Índia, o que mudou em três décadas

Há 27 anos que não ia a Calcutá, Capital do Bengala Ocidental. Nem à Índia… Tudo mudou na “Cidade da Alegria” de 1991, tão fielmente retratada por Dominique Lapierre meia dúzia de anos antes. Já não se vêem, ou raramente, Homens Cavalo, e até riquexós, substituídos por tuc-tucs, mesmo nas aldeias. As famílias inteiras que nasciam, viviam e morriam nos passeios foram empurradas para os “slums” (bairros de lata), longe da vista dos privilegiados. O caos organizado do trânsito flui muito melhor. As vacas que deambulavam calmamente pelas ruas, obrigando os carros a contorná-las numa gincana contínua, também desapareceram.

Surgiu entretanto a “New Kolkata”, com avenidas largas, arranha-céus, parques de diversões, hotéis internacionais e lojas como as há em todas as grandes metrópoles do Mundo.

Conheci Archita Basu, na altura uma jovem voluntária tal como eu, numa das aldeias em que a AMI financiou a construção de casas e poços para as comunidades mais vulneráveis. O Pai era Professor na aldeia de Kalikata. Recebeu-nos em sua casa com os seus dois filhos, Archita e seu irmão Biswanath. Era viúvo. Visitámos muitas aldeias, conhecemos muitas pessoas, mas foi com esta família que criei laços, sem razão especial. Trocámos moradas. Na altura não havia internet. A vida tem destas coisas… Durante muito tempo não soube mais nada. Escreveu-me uma carta passados muitos anos em que me contava que o Pai tinha morrido, ela casara e tinha dois filhos e continuava o seu trabalho como Ativista Comunitária, agora na sua própria organização. Recentemente contactei-a para uma eventual parceria na área de Prevenção de Catástrofes. A resposta não se fez esperar. 

Vamos 50 Km para Este. Distrito de Howrah. A única ponte de então, junto à estação de Caminhos de ferro do mesmo nome, a maior da Índia, que continua a “vomitar” todos os dias para a cidade mais de um milhão de pessoas, já não é de passagem obrigatória. Foram construídas mais duas pontes para atravessar o Ganges. Sim, porque o centro de Calcutá, com os seus 6 milhões de habitantes, duplica de população todos os dias com aqueles que lá trabalham. A região de Bengala Ocidental tem mais de 90 milhões de habitantes, dos quais 14 milhões vivem na Grande Calcutá.

A viagem de automóvel faz-se bem. A paisagem humana muda. Em quatro dias intensos, cuja jornada começava às 9h da manhã para só terminar às 9h da noite, visitámos 16 aldeias: Kalikata, Anulia, Bhetkepara, Sirol, Tegachia, Sarda, Ghoraberia, Chitnan, Vatora, Akna, Saimona, Sarpai, Thalia, Binola, Para e Kumaria. Nomes difíceis de entender, e por isso também de memorizar!

Todas as noites, ao regressar a Calcutá, duas das quatro faixas de rodagem da auto-estrada estavam ocupadas por duas filas infindáveis de camiões parados. Explicaram-nos que chegam de Mumbai e Nova Deli mas não podem entrar na Cidade antes das 9 da noite. E lá ficam horas a fio (a partir das 4 da tarde começam a chegar), juntando-se em grupo a comer e conversar, sentados no asfalto.

As aldeias assemelham-se nas necessidades. De difícil acesso, muitas vezes só de “tuc-tuc” ou até mesmo a pé, parecem-se todas à primeira vista. Mas a pobreza extrema, porque de isso se trata, também ela tem graduações. À medida que as horas e os dias passam, vamos tendo essa perceção. Todas as aldeias são paupérrimas para o nosso critério “ocidental”, mas há-as miseráveis e algumas mesmo indignas. Casas de adobe argiloso, ameaçando ruína à primeira chuva, vão na sua maioria ficar submersas nas cheias. As casas construídas com financiamento da AMI há 27 anos, essas, continuam de pé.

Que diferença noto em relação a 1991? Os acessos às aldeias mais remotas foram melhorados com obras do Governo. Têm pavimento de tijolo ou uma fina camada de cimento. Já não são tão lamacentos. Lembro-me da dificuldade em andar sem deixar o sapato para trás, enterrado na lama. Existem também abrigos sobre estacas, ainda que insuficientes, para receber as famílias que ficam com as casas alagadas na altura das cheias. Os riquexós puxados por homens a pé ou de bicicleta foram na sua maioria substituídos por “tuc-tucs”. 

A monção tardou este ano em chegar. Junho já costuma ser o mês das chuvas torrenciais. Tivémos “sorte”. Não choveu senão um dia. Mas em Bengala, quando as chuvas não vêm a horas, a principal fonte de rendimento da maioria da população, o arroz, pode ser seriamente posta em causa. E por isso, também a subsistência da maioria das famílias.

O projeto que estamos a desenvolver com o nosso parceiro, financiando e dando apoio técnico, pretende prevenir as cheias, sensibilizando 30 aldeias para a necessidade de elevarem as suas casas e reforçá-las com pelo menos 4 pilares de betão, para os quais são fornecidos os materiais. Isso implica um trabalho intenso de sensibilização e acompanhamento. Já foi aliás identificado, em cada aldeia, um elemento que irá receber formação e ser capacitado para esse fim.

O Estado de Bengala Ocidental, devido à sua vulnerabilidade às catástrofes naturais, desenvolveu uma política de gestão de desastres integrada no seu Plano de Desenvolvimento. O documento foi-nos facultado pelo nosso parceiro, cujo trabalho é desenvolvido em harmonia com o mesmo. Uma das áreas em que se empenham é justamente “advocacy” para as aldeias onde atuam.

Nas dezasseis comunidades onde fomos e dialogámos, as pessoas têm consciência que as cheias se agravam de ano para ano. Sobretudo os mais velhos. Falam das mudanças nas estações: há duas décadas havia seis estações no ano. Hoje ficaram reduzidas a três.

O que, no entanto, mais verbalizam é a falta de acesso à água e a médico. Preocupa-os que, no tempo das cheias, os poços de água ficam submersos e só lhes resta beber a águas das charcas (“ponds”) artificiais onde pescam, tomam banho, lavam a roupa, etc. Fervem várias vezes a água e “filtram-na” com um tecido tipo gaze. Evidentemente que estão reunidas assim todas as condições para que as doenças hídricas proliferem, em particular as diarreias.

Há pois que construir os poços em altitude com escadas de acesso, o que implica uma perfuração mais funda, até porque os lençóis de água mais superficiais estão contaminados por arsénico. Em relação ao médico, é sabido que 80% das doenças são evitáveis com a alteração de hábitos e com prevenção. Do que necessitam é, não propriamente de médico, mas de cuidados primários de saúde. E fica combinado com o nosso parceiro que será um projeto paralelo a desenhar.

Todas estas aldeias carecem das mais básicas condições de vida. E as cheias, cada vez mais intensas e longas, a muito curto prazo irão provocar migrações em massa. São sempre os mais pobres e vulneráveis as verdadeiras vítimas de todas as catástrofes, sejam elas naturais ou provocadas pelo Ser Humano.

De regresso ao “mundo da abundância”, retomo a minha habitual caminhada. Volto diferente. O ar leve e fresco da manhã deste início de julho ameno contrasta com as sensações vividas que se me colaram à pele na última semana.

Luísa Nemésio, Secretária-Geral da AMI