Quem cuida dos cuidadores informais?

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“O Cuidador é toda a pessoa que assume como função a assistência a uma outra pessoa que, por razões tipologicamente diferenciadas, foi atingida por uma incapacidade, de grau variável, que não lhe permite cumprir, sem ajuda de outro(s), todos os actos necessários à sua existência, enquanto ser humano (Oliveira et al., 2007).”

É assim que surge a definição de Cuidador… Na minha perspectiva, Cuidador Informal é toda a pessoa que perante uma situação inevitável de doença incapacitante, por parte de alguém, familiar, amigo/vizinho, decide tratar, apoiar e cuidar, na sua maioria voluntariamente, por falta de respostas dignas para a pessoa cuidada.

Os cuidadores informais prescindem, em alguma altura da sua vida, do seu próprio bem estar, da autonomia, da liberdade e até da sua saúde para que aqueles que cuidam tenham muitas vezes, apenas uma melhor qualidade de vida. Em Portugal, existe uma tendência para que estes cuidados sejam assegurados por mulheres. Maioritariamente, os familiares da pessoa de quem cuidam (esposas ou filhas/noras) têm idades entre os 45 e os 55 anos (no caso de filhas/noras), ou 65 anos ou mais (no caso de esposas); residem com a pessoa de quem cuidam; apresentam baixa escolaridade; prestam cuidados; auferem, potencialmente, baixos rendimentos… São estes Cuidadores Informais que conseguem assegurar o bem estar físico e psicológico do idoso, dentro do seu espaço de referência apoiando-o 24 horas/dia, 365 dias ao ano. As tarefas asseguradas pelos cuidadores informais podem variar das mais simples às mais complexas (higiene pessoal) e em termos de frequência, duração e intensidade (grau de dependência de quem é cuidado). Por esta razão, os cuidadores informais enfrentam no seu dia-a-dia enormes desafios, quer do ponto de vista físico, quer emocional, configurando-se uma experiência simultânea de emoções positivas e negativas, mas de vital importância para o idoso. A atual legislação já aprovada e publicada (Lei 100/2019 – Portaria 2/2020 e Portaria 64/2020), apesar de escassa para o conjunto de necessidades, pode dar algum apoio a estes e a todos os Cuidadores do país, quando se verificar a sua aplicação.

De salientar que ainda estamos numa fase de avaliação das medidas legisladas pela criação de projectos-piloto em trinta concelhos do País. Na minha opinião, as medidas aprovadas estão aquém das necessidades dos Cuidadores Informais, mas num país onde os cuidados informais não tinham reconhecimento, foi dado um passo com a aprovação da Lei e muitos mais terão de ser dados no sentido de tornar o ato de Cuidar devidamente dignificado e reconhecido.

Maria dos Anjos Catapirra
Vice-Presidente da Associação Nacional de Cuidadores Informais

A ANCI – Associação Nacional de Cuidadores Informais surge de um movimento de cidadãos, cuidadores e ex-cuidadores, tendo por missão a defesa dos interesses de Cuidadores Informais e da actividade democrática para a definição e aplicação de políticas públicas, nomeadamente o Estatuto de Cuidador Informal, tendo, junto dos decisores políticos, reivindicado a luta pela dignidade dos cuidadores informais para que o estatuto seja uma realidade, visando o diálogo, a colaboração e luta por uma sociedade justa e solidária.