Retrato de uma mulher sem casa

Ao entrarmos no enorme terreno exterior da Casa do Lago, um abrigo de urgência exclusivo para mulheres, criado em maio de 2020, já conseguimos ouvir a voz da senhora Arminda a tagarelar com a companheira do primeiro andar, sem ainda sabermos que é ela quem nos abrirá a porta da sua história de vida.

Com 67 anos, Arminda Maria Ramos Silva viu-se pela primeira vez em situação de sem abrigo. Com 44 anos de descontos quer reformar-se, mas este direito é-lhe vedado. O indeferimento do seu caso alega “falta de requisitos”, requisitos estes que desconhecemos.

Assim, a Casa do Lago foi a solução que o Estado encontrou temporariamente para a Arminda cuja vida ficou suspensa pela falta de oportunidades e pela falta de respostas sociais mais apropriadas. Criada no contexto da pandemia, a Casa do Lago é um projeto temporário com os dias contados, poderá fechar dentro de alguns meses, não se sabe quando. E depois, para onde vai a Arminda?

Como é que descreveria a sua vida até há 9 meses quando chegou à Casa do Lago?

A minha vida estava difícil porque o meu posto de trabalho foi extinto. Eu era cafeteira num hotel e fui para o fundo de desemprego, só que quando recebemos o fundo temos de ir a todas as convocatórias para recebermos o subsídio e uma das cartas que me dirigiram extraviou-se e eu não sabia. Quando dei por mim, tinham-me retirado o subsídio e pelos vistos já não havia nada a fazer. Entretanto puseram-me na rua de onde eu estava a morar há oito anos porque eu não tinha como pagar a renda e fui viver para casa de uma prima. Só mais tarde é que comecei a receber o Rendimento Social de Inserção. Em casa da minha prima, as coisas não correram bem, ela é uma pessoa já de idade. A determinada altura tive de sair de lá, dormi uma semana na rua. A pandemia teve a sua influência nestes acontecimentos da minha vida, mas não foi por causa da pandemia que perdi o meu trabalho. Nessa altura, já a minha vida tinha dado uma volta.

“O que eu queria era uma casinha, por muito pequenina que fosse, com um quarto, casa de banho, cozinha, o básico, mas para isso, preciso que me aprovem a reforma.”

Alguma vez tinha estado nesta situação?

Nunca.

Recorreu à sua família, para além da sua prima?

Não quis pedir ajuda aos meus filhos. Só há pouco tempo é que eles souberam que eu estava aqui no abrigo. Um deles tem 47 e o outro 42. Vivem em Lisboa. Não lhes pedi ajuda, nem lhes peço nada. Nunca me habituei a pedir seja o que for. Não queria que eles tivessem de cuidar de mim, nem eles podem.

Como é que teve conhecimento da Casa do Lago?

Na semana que passei na rua, tive conhecimento do Casal Vistoso através de um sem-abrigo e dirigi-me lá. Quando lá cheguei, a técnica que me atendeu disse logo “a senhora não pertence aqui” e fez alguns telefonemas, só lá estive meia hora, e ainda bem. Durante o pouco tempo que ali permaneci vi muita coisa. Veio um senhor da Câmara buscar-me ao Casal Vistoso e trazer-me para aqui. Fiquei muito aliviada. Aqui pelo menos cada uma tem o seu quarto, a sua cama, existe alguma privacidade e dignidade. Agradeço não ter ficado no Casal Vistoso porque já tinha ouvido falar no sítio quando começou a pandemia, mas o que mostraram na televisão nada tem a ver com a realidade do que se passa lá. Cheguei aqui ao abrigo no dia 11 de setembro de 2020.

Que tipo de acompanhamento à sua situação é que tem recebido neste Abrigo de Mulheres?

Através deste Abrigo, pus novamente os papéis para a reforma e estou a ver daí o que é que acontece. O que eu queria era uma casinha, por muito pequenina que fosse, com um quarto, casa de banho, cozinha, o básico, mas para isso, preciso que me aprovem a reforma. Há uns tempos, as técnicas daqui falaram-me em ir para um apartamento, mas tenho estado à espera.

Pensa que as mulheres estão mais vulneráveis a situações de exclusão habitacional?

Acho que sim, acho que ficam pelo facto de serem mulheres. Acho que as mulheres não estão habituadas a ficar sem chão, as mulheres não costumam depender de outros. Eu vejo por mim, vejo que, por exemplo, quando estive na rua, me salvaguardei e fui dormir para o hospital de Santa Maria, porque me sentia mais protegida. As outras raparigas contam-me que dormiram mesmo na rua. Eu não sei se conseguia… Em Santa Maria havia sempre pessoas, polícias, acabaram por dar por mim, claro… No primeiro dia em que lá cheguei, fingi-me de doente.

“Acho que as mulheres não estão habituadas a ficar sem chão, as mulheres não costumam depender de outros.”

Como é a sua relação com as restantes mulheres do abrigo?

