Saúde mental: é urgente intervir!

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a SAÚDE como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Sabendo que estes três aspetos estão interligados, facilmente podemos compreender que não podemos intervir na saúde física se a saúde mental não estiver equilibrada, nem esperar melhorias sociais se a parte emocional não for considerada. A intervenção multidisciplinar é essencial e é com base neste princípio que se pauta a intervenção da AMI.

Sabemos que nos últimos anos o consumo de antidepressivos duplicou, tendo vindo a triplicar desde o ano 2000. No entanto, o rácio de psicólogos no Serviço Nacional de Saúde é manifestamente insuficiente. Existem menos de três psicólogos para cada 100 mil habitantes. Ao nível dos cuidados primários de saúde nacionais existem 250 psicólogos. O tempo de espera para uma primeira consulta de psicologia é de seis meses a um ano, com intervalos entre consultas semelhantes. A taxa de incidência da depressão em Portugal é a segunda mais elevada da Europa. São diagnosticados por ano 400.000 casos, mas a população portuguesa, na sua maioria, não dispõe de recursos financeiros para ir a uma consulta de psicologia no serviço de saúde privado.

Vários estudos já vieram comprovar que quando nos encontramos em situações mais vulneráveis, com menos recursos, nomeadamente financeiros, a nossa capacidade para resolução de problemas e tomadas de decisão fica emocionalmente afetada. Consequentemente, será logicamente mais difícil quebrar o ciclo de pobreza numa situação debilitada ao nível físico e emocional.

Sabemos ainda que não dar a importância devida à Saúde Mental, no que diz respeito ao investimento e concretização, terá impacto numa grande diversidade de patologias físicas e/ou mentais, reduzindo a qualidade de vida das pessoas, trazendo um custo suplementar no orçamento público e na atividade normal das empresas.

Para agravar este cenário, é sabido que a pandemia de COVID-19 originou problemas de saúde mental da população. A ameaça do desemprego, a perda de rendimentos, bem como o stress e ansiedade provocados pela deterioração das condições de vida, passaram a estar presentes no dia-a-dia de muitas famílias. Houve cidadãos que perderam familiares e amigos e não puderam cumprir os habituais rituais de luto. O excesso de informação contraditória e a incerteza sobre a doença vieram agravar o medo e a ansiedade e desencadearam um aumento de doenças do foro psíquico e psicológico.

Paradoxalmente, apesar de haver maior necessidade, a procura de apoio psíquico nos serviços públicos diminuiu, devido certamente, em parte, à preocupação em não sobrecarregar os serviços, as limitações impostas pelo confinamento e ao medo de ser infetado pelo vírus. As pessoas mais vulneráveis ficaram consequentemente mais expostas a distúrbios do foro mental e com acessos limitado a apoios possíveis.

Torna-se pois urgente e fundamental intervir nesta área, pois é expectável que continue a aumentar o sofrimento mental. A população mundial está no seu todo a ser afetada psicologicamente em maior ou menor profundidade. Quem já tinha uma predisposição para sintomas de fobia social, paranoia, ansiedades, hipocondria, vê a sua angústia escalar para níveis alarmantes e difíceis de controlar, e sem apoio especializado. Toda a população que não consiga parar para pensar um pouco e sobretudo lidar com a mudança abrupta da sua vida, vê-se arrastada por esta confusão de sentimentos de grupo.

Ciente destas problemáticas e da sua emergência, a AMI avançou com uma intervenção mais dinâmica, na área da saúde mental, junto dos seus colaboradores e beneficiários.

Para além de um maior investimento no trabalho dos psicólogos no apoio aos beneficiários acompanhados pela AMI, a instituição acionou o apelo a profissionais voluntários para alargar e aprofundar a sua intervenção. E tendo em conta as limitações da pandemia, assinou um protocolo com uma plataforma de apoio psicológico online, a “khushiminds”, através da qual os colaboradores e beneficiários da AMI podem marcar consultas online ou telefonar sempre que sintam necessidade deste apoio. Este projeto conta com o apoio do Banco Carregosa.

A sociedade civil está sensível a esta necessidade de intervenção porque todos, de alguma forma, foram afetados por estas mudanças provocadas pela Covid-19. Infelizmente, as repercussões na saúde mental ainda vão continuar a fazer sentir-se, pelo que é urgente uma intervenção célere e atempada, de forma a ajudar as pessoas mais fragilizadas a encontrar soluções. Se não se definir a saúde mental como uma prioridade, vai ser mais difícil criar condições para que os mais vulneráveis consigam ultrapassar as dificuldades económicas e sociais.