Marias em ação!

A ACOM – Associação Comunitária de Milagres, no Estado do Ceará, lançou em julho de 2021 um novo projeto intitulado “Marias em Ação: Direitos, vivência e dignidade em tempos de Covid-19″. Com uma duração de 8 meses, este projeto está orçado em 4.890 Euros financiados pela AMI.

A ACOM surgiu nos anos 90, da vontade de um conjunto de mulheres melhorar as condições de vida das suas comunidades e da região. Começou por ser um centro onde mães com responsabilidades laborais podiam deixar os seus filhos durante o dia, ao cuidado das assistentes sociais da Associação.

Daí, nasceram diversas outras intervenções voltadas para o trabalho com crianças e jovens, agricultores e meio ambiente e também na área da saúde, uma vez que na época em que a entidade foi fundada não existia nenhuma unidade de saúde a menos de 40 quilómetros de distância e eram significativos os casos de mortes maternas e neonatais.

Em 1995, em resultado do esforço da ACOM, foi construído o Hospital e Maternidade Madre Rosa Gattorno, do qual a AMI foi uma parceira e financiadora.

Embora hoje o acesso a cuidados de saúde primários para mulheres e crianças esteja já assegurado, colocam-se outras problemáticas na região, nomeadamente os elevados índices de violência doméstica e de género. “Marias em Ação” é um projeto de ação alargada e centrado no fortalecimento do papel de liderança das mulheres de Milagres, que estão ativamente envolvidas no desenvolvimento das suas comunidades e na luta contra a desigualdade social e de género, mas que têm sido afetadas pela pandemia de Covid-19 tanto a nível socioeconómico como psicológico.

Para cimentar este trabalho, foi formalizado em 2021 o Concelho Municipal da Mulher, um instrumento de luta e de intervenção na comunidade.

“A cada cinco minutos existe um ato de violência com uma mulher brasileira, e as mais vulneráveis são as mulheres nordestinas (…) Este projeto já ajudou muitas delas através da capacitação, de cursos, encontros. Trabalhámos também a questão da tecnologia: aqui as mulheres vivem em casa onde não existe um telefone, estão desconectadas. Estamos atualmente a trabalhar nessa frente, a da informação.” – explica Joanacele Gorgonho Ribeiro Nóbrega, diretora da ACOM e coordenadora do projeto, acrescentando ainda que “a deixa muito feliz que, neste cenário de pandemia, de sofrimento, desemprego e de muita fome, uma vez mais a mulher foi líder no trabalho, mesmo com todas as suas limitações. Aqui, as mulheres arregaçaram as mangas e foram cuidar de outras mulheres, ainda mais carentes que elas. Verdadeiras líderes. Tem sido um trabalho impressionante”.

Este projeto vem apoiar diretamente 80 mulheres através da promoção de ações de sensibilização por rádio e pelas plataformas de media sociais para abordar temas relacionados com a discriminação social e racial, a violência de género e incentivar a mudança de comportamento da população, realizando mentorias, cursos de marketing e redes; implementação de atividades geradoras de rendimento; distribuição de kits alimentares; e acompanhamento psicossocial.

Maria Eudair Oliveira da Silva, beneficiária e voluntária da ACOM, conheceu a Associação em 2014, onde deixava os seus filhos durante o dia. No mesmo ano, inscreveu-se no curso de informática oferecido pela ACOM, onde acabou por fazer um estágio. Este curso deu-lhe vontade e ferramentas para buscar uma formação no ensino superior na área de Biologia, o que a levou a especializar-se em Desenvolvimento Sustentável. Na ACOM, coordena atividades como educadora social das restantes “Marias, tais como eu. Esta instituição ajudou-me e hoje sou eu quem ajuda outras mulheres que precisam de suporte”.

Enquanto voluntária do projeto, para Maria da Silva “trabalhar neste projeto é gratificante demais. Durante o período da pandemia, estas mulheres não podiam ajudar os seus filhos no ensino remoto, então o que fizemos foi começar do zero com elas em matéria de informática, fomos desde a datilografia até às metodologias atuais “.

Muitas das mulheres apoiadas no projeto “Marias em Ação”, foram recrutadas do “lixão”, faziam a coleta do lixo na rua, muitas vezes acompanhadas pelos seus filhos. A pobreza ditava o seu estilo de vida e agravava as suas vulnerabilidades socioeconómicas. A ACOM veio incentivá-las na procura de algo diferente, fontes de rendimento alternativas, capacitando-as e encorajando-as a não parar de perseguir um amanhã melhor.