Paraíso árido

A quarta maior ilha do mundo, com cerca de 587.000 km2, situa-se no Oceano Índico, próximo da costa este de África. Madagáscar é um paraíso singular pelo seu ecossistema endémico e diverso. Mas a realidade vivida no país está longe de ser idílica. A riqueza natural da região tem-se deteriorado profundamente ao longo da última década, como efeito sobre-acelerado das alterações climáticas. 

A corrente situação em Madagáscar é mais que perturbadora. Responsável por apenas 0.01% das emissões de carbono no mundo é o lugar do planeta mais afetado pelas alterações climáticas, particularmente no sul do país, que sofre uma devastadora seca. Falamos de mais de 1 milhão de pessoas a viver em carência alimentar e uma população de 21 milhões de habitantes que sobrevive com uma média de pouco mais de um dólar por dia per capita (os núcleos familiares são caracterizados por 5 a 6 crianças por progenitor).  

O quadro político do país é aparentemente estável, no sentido em que os nacionais do país se abstêm de participar na vida política, sobretudo por falta de canais disponíveis para o fazer. Não existem meios de comunicação acessíveis à população nem mecanismos de participação civil.  Por outro lado, a insegurança alimentar fez crescer a presença de grupos rebeldes que ameaçam a já de si frágil estabilidade das comunidades do sul.  

Para quem vive nas regiões mais remotas e afetadas pela seca, obter apoio alimentar, providenciado por exemplo pelo Programa Alimentar Mundial (PAM), implica chegar à vila mais próxima, o que requer muitas dezenas de quilómetros de caminho a pé, por estradas intermináveis onde não existem meios de transporte. Aqui, o perigo de roubo de bens como milho e arroz ou feijão por grupos armados, assim como de violações ou mesmo assassinato são razões suficientes para não arriscar o caminho, nem a vida. 

O Dr. Francesco Pincini, chefe de projeto no Centro de Cirurgia Médica de Saint Paul, com o qual a AMI tem já uma longa parceria, em Andasibe Ampefy, localizado a 124 km da capital Antananarivo, explica que “a crise climática tem afetado o sul do país de forma muito severa, e a seca tem sujeitado as populações à fome extrema (…) Não sei se este problema poderá vir a ser resolvido, a crise climática é, neste momento, global”.  

O Centro de Cirurgia Médica de Saint Paul opera em contexto de pobreza e desnutrição crónica, existindo várias doenças causadas por estes fatores, geralmente ligados entre si.     

Uma das situações mais preocupantes que passa por este Centro é a persistente desnutrição materna. As mulheres em estado de subnutrição no decorrer da gravidez correm o risco de que o crescimento do feto seja retardado face ao padrão de desenvolvimento e com forte probabilidade de nascerem com patologias derivadas da falta de nutrientes necessários ao sistema biológico da mãe.  

“A desnutrição aguda significa que doenças que não são fatais por si só, podem tornar-se graves com séria evolução clínica dadas as precárias condições de resposta do sistema imunitário, especialmente nas crianças” – esclarece o Dr. Francesco Pincini, que trabalha de perto com casos de desnutrição materna e infantil.  

O grande desafio é abordar a desnutrição infantil e materna para reduzir a morbilidade no período perinatal e criar condições para o crescimento e resistência do organismo das crianças, ao mesmo tempo que se criam condições sanitárias e de higiene durante o parto que evitem o risco de contrair infeções.  

Adicionalmente a estas problemáticas, a presença de doenças endémicas como a malária, a salmonela, a tuberculose e a peste (ainda presente nesta parte do globo), acentuam a vulnerabilidade das populações em Madagáscar, com particular incidência nos bebés, crianças e mulheres.  

Estima-se que meio milhão de crianças sofram de desnutrição aguda, devido principalmente ao aumento súbito das temperaturas, à inexistência de chuva e à consequente desflorestação e seca dos solos. 

Para agravar este cenário, a principal matéria prima utilizada para cozinhar os poucos bens alimentares existentes é o carvão produzido a partir da combustão de madeira, o que significa o agravamento da progressiva desflorestação. 

Relativamente à pandemia de covid-19, esta não atingiu felizmente a gravidade que se esperava – elucida o Dr. Francesco Pancini “apenas recentemente sentimos um aumento considerável de casos de covid, provavelmente causadas pela variante Omicron que é altamente contagiosa, mas não detetámos a presença de complicações pulmonares severas como se verificou no início da pandemia. Assim, não estivemos sujeitos a mais elevados níveis de trabalho nem despesas acrescidas comparativamente com o período pré-pandemia.” Uma notícia menos preocupante entre os enormes desafios que Madagáscar enfrenta e para os quais não contribui. 

Na última semana de janeiro, o ciclone Batsirai, que se formou a este de Madagáscar, causou mais de 100 mortes e 18 mil pessoas ficaram desalojadas, continuando a proteção civil a fazer buscas e monitorização dos estragos, semanas após a passagem da tempestade Ana que já tinha causado no país fortes inundações e deslizamento de terras, tirando a vida a 58 pessoas. 

Neste momento e neste quadro devastador, o acesso a água potável é vital para garantir que não se propaguem doenças derivadas do consumo de água poluída ou estagnada tais como a Malária ou a cólera.  

Madagáscar é um lugar esquecido, onde os recursos são parcos e a fome tomou conta da nação e do seu povo. Não há como fugir aos factos: as alterações climáticas são uma realidade e as catástrofes naturais uma consequência indiscutível. 

Em 2021, com o escalar da seca e subsequente crise alimentar vivida no país em plena pandemia, a AMI desenvolveu uma missão de ajuda humanitária em bens alimentares, em parceria com a organização Niños de Madagáscar encarregue da sua distribuição, nas aldeias de Ambohimandroso e Andranomavo, abrangendo um total de 1900 crianças e de 380 famílias. A iniciativa foi implementada em conjunto com agentes e líderes comunitários locais e contou com o financiamento da iniciativa portuguesa “Carta dos Desejos”. 

Já entre 2016 e 2019, em parceria com a ONG Change Onlus, a AMI financiou o transporte e instalação de equipamentos de radiologia e a instalação de um sistema de gás cirúrgico no bloco operatório do Centro de Saúde de St. Paul D’Ampefy-Andasibe e o envio de um médico pediatra.