Todo o homem precisa de uma casa

Visitámos os Abrigos Noturnos da AMI em Lisboa e no Porto pudemos e fomos conhecer de perto o funcionamento destes equipamentos sociais e das respetivas equipas técnicas que lidam diariamente com a dura realidade de pessoas cuja garantia de um abrigo lhes foi retirada pelas frágeis circunstâncias das suas vidas.

Em ambos os casos, os abrigos da AMI localizam-se em eixos centrais das cidades de Lisboa e do Porto e são geridos, integrando os Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem Abrigo (NPISA), que atuam sob orientação da Estratégia Nacional de intervenção com Pessoas em Situação de Sem Abrigo (ENIPSSA) 2017 – 2023.

Não são respostas de emergência, mas respostas a médio prazo, caracterizadas pelo acompanhamento, orientação, capacitação pessoal, social e profissional das pessoas alojadas.

O princípio que prevalece nos abrigos da AMI é o de que as pessoas em situação de sem abrigo irão efetivamente reintegrar-se num espaço de tempo definido até se restabelecerem social e economicamente. Para este efeito, são acionados mecanismos de intervenção, por parte dos técnicos dos abrigos, adequados às circunstâncias individuais de cada pessoa mas também tendo em conta a realidade urbana e habitacional de cada um destes territórios.

Em Lisboa

O que leva as pessoas a encontrar como solução temporária o Abrigo da Graça é na grande maioria das vezes “uma sinalização feita por uma equipa de rua de uma instituição ou um gestor de caso ligado à rede (NPISA) que nos alerta que determinada pessoa tem critérios para ser alojada connosco” esclarece Joana Frade, a diretora do Abrigo da AMI na Graça. “Por não termos um caráter de emergência, quem cumpre os critérios entra e por isso tem de haver sempre um período de avaliação para percebermos se podemos trabalhar com a realidade ou contexto de determinada pessoa. Se não tivermos forma de aceitar por não corresponder aos critérios do Abrigo, procuramos sempre uma resposta mais adequada”.

Alguns dos critérios de admissão mencionados pela Diretora do Abrigo da Graça passam pela capacidade de trabalhar, ou seja, as pessoas devem encontrar-se em idade ativa (dos 18 aos 65 anos), ser do sexo masculino, já que este abrigo é exclusivo para homens, não terem consumidores de estupefacientes ou álcool ou estarem em processo de recuperação, e, acima de tudo, estarem motivados para se autonomizarem.

“Uma vez que as situações são sinalizadas junto dos gestores de caso, procuramos acautelar determinadas questões, nomeadamente a situação laboral, de saúde, ao nível de documentação legalizada…para que possamos perceber em que matérias da vida desta pessoa devemos intervir” – explica Joana Frade.

A capacidade total do abrigo da Graça é de 17 pessoas e o período máximo de permanência é de 6 a 8 meses, embora exista autonomia para prolongar o alojamento da pessoa no caso de se encontrar em formação que exceda este período de tempo, pelo que a prioridade é sempre preservar a estabilidade dos residentes.

Ricardo Alves, 39 anos, e Flávio Dantas, 47 anos, têm duas histórias de vida totalmente distintas, mas os seus caminhos cruzaram-se pelo mesmo motivo: não tinham um lugar onde habitar. Durante alguns meses da sua vida, Ricardo e Flávio viveram juntos no Abrigo da Graça.

Flávio veio do Brasil para Portugal há dois anos na tentativa de encontrar, para si e para a família que deixou no país de origem, uma fonte de rendimento mais segura. Nunca parou de trabalhar mas foi obrigado a fazer escolhas. “Antes de vir para o abrigo da Graça, estive no abrigo do casal Vistoso. Recorri ao abrigo de emergência durante a pandemia porque ou pagava o quarto onde vivia ou continuava a enviar dinheiro para a minha família no Brasil”. Flávio tem ocultado da família a sua situação atual, quer voltar definitivamente ao Brasil no início do ano que vem e para isso está a poupar todo o dinheiro que consegue através do trabalho, sem que, de momento, ter onde dormir, fazer a sua higiene pessoal e alimentação seja uma preocupação.

