Síria – Saúde mental, a desconstrução de um tabu

A primavera árabe trouxe à população síria a esperança de um futuro democrático para o seu país. Em 2011, os sírios de Deera ocuparam as ruas da cidade em demonstrações pacíficas de resistência ao governo de Bashar Al-Asad. Rapidamente, a tensão entre o governo sírio e a oposição despoletou uma guerra civil sem precedentes, que nos últimos oito anos atingiu violentamente a população e danificou o património histórico e cultural do país.

Quase meio milhão de pessoas morreram no decorrer deste conflito continuando sem um cessar fogo à vista. A instabilidade da região abriu a porta a milícias como o Daesh (ISIS), que impuseram um clima de terror, opressão e violência, o que levou ao agravamento da insegurança vivida no país. São cerca de 4 milhões os refugiados sírios em campos de acolhimento nos países vizinhos (Turquia, Líbano e Jordânia). A procura de segurança, estabilidade e paz é o objetivo que leva a que muitos milhões de pessoas abandonem em desespero a Síria na esperança de conseguir chegar à Europa, mas mesmo esse trajeto não está livre de incerteza e de perigo.

Para além daqueles que conseguiram sair do seu país, houve os que ficaram, ou por falta de meios ou recursos económicos. Houve quem ficasse na Síria por amor à bandeira, na esperança de dias melhores. Houve quem quisesse ficar para lutar, para manter unida a sua família e conservar as suas casas. Muitos não conseguiram. No país, existem atualmente 6.2 milhões de pessoas, incluindo 2.5 milhões de crianças internamente deslocadas. Há famílias deslocadas pela segunda e terceira vez. As pessoas movem-se para zonas do país onde lhes possa ser assegurado o mínimo de serenidade e acesso a bens comunitários, abrigo, cuidados de saúde e educação.

Neste contexto, em fevereiro de 2018, a AMI decidiu estabelecer uma parceria com a ONG Syrian Relief and Development (SRD), uma organização sem fins lucrativos síria criada em 2011, com o objetivo de promover junto da sociedade civil, respostas e serviços no sector da Saúde Mental e Psicossocial.

Nos primeiros anos de conflito, a Syrian Relief and Development identificou que a depressão, o medo, o pânico, stress pós-traumático se tornaram uma realidade generalizada de uma guerra que não poupou ninguém. Embora o estigma e as restrições sociais fossem obstáculos que demovessem aqueles que precisavam de obter cuidados de saúde mental, a SRD procurou garantir que diversas comunidades no norte da Síria tivessem conhecimento dos meios disponíveis para o tratamento de doenças do foro psicológico e emocional, nomeadamente a pessoas internamente deslocadas, por serem consideradas especialmente vulneráveis a este tipo de patologias.

Foi detetado pela SRD que determinados grupos alvo sofriam de uma disconexão sociocultural do ambiente em que se encontravam, devido a múltiplas deslocações forçadas dentro do país e por se concentrarem fundamentalmente na satisfação de necessidades básicas, em detrimento da manutenção da sua saúde mental.

Assim, a SRD mobilizou 60 agentes comunitários, providenciando-lhes formação para a sinalização e orientação de pessoas com possíveis perturbações traumáticas, nas províncias de Aleppo e de Idlib. Mais de 3000 pessoas foram sinalizadas e encaminhadas para serviços públicos. No entanto “verificámos ao estabelecer a ligação entre as pessoas e os serviços disponíveis que a falta de conhecimento e o estigma relativamente à saúde mental não eram os únicos obstáculos. Foi necessário garantir um suporte comunitário continuado, de modo a assegurar que os beneficiários tivessem conhecimento das respostas psicossociais disponíveis e assim facilitar o seu tratamento e recuperação”, explica Essam Abdely, coordenador do projeto.

A segunda fase do projeto, que se desenvolverá até julho de 2020, foi implementada segundo a análise dos resultados obtidos na primeira fase. Se numa fase inicial, pessoas com patologias psicológicas, mentais e neurológicas não recorriam aos serviços disponíveis, por falta de conhecimento e estigma associado a estas questões, numa segunda fase verificou-se que o acompanhamento continuado dos pacientes carecia de uma intervenção intersectorial e recursos para este efeito, já que os serviços se encontravam sobrecarregados. Assim, 40 agentes comunitários que já colaboravam na primeira fase do projeto foram capacitados para prestar “follow up sessions” aos doentes diagnosticados, no seio das suas comunidades, em particular a pessoas que apresentassem risco de suicídio.

Paralelamente, foi necessário mapear as respostas disponíveis para fazer face às necessidades dos pacientes com MNS (Mental, Neurological, Substance Use), promovendo a integração e criação de sistemas de referenciação eficazes e networks entre sectores na área da saúde.

Segundo Ahmad Hendawi, agente comunitário ou MHSSP ( Mental Health Psycosocial Supporter) da Syrian Relief and Development, na segunda fase do projeto “procurámos melhorar o sistema de mapeamento dos serviços e sectores disponíveis aos beneficiários, otimizando o seu acesso a referenciação, medicação, consultas e exames, através da expansão da distribuição dos serviços nas regiões de Jerablus, Azas e Albab“.

Os agentes comunitários, em conjunto com técnicos e profissionais de saúde na área de saúde mental reconheceram ainda a necessidade de focar os seus esforços no acompanhamento a mulheres grávidas e na fase de puerpério, uma vez que se manifestavam diversos casos de extrema vulnerabilidade psicológica, sentimentos de insegurança e stress pós traumático (por motivos de guerra, perda do progenitor, carência de um núcleo familiar alargado, falta de meios económicos, recursos parcos, etc).

Neste sentido, a segunda fase do projeto contemplou uma subcomponente designada “Thinking Healthy”. Este programa formou 12 parteiras para intervirem junto das mulheres e encorajarem-nas a expor os seus receios, medos, distúrbios emocionais e psicológicos, relacionados com o facto de terem de atender às necessidades dos recém-nascidos num clima de guerra. “Thinking Healthy” consiste num programa de três passos que visa promover o pensamento saudável e a expressão de sentimentos negativos associados à gravidez, através de dinâmicas focalizadas para cada caso.

Ahmad Hendawi salienta que “as parteiras são fundamentais neste processo de acompanhamento de mulheres grávidas ou em pós-parto, pois são elas que conseguem a proximidade e confiança necessárias para aprofundar questões relacionadas com a ligação mãe/bebé, com o ambiente que rodeia as mães, assim como a pressão associada a esta fase das suas vidas”.

De acordo com o coordenador de projeto, Essam Abdely, “esta intervenção está a ter um impacto muito positivo no terreno, nesta matéria relacionada com o bem-estar psicológico e emocional e o modo como as pessoas podem chegar aos serviços e vice-versa (…)”, reforçando ainda que, “o apoio da AMI influenciou significativamente o desenvolvimento deste projeto”. Reconhece ainda que “este é um trabalho que exige continuidade, amplificação, e que ainda carece de inúmeros recursos. Queremos continuar a chegar às pessoas cuja saúde mental e psicológica se encontra comprometida e conseguir garantir o seu bem-estar e consciência emocionais”.

Ultimamente, face a situação que o mundo vive, uma pandemia em que todos os meios disponíveis estão a ser canalizados para combater a Covid-19 e evitar o seu contágio, na Síria, esta é uma batalha acrescida. A Syrian Relief and Development está a direcionar as suas mensagens de sensibilização, através dos agentes comunitários, às populações do norte para promover medidas de prevenção face ao novo coronavírus.