O paradoxo da abundância

O paradoxo da abundância

Venezuela, outrora a menina bonita da América do Sul, rica em reservas de petróleo e outros recursos naturais, tornou-se o quarto país com maior número de pessoas deslocadas no mundo. Mas quais as origens desta crise e como é que o declínio se tornou imutável no tempo?

Foi das economias mais prósperas da América do Sul, com uma democracia relativamente estável. Ficou no entanto na dependência exclusiva das robustas receitas derivadas do gás natural e do petróleo deste “Petroestado”, detrimento de outros setores fundamentais da economia, como a agricultura e a manufatura.  

Desde a sua descoberta, nos anos 20, as reservas de petróleo foram a bênção e a maldição deste país emergente, em resultado de uma encadeada má gestão do país, tanto económica como política. A concentração destes dois poderes numa pequena elite enfraqueceu a sociedade civil em consequência de amplas teias de corrupção.  

Estes fatores acrescidos da oscilação dos preços destes combustíveis fósseis, levaram a uma negligência profunda de áreas de produção da economia nacional, causando uma gigante taxa de desemprego e uma débil produção de bens de primeira necessidade. Gerou-se o caos e a pobreza instalou-se, para ficar.  

O médico e presidente da Associação de Médicos Luso descendentes na Venezuela (ASOMELUVE), Dr. Adérito de Sousa, corrobora que nesta crise “estão envolvidos fatores ligados a fortes retrocessos económicos, colapso dos indicadores sociais, confronto e polarização política, colapso dos partidos políticos tradicionais, corrosão das instituições democráticas, incapacidade do Estado de dar soluções aos problemas centrais da população venezuelana e uma corrupção colossal em que políticos oportunistas e pseudoempresários estiveram envolvidos”, ressalvando ainda que o atual governo tem tentado suprimir ativamente os espaços de debate democráticos e as ondas de protesto social através da “a perseguição à dissidência política, e da militarização do problema alimentar e da saúde (…)”. 

O resultado desta crise em escalada foi a fuga de 6 milhões de venezuelanos do país. Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), dezassete países no mundo, incluindo Portugal e países vizinhos da América do Sul, acolhem 80% do total de pessoas venezuelanas refugiadas.  

São diversas as rotas utilizadas pelos imigrantes e refugiados. Por via terrestre, aérea e até mesmo através de pequenas rotas marítimas com destino às ilhas do Caribe.  

 De acordo com a análise feita pelo ACNUR, as principais carências elementares das comunidades venezuelanas espalhadas pelo mundo prendem-se com a falta de abrigo, cuidados de saúde, oportunidades de emprego, serviços de documentação e regularização e reunificação familiar.   

Aqueles que permanecem no país, permanecem num limbo. A falta de alimentos nos supermercados, medicamentos nas farmácias e materiais e equipamentos médicos nas unidades de saúde são uma constante.  

“Esta situação foi acompanhada por uma hiperinflação, com uma perda enorme do poder de  compra e de outros benefícios socioeconómicos da maior parte da população” defende Adérito de Sousa.  Por sua vez o setor da Saúde Pública, que já sofria de problemáticas estruturais, particularmente nos últimos 20 anos, fruto da corrupção, ineficiência e políticas públicas mal aplicadas no passado foi ainda mais severamente afetado com a pandemia. 

A negação, por parte do poder político, desta crise, tem sido a principal causa desta inexistência de políticas eficazes para a reconstrução do país.  Assim, a Venezuela permanece em estado de rutura perene por mais que o seu povo e as vindouras gerações tentem viver e prosperar no seu país.