Quando conversámos com o Ricardo, este tinha saído do abrigo da Graça há pouco mais de um mês e encontrado uma oportunidade de trabalho no Algarve, com alojamento incluído, na área onde sempre trabalhou.

A morte da sua mãe agravou a situação familiar frágil em que se encontrava e estava no limiar de perder a casa municipal onde vivia, o que o levou à situação limite de sair de casa com “uma mochila às costas, dois pares de meias e €1,45 no bolso”, descreve o mesmo.

Viveu no abrigo da Graça durante 5 meses, em resultado da sinalização da sua gestora de caso que já acompanhava a sua realidade familiar há algum tempo, embora fosse a primeira vez que se encontrasse nesta situação. “Nunca tinha ouvido falar do Abrigo da Graça. A minha intenção era dirigir-me ao Casal Vistoso e pedir ajuda, mas as coisas correram de outra forma e encontraram-me uma resposta melhor (…) Adaptei-me bem à vida no abrigo”.

No decorrer da sua estadia no Abrigo, teve a orientação da psicóloga Fátima Guedes para procurar trabalho na sua área. Entre as entrevistas e as dinâmicas de grupo desenvolvidas pela equipa do abrigo, Ricardo ainda apoiou a distribuição alimentar local promovida pela Câmara Municipal de Lisboa e dinamizada pela AMI. A sua vida agora está a correr “às mil maravilhas”, como o próprio descreveu.

No Porto

O Abrigo do Porto tem a lotação de 27 homens. Ao momento da redação desta peça estava totalmente preenchido. Fica nas cercanias da Estação de Campanhã, especificamente no bairro da Lomba ou “da chinesa”. É um espaço que em nada denuncia a sua amplitude pela fachada do edifício. Ao entrarmos ficamos agradavelmente surpreendidos pela familiaridade do lugar. Àquela hora do dia, as poucas pessoas que não estão ausentes a trabalhar ou a ter formação ficam na zona de convívio ou no terraço onde leem o jornal e conversam.

Ao passarmos pela área de refeições e zona comum, um corredor conduz-nos para a secção de quartos (um para três pessoas), todos eles muito luminosos, cada um decorado com os bens pessoais de quem lá dorme. Um espaço com melhores condições de habitabilidade e vivência que muitas casas daquela zona da cidade, marcada pela degradação.

Susete Santos, socióloga de formação e diretora do Abrigo, conduz-nos pela casa à medida que nos vai contando que a equipa do abrigo é composta por uma assistente social, uma psicóloga e uma auxiliar de serviços gerais. Descreve-nos que a população que está em situação de sem abrigo no Porto se tornou mais flutuante, nomeadamente a permanecer no abrigo, em consequência da instabilidade económica e habitacional que a pandemia trouxe, mas que por norma “as pessoas que estão cá connosco ou decidiram ocultar a sua situação da família ou não têm retaguarda familiar ou viveram toda a vida institucionalizadas”.

Entre os vários reajustes que teve de haver no abrigo devido ao plano de contingência, nomeadamente alargamento pleno do horário de funcionamento, rotinas de limpeza, higiene e alimentação, deu-se prioridade ao trabalho de intervenção e integração através dos meios digitais.

“Esperemos que a pandemia esteja balizada no tempo, porque não queremos condicionar o processo de autonomização das pessoas que estão connosco.”

Susete Santos esclarece que “era importante para nós manter o trabalho que sempre nos diferenciou, este trabalho de proximidade (…) esperemos que a pandemia esteja balizada no tempo, porque não queremos condicionar o processo de autonomização das pessoas que estão connosco. Por exemplo, no mês passado entraram 4 pessoas novas, porque saíram 4 pessoas, ou seja, conseguimos criar a estrutura robusta para que estas pessoas conseguissem trabalho, uma fonte de rendimento, uma solução habitacional e acima de tudo capacidades para suster esta autonomização, pois só assim será uma autonomização efetiva”.

