Quinara: mais saúde para mulheres e crianças

As fragilidades relativas à saúde na Guiné-Bissau têm caracterizado a qualidade da vida das populações, particularmente em Quinara, uma região marcada pela ruralidade e pobreza extrema. Em 2014, a Guiné-Bissau ocupava a 174ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, que faz uma avaliação de 189 países no mundo, sendo a falta de acesso à saúde um fator determinante na ocupação desta posição.

As elevadas taxas do país relativamente à mortalidade materno-infantil e de crianças menores de 5 anos levaram a AMI, cuja história de atuações na Guiné-Bissau remonta a 1987, a trabalhar ao longo das últimas décadas neste e noutros campos da saúde, através da implementação de um conjunto de projetos em diversas regiões do país.

O último projeto, implementado em 2014 e que viu o seu término em 2020, teve como cenário a região de Quinara, que, com cerca de 65.500 habitantes, dos quais 8.734 são crianças com idade inferior a cinco anos, 2.955 grávidas e 14.447 mulheres em idade fértil (INASA, 2016), é fortemente marcada pela ruralidade, fracas condições de habitabilidade, parcas redes de transportes e telecomunicações, estradas débeis e recursos alimentares resultantes apenas da agricultura e da pesca.

A escassez define o contexto vivido na região e torna a população profundamente vulnerável do ponto de vista dos Direitos Humanos. Com uma inexistente proteção social, a saúde da população é a que mais se ressente. A falta de infraestruturas e recursos humanos faz com que as unidades de saúde mais próximas estejam na maioria das vezes a uma distância mínima de 5 km, o que do ponto de vista da saúde materno-infantil tem consequências graves, uma vez que dificulta a prática de partos assistidos em hospitais, existindo, por isso, um risco agravado de mortes neonatais.

O projeto Intervenções de Alto Impacto: Saúde Comunitária em Quinara desenvolvido pela AMI, em parceria com a Unicef e inserido no Plano Operacional de Passagem à Escala Nacional (POPEN), teve por objetivo criar, nesta região do país, meios para permitir o acesso à saúde a todas as famílias, com um foco particular nas mulheres grávidas, bebés e jovens.

16 práticas familiares essenciais

Este foi um projeto dirigido a mulheres grávidas e crianças menores de 5 anos, que passou pela mobilização de Agentes de Saúde Comunitária (ASC) formados para promover um conjunto de 16 Práticas Familiares Essenciais junto dos agregados familiares da região. Ângela Pedroso, coordenadora de projeto e expatriada na Guiné-Bissau em diversas fases da intervenção, explica que a adoção destas práticas por parte das famílias “representou uma diminuição significativa do risco de mortalidade materna e infantil” e que “foram disponibilizados Kits de Materiais e Medicamentos Essenciais aos Agentes de Saúde Comunitária para que estes pudessem prestar cuidados de saúde primários em casos de diarreia, paludismo ou pneumonia”. Ainda, e para “incentivar a aproximação das pessoas aos serviços de saúde, foi reforçada a capacidade de realização de deslocações de equipas móveis de enfermeiros, para prestação de serviços primários às grávidas e crianças menores de 5 anos, como por exemplo, vacinação e avaliação nutricional”, acrescenta Ângela Pedroso.

A equipa

Este projeto exigiu a organização de uma equipa de 16 elementos, multidisciplinar e multinacional, composta por profissionais locais e expatriados, nomeadamente um Chefe de Missão, um Coordenador de projeto, um Coordenador adjunto, um Gestor de Dados/Financeiro, um Contabilista, seis Supervisores Operacionais de Terreno, um Logístico, um Motorista, dois Guardas, um Técnico de Contabilidade e um Técnico de limpezas. Por outro lado, foi prioritário apostar na capacitação da equipa da Direção Regional de Saúde, ao nível dos Enfermeiros Responsáveis de cada área sanitária da região (Tite, Brandão, Buba, Empada, Dar-es-Salam e Fulacunda), pois seriam quem assumiria a intervenção e sustentabilidade do projeto a longo prazo, pelo que o foco de formação desta equipa foi a gestão diária no terreno, no que toca à saúde comunitária e ao acompanhamento dos Agentes de Saúde Comunitária.

Os agentes de saúde comunitária

Os 208 Agentes de Saúde Comunitária, mais do que elementos da comunidade formados para prestar serviços nas comunidades no que se refere à saúde, são as pessoas de referência das mesmas, tendo cada um cerca de 50 agregados familiares à sua responsabilidade para a promoção da saúde e tratamento de doenças da infância, nomeadamente no que diz respeito à despistagem de desnutrição, entre outras. Zandonaido Silva, enfermeiro e ponto focal de saúde comunitária reflete que “a comunidade encarou este projeto como algo de grande importância porque havia, e ainda há, na região de Quinara muitas pessoas sem acesso ao atendimento da ação médica. O meu papel neste projeto foi o de formar e supervisionar os Agentes de Saúde Comunitária, pelo que foram desenvolvidas algumas atividades nas tabancas* com os Agentes de Saúde Comunitária e os agregados familiares acerca da importância da desinfeção da água de consumo, utilização de latrinas, prevenção de paludismo e importância de cuidados pré-natais”.

Rosário Cadi, Agente de Saúde Comunitário, teve conhecimento deste projeto através de um familiar e durante 21 dias aprendeu tudo o que podia acerca de saúde materno-infantil. Ficou entusiasmado com a ideia de empoderar famílias e trabalhar diretamente para a sua comunidade. “Ganhámos a consciência e o compromisso de que iríamos trabalhar com as mulheres e crianças da região e que o mais importante era salvar vidas (…) No início não foi fácil, porque as comunidades não compreendiam a importância do assunto e a necessidade de fazer o recenseamento das famílias, e nós tínhamos de explicar que queríamos ajudar a resolver problemas de saúde e ajudar a acabar com alguns comportamentos nefastos”. No decorrer de toda a intervenção, houve uma estreita colaboração entre a AMI, a Unicef, a Direção Regional de Saúde de Quinara e ainda o Instituto Camões (que cofinanciou a 2ª fase do projeto).

Como parceiro financiador, a Unicef trabalhou com a AMI no sentido de criar formas de operacionalizar e definir estratégias e estabelecer indicadores. Já a Direção Regional de Saúde disponibilizou um escritório nas suas instalações para fomentar o trabalho conjunto e o desenho de estratégias de implementação do projeto. No ano de 2018, o Banco Mundial foi responsável por uma parcela de financiamento do projeto, contribuindo para o incentivo dos Agentes de Saúde Comunitária.

Ângela Pedroso destaca que houve uma melhoria significativa dos indicadores de saúde da região ao nível da saúde materna e infantil, o que é uma “prova do sucesso da intervenção e sobretudo da apropriação e adoção, por grande parte da população, de práticas familiares essenciais com impacto positivo para as grávidas e crianças menores de 5 anos.” Em resultado deste projeto, 100% das grávidas seguidas pelos Agentes de Saúde Comunitária que evidenciaram sinais de risco na gestação foram referenciadas para Unidades de Saúde competentes, todas as crianças identificadas com sintomas de desnutrição foram devidamente acompanhadas e 98% das crianças entre os 6 e os 24 meses receberam alimentação complementar à amamentação. Mais de 1.294 mulheres grávidas e 9.308 crianças menores de 5 anos beneficiaram diretamente da execução deste projeto em Quinara entre 2014 e 2020. A última fase do projeto procurou promover e assegurar a transferência de competências e responsabilidades da equipa da AMI para a equipa da Direção Regional de Saúde de Quinara.

*Aldeias