais urgente de envio de medicamentos e bens essenciais para a Ucrânia através de parceiros locais como a Hungarian Baptist Aid, a Câmara Municipal de Vásárosnamény, a Cáritas Hungria, a Cruz Vermelha Húngara, e uma clínica em Uzhhorod na Ucrânia. De referir também, o apoio à Conferência de S. Vicente de Paulo romena, que surgiu durante uma missão exploratória da AMI à fronteira entre a Hungria e a Roménia e que se traduziu na entrega de medicamentos a um hospital pediátrico em Vynohradiv, na Ucrânia.

Houve ainda algumas ações pontuais tais como a entrega de medicamentos para a abertura de uma clínica médica para atendimento de refugiados na Hungria; a doação de brinquedos para um centro de acolhimento; o apoio na identificação de pessoas interessadas em vir para Portugal e, ainda, o acolhimento e acompanhamento de um jovem ucraniano de 17 anos, desde a passagem da fronteira da Ucrânia com a Hungria até à chegada a Portugal, onde se reuniu com familiares que o esperavam nos Açores.

A AMI privilegiou desde o primeiro momento, a aquisição nos países fronteiriços de medicamentos e bens essenciais a enviar para a Ucrânia, por forma a diminuir custos, facilitar o processo logístico e sobretudo para garantir que as bulas dos medicamentos são compreendidas tanto por médicos como pelos próprios refugiados, e ainda para o fazer de acordo com as reais necessidades no terreno.

Tânia Barbosa, Administradora da AMI e Diretora do Departamento Internacional, que liderou a missão de emergência na Hungria, recorda a surpresa de um médico húngaro quando percebeu que as bulas dos medicamentos entregues pela AMI estavam em húngaro e não numa língua estrangeira. A adequação da ajuda às reais necessidades do terreno é, não só necessária, mas também crucial para ser verdadeiramente eficaz.

A 14 de março, uma segunda equipa da AMI partiu para a Moldávia, um país que havia manifestado a necessidade de apoio imediato para dar resposta ao fluxo de refugiados. Após o levantamento de necessidades no terreno, a equipa deu início ao fornecimento de medicamentos e kits básicos de higiene, nas regiões fronteiriças de Chisinau e Stefan Voda, em parceria com organizações locais, como o Centro de Acolhimento Temporário de Palanca, o Centro Multifuncional Empatie em Tudora, a Fundatia Regina Pacis e o Charity Centre for Refugees em Chisinau e a Direção Regional de Saúde – Centro Hospitalar de Stefan Voda.

Estas duas equipas contaram com 6 elementos no total, dos quais 5 expatriados e 1 local (na Hungria) cujo conhecimento do contexto e da língua foi fundamental para o sucesso da intervenção, bem como o facto de um dos elementos expatriados ser de nacionalidade ucraniana e ter desempenhado a função de intérprete na missão na Moldávia.

Em Portugal, o trabalho em rede entre entidades públicas e terceiro setor está muito bem coordenado, estando os nossos 11 equipamentos sociais em todo o país (Centros Porta Amiga e Abrigos Noturnos) preparados, desde o primeiro momento, para serem reforçados e prestarem – em simultâneo com o trabalho que já desenvolvem com os beneficiários em Portugal – o apoio necessário através do projeto “Os AMIgos são para as Emergências”, que visa apoiar e promover a integração de famílias refugiadas provenientes da Ucrânia.

À data de fecho desta edição, embora tenham chegado pedidos de apoio de famílias ucranianas a alguns equipamentos sociais de Lisboa e Porto, a maior afluência regista-se no Centro Porta Amiga de Coimbra, para onde já foram encaminhadas 85 famílias (204 pessoas), estando a ser prestado apoio, diariamente, em média, a 4 novas famílias de refugiados. Para além da distribuição de bens de primeira necessidade à população refugiada, o Centro Porta Amiga de Coimbra presta também acompanhamento social no âmbito das necessidades de habitação, educação, segurança social e emprego, assim como deu início a aulas de português para estrangeiros. Finalmente é também dada alguma orientação às próprias famílias de acolhimento que, na sua maioria, se veem também confrontadas com dificuldades financeiras para poderem suportar apoio durante muito tempo.

Os desafios continuarão a ser muitos no futuro, mesmo quando esta crise já não for notícia de abertura de telejornais, e por isso, mesmo após o regresso das equipas expatriadas, a AMI continua a enviar medicamentos para a Ucrânia, nomeadamente para a Uzhhorod Medical Center que, desde o início do conflito, passou a receber o dobro dos pacientes. Foi aliás estabelecida uma parceria com esta clínica para o envio mensal de medicamentos durante 6 meses, no valor de €10.206, bem como com o Charity Centre for Refugees na Moldávia, através do financiamento da aquisição de bens essenciais para a população refugiada na região de Chisinau e com a Conferência de S. Vicente de Paulo romena, que acolhe refugiados ucranianos na Roménia.

A intervenção da AMI só foi e continua a ser possível graças à generosidade da sociedade civil portuguesa, desde cidadãos a empresas, que se uniram para ajudar a população ucraniana, numa demonstração de solidariedade ímpar.

Este trabalho conjunto é fundamental para o sucesso de qualquer missão de Ação Humanitária e para a construção de um futuro melhor, pelo que deixamos um agradecimento muito especial a todos os que apoiam esta missão, desde o lançamento da campanha de emergência em março, com destaque para alguns dos principais parceiros, nomeadamente a Altice Portugal, as Coleções Philae, a Fundação Ageas, a Galp, o Grupo Auchan Portugal, a Hovione, a Innoweiser e a SIBS, entre tantos outros, para além da generosidade dos doadores individuais, e que confirmam a importância desta cooperação organizada e concertada, assente numa relação de confiança e transparência e na preocupação comum de salvaguardar a vida humana e promover a Paz.

Após a publicação deste artigo, iniciámos o apoio a um projeto de apoio à integração de famílias refugiadas ucranianas na região de Bihor, na Roménia, em parceria com a International Children’s Safety Service (SISC) e apoiámos a construção de um espaço seguro transição para crianças refugiadas junto à estação de Záhony, na fronteira da Hungria com a Ucrânia.