Eu relaciono-me bem com todas elas, não “zaragateio”, ponho-me à parte. Desde que eu cá estou, já umas poucas foram convidadas a sair por causa de agressões. Aqui não se tolera a agressão, mas eu ponho-me à parte disso. Tenho uma amiga aqui, que está a trabalhar, a Paulinha. Ela está cá há um ano. Tenho também a Manuela e a D. Assunção, uma senhora de idade que tem duas cachorras que andam com ela.

O que é que acha que poderia ter acontecido de forma diferente?

Neste caso não havia nada a fazer. Eu estava a receber o fundo de desemprego, recebia 435 euros. Não era muito. Descontei 44 anos, meti já os papéis duas vezes e a resposta deles é que não reúno as condições para ser reformada. Uma das vezes, entreguei aos 65 anos e veio indeferido. Se eu tenho 44 anos de descontos, com 65 anos parei de descontar, encontro-me na mesma situação que me encontro agora. Porque é que não me deixam reformar? Só me respondem que não reúno as condições. A semana passada voltei a entregar o processo através daqui (do Abrigo). Vai-se falar com a minha assistente social da Segurança Social na Amadora porque ela é que assinou o contrato para que eu recebesse o Rendimento Social de Inserção. Para isso, tive de me inscrever no Centro de Emprego e teve de me ser atribuída uma Assistente Social. Ainda assim, tinha de estar periodicamente no centro de emprego. Estava sempre com o “credo na boca”, não houvesse alguma carta extraviada, pois cortavam-me logo o rendimento mínimo. Na semana passada, voltei a entregar o pedido de reforma, mas há quem espere seis, sete meses, ou mais, por uma resposta.

Como é que encara o futuro?

Já estou a caminhar para o fim da vida. Vamos ver o que vai acontecer. Tenho medo de ficar numa cama sem me conseguir mexer e estar dependente de outras pessoas e isso eu não queria (emocionou-se), é disso que eu tenho medo. Graças a Deus tenho saúde, o meu problema é o joelho porque eu parti a perna e o pé num acidente de trabalho e de vez em quando dá-me que fazer. Queria ter um buraquinho para viver e governar-me. É só isso que eu quero.

A Casa do Lago

A Casa do Lago surgiu em Maio de 2020, como uma resposta de emergência no surgimento da pandemia, dirigida exclusivamente para mulheres. Na cidade de Lisboa, os abrigos existentes são geralmente para homens ou mistos. A Casa do Lago é uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa que atribuiu à AMI a tutela do projeto a partir do dia 1 de janeiro de 2021.

Cátia Silva, coordenadora do abrigo de emergência Casa do Lago

Este abrigo localiza-se nas portas de Monsanto, é um espaço que pertencia à Santa Casa da Misericórdia e onde permaneciam crianças e jovens em risco. Resquícios das suas vivências podem ser ainda vistos em algumas paredes grafitadas no complexo.

Não existem critérios de admissão para entrar na Casa do Lago, para além do facto de se ser mulher, ter mais de 18 anos e de estar em situação de exclusão social e habitacional. Atualmente, a pessoa mais nova a residir no abrigo tem 19 anos e a mais velha tem 79. São aceites mulheres com todo o tipo de historial e problemáticas, nomeadamente, questões de saúde mental, consumos e cujas circunstâncias de vida as levaram ao desemprego, insegurança financeira e matrimonial.

“Na Casa do Lago, o objetivo passa por, mais à frente, encaminhar estas mulheres para outras respostas adequadas às especificidades da situação de cada uma (…) As mulheres em situação de sem abrigo correm muitos riscos e muitas delas têm traumas e problemas associados ao facto de estarem na rua. A abertura de uma resposta deste tipo só para mulheres era realmente muito necessária e inovadora” – explica Cátia Silva, coordenadora do abrigo.

A sinalização destas mulheres é feita muitas vezes pelas equipas de rua, não diretamente para a Casa do Lago mas para o Casal Vistoso e de lá são enviadas para outro tipo de resposta que vá, de forma mais adequada, ao encontro das circunstâncias psicossociais de cada uma delas.

A equipa técnica da Casa do Lago é composta por assistentes sociais, técnicos auxiliares de serviço social (que permanecem no abrigo 24h por dia), psicólogos, animadores socioculturais, técnicos de apoio à procura de emprego, uma equipa de psiquiatria e uma enfermeira. A intervenção social é o foco de atuação da equipa que vê na multidisciplinariedade o tipo de abordagem mais adequado e completo.

A comunicação interna da equipa é também considerada fundamental na atuação da equipa técnica da Casa do Lago, no sentido de responder da melhor forma ao “projeto de vida daquela mulher, o que naturalmente abrange vários aspetos da sua vida e não apenas um” – esclarece Cátia.

A Casa do Lago tem a capacidade total de 19 mulheres e, segundo a coordenadora do projeto é difícil caracterizar a população que se encontra no abrigo da Casa do Lago pois cada uma tem a sua história pessoal, mas o fator comum à situação de todas elas é “a falta de políticas públicas ao nível de prevenção para mulheres que se encontram em risco de perder a casa e ficar sem abrigo. Se existissem políticas mais evoluídas em termos de prevenção, não seria necessário chegar ao ponto de se criarem soluções meramente temporárias em que as mulheres já se encontram efetivamente sem abrigo”, argumenta Cátia.