Carlos Cerqueira, 37 anos, é natural de Ponte de Lima e está no alojado no abrigo do Porto há pouco mais de seis meses. Não sabe ler, nem escrever e por estes motivos, ao longo dos anos, trabalhou no que lhe foi possível, desde manutenção de carrosséis até a fazer mudanças. Com uma profunda timidez, conta-nos que a instabilidade financeira e a falta de apoio familiar levaram-no a procurar ajuda. Foi-lhe atribuído um gestor de caso e acabou por ser recebido pelo abrigo da AMI. Atualmente, e feita a avaliação das principais necessidades do Carlos por parte da equipa técnica do Abrigo, está a fazer o 4º ano no Centro de Formação do Cerco e espera conseguir fazer “pelo menos até ao nono ano”. Em simultâneo encontra-se a tirar um curso de jardinagem, na esperança de exercer o seu trabalho de sonho. “No futuro, espero conseguir obter mais escolaridade e saber mais sobre informática. O que eu gostava era de trabalhar em jardins, mas se encontrar algo na construção também não fico mal”.

À saída do abrigo, houve quem ainda quisesse falar connosco. Um senhor robusto de rosto afável, coxeava com vigor na nossa direção, não querendo deixar de nos contar a sua história. Aos 56 anos, Carlos Morales Medina viu-se pela primeira sem teto nem chão. Veio em 2017 da Venezuela, seu país de origem, para Portugal onde já tinha vivido anos antes. Decidiu regressar pela vulnerabilidade política e económica do seu país e por adorar a cultura portuguesa. A sua vocação é a cozinha, formou-se em Faro e trabalhava na altura numa marisqueira em Aveiro. “A certa altura decidi aceitar uma proposta de trabalho em Paris para trabalhar num restaurante de comida portuguesa. Fui por dinheiro, lá o ordenado era 4 vezes maior que em Portugal, não sei se foi uma decisão boa ou má, mas foi uma decisão da altura”.

Poucas semanas mais tarde, a pandemia chegou à Europa e o confinamento obrigou o restaurante a fechar. Por estar há tão pouco tempo no país ainda não possuía um “titre de séjour” (cartão de residência) que lhe permitisse ser integrado em lay-off. Ficou por conta própria. As fronteiras fecharam e só restou a Carlos o metro de Paris até conseguir arrecadar algum dinheiro para voltar a Portugal quando as restrições abrandassem. Ao regressar recebeu uma proposta de trabalho em Beja e, com o pouco dinheiro que tinha no bolso, foi rumo a sul. Percebeu, no entanto, que a empresa para onde ia trabalhar nem sequer existia. Ficou na paragem de autocarro. Após fazer uma denúncia e contactar os serviços de emergência social foi alojado num albergue até conseguir arranjar um trabalho temporário num restaurante. Quando lhe foi possível voltou para o norte do país. Foi através da Segurança Social que foi sinalizado e acabou por ir parar ao abrigo da AMI. Conta a sua história de olhos húmidos e voz trémula, “cheguei aqui há cerca de um mês (…) deixe-me dizer-lhe: esta casa salvou-me a vida, tenho sido apoiado desde as coisas mais simples, ou seja, alimentação e higiene, até às questões mais complexas como a minha residência em Portugal que expirou, e a minha saúde. Tenho uma artrose na anca que ficou muito agravada em França e sinto muita dor. Desde que cheguei já me conseguiram uma consulta no hospital, fiz um raio X, estou a ser medicado e serei encaminhado para cirurgia”.

O objetivo de Carlos é voltar a trabalhar como chefe de cozinha e trazer para Portugal a sua filha de 8 anos, que caracteriza como sendo o seu “avião”. Explica-nos que “aqui no abrigo resgataram-me do medo e da incerteza (…) para mim, a coisa mais importante para um ser humano é a estabilidade mental, a paz de espírito, saber que posso sair à procura de trabalho e que tenho um sítio para onde voltar, onde posso comer e dormir. É uma bênção”.