Luís Pedro Nunes: um testemunho sobre a Guiné-Bissau

Não é qualquer pessoa que pode ir fazer voluntariado para África. Ou melhor: até se pode dar bem com certo tipo de situações como reconstruir uma escola em São Tomé ou qualquer coisa esteticamente mais apelativo. Mas o quotidiano desgastante de uma realidade como na Guiné Bissau, por exemplo, nada tem de glamoroso e acaba por entrar na cabeça de muitos. O calor, a chuva, o racionamento da luz e da comida, o trabalho burocrático à luz de querosene para que as contas sejam contas, nada tem a ver com aquelas reportagens de TV em que crianças sorridentes posam ao lado de figuras públicas por minutos antes de se irem. Não. É um quotidiano desgastante e quase tão pobre como o local (o “quase” faz toda a diferença) em que o espírito de missão tem de se sobrepor à pergunta que se coloca na cabeça de muitos: mas o que é que estou aqui a fazer? E não é salvar o mundo. É passar saber. Na minha opinião, que estive em muitas missões da AMI, é ajudar a salvar o mundo. Mas cabe a cada um avaliar.

Lembro-me dos fanados. Foi algo que fui ver em 2014. Aquilo que aqui em Portugal se chama excisão genital feminina. Também fui cheio de ideias sobre o assunto. Mas chegado à Guiné eis a realidade. O costume é organizarem-se fanados com 600 meninas para serem excisadas com a mesma lâmina em cerimónias que duravam semanas e que serviam para as iniciar na vida adulta e ensiná-las a ser “mulheres”. No momento em que começou a haver uma proibição do governo de Bissau, os pais decidiram excisar as bebés logo após o nascimento. É que se para “nós” a excisão em bebés é um atentado aos Direitos Humanos, aqueles pais estão longe de ser monstros fanáticos religiosos que estão conscientemente a fazer mal às suas meninas. Pelo contrário.

O mais perverso é que a excisão em bebés tinha começado a acontecer exatamente para contornar a proibição dos fanados tradicionais – em que para além de excisadas, havia todo um ritual que servia para as ensinar a viver em sociedade, a cozinhar, a tratar dos velhos, a fazer os trabalhos domésticos, cuidar do marido. Não me vou alongar nas questões médicas horríveis que podem advir da mutilação genital de bebés-recém-nascidos.

É preciso que se perceba que aquelas famílias não o fazem por maldade, crueldade. Mas porque lhes querem bem. Querem que elas venham a casar, que não sejam “sujas” – coisa que temem que aconteça se não forem fanadas. E são fanadas porque é tradição e o imã diz que têm que ser porque está no Alcorão. Tal como os meninos são circuncidados. Os pais querem tão bem às suas meninas que temem que se não forem fanadas irão contra a palavra do Profeta. Mesmo que haja quem conteste com veemência esta leitura do Corão.

Temem que se as suas meninas não forem fanadas serão “sujas”, não poderão cozinhar para um marido, cuidar dos velhos e poderão até matar os filhos durante o parto, resultando que nenhum homem quererá casar com elas. Crença que está fortemente enraizada. E um pai está disposto a ir para a cadeia pelo bem da sua filha. A sua mulher é fanada. A sua mãe foi fanada. Como é que pode permitir que a sua filha não o seja? Que será dela se não for fanada?

Mas para as meninas esta não é uma questão ritualística e simbólica, apenas. ONG que trabalham com Direitos Humanos no leste, junto das tabancas na zona mais “pesada” do país, tinham, então consciência de que não se tratava só de uma questão de mudar as mentalidades. Era lutar contra a Lei de Deus. E isso não era fácil.

«Por muito que achemos que o nosso “dever” fosse o chegar e impor a nossa visão do mundo isso não é possível. Nem desejável dado que iríamos ser rejeitados. A AMI ajuda outras ONG a desenvolver capacidades para agir localmente. Sem o nosso olhar espantado, chocado, que muitas vezes não resolve nada. É no terreno, onde a AMI sempre esteve, ao perceber as subtis texturas da realidade, que esta se poderá modificar. Se possível. Mesmo que percamos a esperança tantas vezes eu sei que a AMI vai lá estar. Para além de mim e dos meus humores.»

No centro do país, uma outra ONG faz outro tipo de trabalho para mudar mentalidades e ali o tema já é discutido mais abertamente. Pelo menos é o que parece. Durante as férias de Verão, é a própria escola que cede as instalações para o “Clube das Meninas Excisadas e não Excisadas”. O objetivo é quebrar barreiras entre as miúdas. Sim, existem barreiras entre os dois “grupos”. Mas desta forma: há que mostrar às meninas que foram fanadas que as não excisadas não são “sujas” e não podem ser ostracizadas e mesmo insultadas (“blufos”). E por outro lado, tentar logo de início incutir em todas que a tradição pode passar sem a “faca”. É mais tentar integrar as meninas não excisadas numa “normalidade”. É que para além de todos os preconceitos vindos da questão religiosa e sexual, há que ter em conta que as meninas não fanadas não fizeram a “passagem” para o mundo dos adultos que a cerimónia de semanas as deve preparar. E para isso há estas atividades em que reproduzem o que é ensinado no fanado. Ou seja: têm de ser as meninas excisadas a aceitar as não excisadas (a que chamam “sujas”).

LuisPedroNunes_GuineBissau01Há um professor de religião (Corão), há uma filha de uma fanateca para falar do ritual (sexualidade), uma professora de croché, uma professora de danças tradicionais. Tudo isto já tinha antes sido tentado numa prática nacional que não pegara a que se tinha chamado “fanado alternativo” e que visava convencer nas tabancas de que era possível fazer a cerimónia com as meninas sem as “cortar”. Mas se os imanes dizem que está no Corão…

Das 110 meninas que frequentam o Clube das Meninas Excisadas e não Excisadas só 23 é que não “foram cortadas”. E essencialmente por questões religiosas: não são muçulmanas. A dinamizadora do Clube consegue colocar todas as classes a cantar a música que compôs. “Tradição é bonita, maneira de guardar não é difícil, vamos abandonar a excisão e dar voz à nossa razão. Vamos gritar com força porque deixamos a faca”.

Uma das meninas mais ativas a cantar é Fatumata Iafa, de 13 anos, excisada. E diz-nos, perentória: “Devem deixar de fanar porque não é bom para a saúde”. É órfã. Diz que não irá fanar as filhas quando as tiver.

Luís Pedro Nunes, jornalista