Iémen, um país ignorado

Iemen

O panorama no Iémen que, segundo a World Population Review 2022, é um dos países mais pobres do mundo, desvela-se perante o olhar passivo do mundo, mas a verdade por detrás desta guerra civil é tão dura que a comunidade internacional prefere esquecer, que desde 2011, meio milhão de pessoas perdeu a vida.

As Nações Unidas preveem que em 2030, deverão ascender a 1.3 milhões vítimas mortais desta guerra por efeitos diretos ou colaterais, como fome ou doenças preveníveis. Estima-se que 70% serão crianças. O crescimento do movimento rebelde Huti, que ao longo do tempo se foi apoderando da região norte do país e da capital Sanaa, foi estimulado pela queda do instável governo Iemenita. Em 2015, a coligação dos países árabes liderada pela Arábia Saudita surgiu na tentativa de reerguer as forças governamentais do país, o que desencadeou uma guerra interminável.

Dr. Fernando Nobre, Presidente e Fundador da AMI, esclarece que “o lugar geoestratégico vital que o Iémen ocupa no sul da Península Arábica e a sua primordial importância no Estreito de Bad-el Mandeb, fulcral na passagem do mar Vermelho para o Golfo de Aden por onde passa a artéria principal dos navios petroleiros, explica a razão principal do conflito e a intervenção direta ou indiretamente da supremacia regional: a Arábia Saudita e o Irão, tendo a Turquia maioritariamente sunita, à espreita e particularmente atenta. Não nos esqueçamos da ocupação e influência do Império Otomano, de que a Turquia se reclama como herdeira e com fundamento histórico de séculos…”.

O sofrimento causado pela incompatibilidade religiosa entre xiitas e sunitas tem sido um combustível importante na extensão deste conflito, dividindo a região em dois polos: Arábia Saudita (sunita) e Irão (xiita).

De acordo com dados da World Report o conflito vivido no país intensificou-se em 2021 à medida que 49 distritos foram sendo diretamente afetados pelas frentes armadas. Atualmente, existem 4 milhões de pessoas internamente deslocadas e este é um número em crescendo.

A Human Rights Watch denuncia ainda crimes de tortura, detenções ilegais, desaparecimento e rapto de civis, recrutamento de jovens para integrar o conflito através do uso de armas e o recurso à utilização de minas terrestres – que já roubaram a vida a 9 mil pessoas desde o início do conflito – violando as sanções impostas para a proibição deste tipo de dispositivos no país.

Nas regiões controladas tanto pelos Hutis como por autoridades do governo Iemenita, foram interditas intervenções por parte das organizações humanitárias que querem providenciar assistência urgente ao país, nomeadamente fornecendo bens alimentares e cuidados de saúde. Isto tem causado um agravamento dramático das condições de sobrevivência da sociedade civil que vive despojada de bens essenciais, refúgio e bens alimentares. A fome apoderou-se do país, afetando particularmente crianças e mulheres.

“As consequências humanitárias desse caos constante são tremendas e, como sempre, as maiores vítimas dos bombardeamentos, inclusive dos hospitais, da fome, dos surtos epidémicos como a cólera, assim como das violações, sempre inqualificáveis, são sempre as mesmas, a saber: as crianças, as mulheres e os idosos” – denuncia Fernando Nobre.

Fotografia: Julien Harneis sob a licença CCBY 2.0