As Equipas da AMI no mundo da Rua

As equipas de rua da AMI que intervêm em Lisboa, Porto e Vila Nova de Gaia surgiram em 2001 e 2006, respetivamente, como uma resposta à exclusão social existente no país e à falta de acesso a habitação digna para todos os seus habitantes, independentemente da sua situação económica e social.

Em todas as cidades onde intervêm, o trabalho das equipas de rua é caracterizado pela proatividade de ir ao encontro das pessoas em situação de sem-abrigo, “na medida em que procura oferecer algum tipo de experiência de vínculo” – explica Sónia Oliveira, psicóloga da equipa de rua de Porto e V. N. de Gaia. Ao acompanharmos as equipas, tanto em Lisboa como no Porto, podemos dizer com segurança que o primeiro princípio da intervenção com as pessoas que estão a viver na rua passa pela criação de relações de confiança, relações estas que só são possíveis através da capacidade de escuta das equipas e da sua atitude de interesse e respeito pelas pessoas, pela sua história, pelo seu tempo e acima de tudo, pela sua vontade.

Ambas as equipas estabeleceram os seus próprios trajetos, que embora sejam variáveis no espaço e no tempo, passam por hotspots onde se concentram pessoas em situação de exclusão social e habitacional.

Embora existam muitos “lobos solitários” nas ruas de Lisboa e do Porto, é mais comum as pessoas agruparem-se em “comunidades”, quer pela entreajuda, quer pela partilha de um espaço abrigado ou pela proximidade de serviços assistencialistas e de passagem (balneários públicos, cantinas solidárias, locais onde é mais provável conseguir “trocos”, por exemplo à saída de uma estação de metro/comboio ou do supermercado).

Equipa de rua de Lisboa

Sérgio Condez, investigador social e técnico da AMI há 19 anos na equipa de Lisboa, explica na caminhada que fazemos até ao viaduto de Santa Apolónia que, “por um lado, o trajeto está definido para que as pessoas saibam que naquele dia vamos estar naquele lugar e que certamente nos vão encontrar lá se precisarem, mas por outro, também definimos o nosso trajeto em função da concentração das pessoas em situação de sem-abrigo na cidade”.

Flávia Ricardo, também técnica da equipa de rua e assistente social, complementa que “também, em função das sinalizações que recebemos, podemos alterar o nosso percurso. Isso acontece frequentemente, seja de alguém que contacta a AMI a expor a situação de uma pessoa que se encontra a pernoitar na sua rua ou no bairro, seja por parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Nesse caso dirigimo-nos a um determinado ponto da cidade e avaliamos a situação da pessoa para lhe dar uma resposta adequada”.

Parece simples, mas a complexidade inerente ao processo de intervenção de rua exige um conhecimento profundo, não só da demografia local dos “sem teto”, como dos fatores que levam à “fixação” em lugares ou “não lugares”* específicos.

Para além deste trabalho de terreno, é necessário conhecer todas as respostas existentes no universo da rede de NPISA – Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo,  no âmbito da habitação, segurança social, saúde, emprego, educação, administração interna que possam adequar-se às necessidades de cada pessoa em situação de sem-abrigo.

Equipa de rua do Porto e Vila Nova de Gaia

Ao caminharmos com a equipa de rua de Gaia e Porto, as técnicas Sónia e Alexandra explicam em que moldes a pandemia veio trazer gigantescos retrocessos no espectro da vivência na rua.

“Ao nível da habitação, social e económico, o desafio de encontrar respostas adequadas tornou-se ainda maior, dada a escassez de apoios económicos e de alojamentos temporários ou quartos em pensões”. De acordo com as Técnicas, as medidas de saúde e segurança implementadas em resultado da pandemia, agudizaram não só a escassez de respostas existentes, mas também tornaram mais complexos os procedimentos necessários para assegurar alojamento a quem estivesse em situação de sem-abrigo, nomeadamente a necessidade de realização de testes covid-19.

A pandemia veio por outro lado intensificar o problema da acessibilidade a cuidados de saúde primários (física e mental), nomeadamente acesso a consultas, tratamentos e cirurgias, e em particular o agravamento de situações de doenças crónicas.

Alexandra Rocha menciona que, no campo da saúde, “a descrença no sistema por parte das pessoas que acompanhamos diariamente, já é para nós uma “batalha” diária tão grande que, com a pandemia, conseguirmos que, aceitem cuidados de saúde veio tornar o nosso trabalho diário mais desafiador ainda. O que sentimos é que o caminho ficou mais longo”.

Em Lisboa, na zona de Xabregas, junto à avenida Infante D. Henrique, encontrámos um grupo de 6 homens que pernoitam a meio desta avenida. Cozinham o almoço num tacho embutido numa grelha. O almoço é arroz. Têm a mesa posta e bancos onde se sentam com algum conforto. A equipa de rua da AMI falou com o Rui (nome fictício) pela primeira vez. Voltou à rua vai fazer oito dias, depois de anos de estabilidade. O seu cartão de cidadão está vencido. Está desesperado por voltar a encontrar trabalho. Precisa de uma oportunidade e apoio. A sua assistente social insiste, nas suas palavras, que vá para o Casal Vistoso, mas recusa-se. Diz que nestes dias tem bebido para sobreviver à ideia de que voltou à rua, mas que não quer estar perto de drogas que nunca consumiu e, por isso, preferiu ir para ali, para a berma da estrada, onde tem amigos de longa data e onde pelo menos se entreajudam na esperança de dias e de respostas melhores.

Em 2020, as equipas de rua da AMI acompanharam 272 pessoas em situação de sem-abrigo, das quais 118 foram pessoas atendidas pela primeira vez (48 pela equipa de Lisboa e 70 pela equipa do Porto e de Gaia). Esta população é constituída na sua maioria por homens (78%), entre os 50 e os 59 anos (32%), e de nacionalidade portuguesa (79%). As principais necessidades identificadas em contexto de pandemia são a alimentação (78%), vestuário (75%, alojamento (60%), necessidade de consultas médicas (41%), apoio psicológico (23%) e medicamentoso (21%).

As equipas de rua da AMI atuam a partir dos Centros Porta Amiga, numa lógica de complementaridade dos serviços de ação social providenciados por estes espaços. Vão ao encontro das pessoas na rua e fazem uma abordagem integrada e holística, O apoio psicossocial, médico e de enfermagem é também parte integrante do trabalho de intervenção das equipas que têm como objetivo último melhorar a qualidade de vida das pessoas para, e com quem trabalham.

* “Não lugar” ou “Non Place” é um conceito sociológico abordado pelo antropólogo e etnólogo Marc Augé, que interpreta o conceito de espaço como lugar de significado e de personalização em oposição à ideia de “não lugar” onde a consciência se altera em resultado de uma perceção limitada do mesmo.