“Papia Ku Mi” – Falar sobre saúde sexual e reprodutiva na Guiné-Bissau

“Papia Ku Mi”, que em crioulo da Guiné-Bissau significa “Fala Comigo”, é um projeto de Promoção da Saúde e dos Direitos Sexuais e Reprodutivos, implementado pela AMI na Ilha de Bolama e que irá decorrer até março de 2022.

Este projeto, desenvolvido em parceria com a Direção Regional de Educação, a Direção Regional de Saúde de Bolama e a Rádio Pro-Bolama, pretende trabalhar os direitos sexuais e reprodutivos da população adolescente e juvenil da ilha, bem como dos seus cuidadores e líderes. Segundo o Plano Nacional de Desenvolvimento da Saúde, publicado em 2017, persiste a dificuldade na Guiné-Bissau de garantir a provisão de meios contracetivos, a redução da taxa de natalidade entre adolescentes e a redução de mortalidade materna através da melhoria da qualidade de cuidados de saúde como o acesso a consultas de planeamento familiar, pré-natais e partos assistidos em unidades hospitalares.

O mesmo relatório indica que a taxa de mortalidade materna na Guiné-Bissau era à data da sua publicação de 900/10.000 nados vivos, o que faz da Guiné-Bissau um dos países do mundo onde um maior número de mulheres morre por causas relacionadas com a reprodução, excisão feminina, sexualidade, gravidez e parto. Assim, o projeto “Papia Ku Mi” pretende, através da mobilização da comunidade, atuar em três componentes fundamentais:

  • Formação de elementos de referência, sobre os principais conceitos associados à saúde sexual e reprodutiva.
  • Sensibilização em contexto escolar e comunitário, recorrendo à metodologia de educação por pares, atividades artísticas, sessões de grupo e programas de rádio.
  • Implementação de um sistema de referenciação para serviços de saúde especializados em saúde sexual e reprodutiva.

A equipa local definida para este projeto é composta por um coordenador, dois técnicos de projeto, um conselheiro local de Saúde Sexual e Reprodutiva (SSR), um logístico e ainda um elemento expatriado, responsável pela coordenação da formação em saúde sexual e reprodutiva, que permaneceu no terreno durante um primeiro período de três meses, na fase inicial de implementação.

 

O objetivo de chegar a 37 comunidades da Ilha de Bolama e a sete escolas públicas da região, do 5º ao 12º ano, requer o envolvimento de 26 ativistas comunitários (13 pares), 14 “Amigos Informados” e 7 professores.

Mussa Baio, coordenador local do projeto explica-nos que o “Papia Ku Mi” “é um projeto de proximidade. Até fevereiro de 2022, na região de Bolama, queremos que cerca de 80% da comunidade tenha conhecimento sobre Saúde Sexual e Reprodutiva e sobre o abandono de práticas nefastas”.

Em entrevista, Mussa acrescenta que, para alcançar este objetivo, os ativistas comunitários assumirão o papel de criar atividades no seio das diversas comunidades, bem como promover ações de sensibilização juntos dos jovens e dos líderes comunitários, enquanto que os “Amigos Informados”, jovens formados e escolhidos para uma maior facilidade de abordagem dos temas, vão garantir que as dinâmicas e a partilha de conhecimentos relativos à Saúde Sexual e Reprodutiva acontecem nas escolas e nas comunidades, com o apoio dos professores e pontualmente dos ativistas e da Conselheira de SSR.

Celeste Mendonça, a Conselheira de SSR e responsável pelo Centro de aconselhamento e referenciação, instalado no Centro de Saúde de Bolama, tem também um papel vital neste projeto, como a própria afirma: “Estou aqui para receber todos aqueles que têm dúvidas do que tenha sido referido pelos ativistas comunitários ou “Amigos informados”. Estou aqui também para ajudar com o Planeamento familiar de forma gratuita e prestar esclarecimentos acerca de doenças sexualmente transmissíveis. Em Bolama, existe pouco conhecimento acerca destas questões e com este projeto, através da formação, vamos conseguir multiplicar o conhecimento sobre questões de Saúde Sexual e Reprodutiva”.

Enquanto técnico de projeto, Sana Cassamá acrescenta também que “para além de formar e sensibilizar jovens neste projeto, queremos influenciar os mais velhos da nossa comunidade, os chamados líderes comunitários, sobretudo na comunidade muçulmana, para o abandono de práticas nefastas, porque são eles que autorizam que as meninas sejam alvo de excisão feminina quando crianças, porque é um crime na lei da Guiné-Bissau e que tem repercussões ao nível da reprodução quando estas meninas se tornam mulheres”.

De acordo com a equipa, a pandemia acabou por não ter influência na implementação do “Papia Ku Mi” pois há um “cumprimento generalizado das medidas preventivas na região”, pelo que a Direção-Geral da Saúde tem apoiado plenamente a concretização do mesmo como um exemplo de boas práticas e alvo de possível reprodução em outras regiões do país. O projeto deverá alcançar diretamente cerca de 5.248 pessoas e contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 3 (Saúde de Qualidade) e 5 (Igualdade de Género)