Estuários vivos pela bonança do mar

Ocean Alive - No PLANet B!

“There’s Isn’t a Planet B – Win-win strategies and small actions for big impacts on climate change” é um projeto desenvolvido pela AMI em Portugal, apoiado pela União Europeia e pelo Camões I.P a nível nacional. Este projeto apoia atualmente 22 organizações nacionais na implementação de ações de sensibilização para as alterações climáticas e sustentabilidade ambiental. Neste contexto, vimos dar a conhecer a iniciativa da Ocean Alive“o mar dá bom clima”.

Esta iniciativa contou com a linha de financiamento da AMI NOPLANETB | Grandes Ações, com o propósito de implementar um plano para a preservação das pradarias marinhas no Estuário do Sado, o mais rico estuário em vida marinha de Portugal.

“Florestas do mar”

Ocean alive - pradarias marinhas

As pradarias marinhas são formadas por plantas angiospérmicas, cujas folhas captam luz solar, transformando-a em alimento e oxigénio.

Em qualquer oceano, mar, lago, ria ou estuário é possível encontrar florestas submersas de plantas aquáticas – as pradarias marinhas. Estas podem ir até 70 metros de profundidade e estenderem-se por quilómetros. São dos sistemas mais produtivos e diversos da biosfera, diminuem a erosão costeira e melhoram a qualidade da água. No Estuário do Sado, as pradarias marinhas têm servido de habitat e berçário das presas de uma população de golfinhos residentes nestas águas, bem como de cavalos marinhos e outras espécies. Têm em simultâneo um grande potencial de combate às alterações climáticas uma vez que têm uma elevada taxa de sequestro de carbono.

Sílvia Tavares, bióloga marinha e responsável pelo programa educativo da Ocean Alive afirma que “olhamos para os estuários como sítios onde existem várias atividades e indústrias e não olhamos para estes sítios pelo seu grande valor natural. A verdade é que os estuários são sítios de elevada produtividade. Muitas das espécies que vivem no mar são costeiras e dependem dos alimentos que vêm dos estuários e das pradarias marinhas. São sítios preferenciais de berçário e de crescimento das espécies marinhas. No caso do estuário do Sado, este é um lugar de elevada biodiversidade, tanto que ainda consegue suportar uma população de predadores de topo, como é o caso dos golfinhos que recorrem a esta área diariamente, os cavalos-marinhos e ainda espécies de interesse comercial, como é o caso do choco”.

De modo a proteger estas pradarias aquáticas, o Projeto da Ocean Alive procura, através da educação marinha e da transformação de comportamentos garantir a sobrevivência da sua biodiversidade, cuja existência se encontra ameaçada por diversos fatores.

Guardiãs do Mar

A missão da Ocean Alive conta em todas as suas fases com a colaboração de mulheres da comunidade piscatória local – as Guardiãs do Mar. Estas mulheres têm atuado como catalisadoras para a transformação de comportamentos dos seus pares e para a sensibilização da comunidade escolar. Atualmente são 15 as Guardiãs do Mar que trabalham no sentido de alertar a comunidade piscatória para as três principais ameaças que as suas práticas de pesca representam para o habitat do Estuário do Sado: o lixo da mariscagem, as âncoras e a pesca destrutiva.

Ocean Alive - guardiãs do mar

Sandra Lázaro, guardiã do mar mostra a localização de pradarias marinhas e bancos de areia no Estuário do Sado.

Por outro lado, existem outros elementos que estão atualmente a condicionar a prosperidade deste ecossistema, nomeadamente as dragagens de canais e os efluentes industriais e urbanos, a exploração de aquaculturas e dos campos de arrozais.

As Guardiãs do Mar têm trabalhado quer na sensibilização da sua comunidade para estas questões, quer na monitorização das pradarias, através das cartografias destas florestas submersas.

Através de um programa de capacitação desenvolvido pela Ocean Alive, as Guardiãs do Mar têm sido dotadas de novas competências que valorizam não só a sua experiência na área da pesca como a sua sabedoria acerca da região do Sado. Este programa tem-lhes garantido um rendimento complementar e por isso menor precariedade laboral, própria da atividade piscatória.

Literacia marinha

A equipa da Ocean Alive considera que a sensibilização da comunidade escolar é também fundamental para a alteração de comportamentos e para a consciencialização da heterogeneidade biológica destas pradarias. É através de um programa educativo inclusivo, em que as pescadoras e as biólogas são guias marinhas, que se pretende dotar os jovens de conhecimento sobre este tema, de forma a que possam ter um papel persuasivo junto dos stakeholders, e que no futuro possam influenciar o impacto e as tomadas de decisão sobre a problemática. A mobilização e empoderamento de diversos atores para a proteção das pradarias marinhas é a estratégia que tem sido adotada pela Ocean Alive de forma a atribuir a este ecossistema um estatuto, reforçando estes aspetos com a investigação científica e académica. Raquel Gaspar, bióloga marinha e cofundadora da Ocean Alive explica que “este processo de proteção das pradarias marinhas passa por várias fases. Não é suficiente criarmos uma comunidade que conhece as pradarias, é preciso envolver as pessoas, educar e sensibilizar quem pode ter impacto direto sobre as mesmas. A outro nível é preciso sensibilizar e pressionar as autoridades que têm poder legislativo e de regulamentação para repensarem e melhorarem o estatuto das pradarias e criar leis, condutas e planos de gestão que as protejam.”

O projeto “o mar dá bom clima” tem sensibilizado jovens e professores para o tema e continuará a mobilizar a sociedade civil para a importância de preservar este património natural que nos é comum, as pradarias do mar.