Entrevista ao Dr. Miguel Martins, médico voluntário da AMI em Madagáscar

Período em missão: outubro a dezembro de 2019

O Dr. Miguel Martins, médico expatriado da AMI em Madagáscar, conta-nos a sua experiência de integração na equipa médica local do Centro de Saúde St. Paul d’ Ampefy-Andasibe, bem como as principais necessidades desta estrutura ao nível dos cuidados de saúde materna e pediátrica. No decorrer dos últimos meses, o Dr. Miguel tem-se dedicado também à formação da médica generalista, Drª Seheno, que nos relata quais as mais valias deste tipo de formação para uma melhor prestação de cuidados a bebés e crianças em Madagáscar.

Peço que descreva o seu dia-a-dia em Ampefy-Andasibe e a sua adaptação, enquanto voluntário da AMI como pediatra no Centro de Saúde St. Paul, nomeadamente no que toca à integração na equipa médica local.

O meu dia-a-dia de trabalho no Centro Medico-Surgical St. Paul Ampefy-Andasibe inicia-se cedo, pelas 8 horas, em dias úteis e quinzenalmente aos sábados também. Nessa altura, o Centro abre as suas portas e os utentes fazem a sua inscrição e aguardam a sua observação na sala de espera. A médica Generalista (Drª Seheno) que se ocupa da parte da Pediatria e Saúde Infantil dá as suas consultas diárias entre as 8h e as 13h e novamente entre as 14h e 17h, com uma pausa de 1 hora para almoço. Geralmente antes de iniciar as suas consultas, a Drª Seheno faz a visita à Maternidade e observa os recém-nascidos e parturientes, voltando depois para o consultório. A minha atividade inicial, nos primeiros dias, depreendeu-se com a recolha de informações do funcionamento do Centro e dos seus profissionais de saúde. Após este reconhecimento, foi-me proposto pela chefia do Centro que acompanhasse a Dr.ª Seheno nas suas consultas, de forma ativa, recolhendo dados da história do doente (traduzidos, naturalmente, pela Dr.ª Seheno), observando-a e propondo a respetiva orientação. O objetivo era demonstrar à minha colega médica alguns aspetos técnicos na abordagem ao doente em idade pediátrica, sempre em colaboração com a mesma e, de forma a integrá-la nos conhecimentos e aptidões. De um modo natural, fui partilhando o tempo de consulta com a Dr.ª Seheno, procurando que esta ganhasse uma maior autonomia na mesma e obtivesse mais ferramentas para a realização do seu trabalho. Após o primeiro mês de Missão, passei a ter um papel mais de consultor nos casos de maior dificuldade diagnóstica ou de orientação, estando sempre disponível para a discussão dos doentes e respetivos casos clínicos. Sempre que necessário os utentes eram passados para a àrea de Urgência e tratados em concordância, sempre com um parecer médico em conjunto.

Paralelamente, e sendo este o maior enfoque da Missão, realizou-se um planeamento de Sessões de Formação em Pediatria/Saúde Infantil, de forma a complementar os conhecimentos teórico-práticos da Dr.ª Seheno. O objetivo era sumariar os dados mais importantes da clínica e orientação terapêutica das doenças mais frequentes em idade pediátrica.

A minha integração no seio dos profissionais de saúde do Centro decorreu de uma forma natural, sendo inicialmente apresentado aos mesmos pelo Chefe do Projeto, e depois mantendo uma relação amigável com os mesmos, desde os administrativos até às enfermeiras e enfermeiras-parteiras. Apesar da maioria não dominar a língua francesa, a comunicação não foi um obstáculo importante.

Por último, semanalmente, às quintas-feiras, desenvolvíamos a nossa atividade assistencial em formato de clínica móvel, visitando comunidades/aldeias distantes do Centro e com menos acesso aos cuidados de saúde, de forma a levar os mesmos às pessoas mais carenciadas.

Madagáscar é um país com elevada taxa de incidência de pobreza extrema. Como é que caracteriza a demografia da região e das populações que procuram os cuidados médicos do Centro de Saúde de St. Paul?

De facto, a pobreza é algo muito notório neste país. Aqui (pelo menos do que pude observar), a maior parte da população não tem trabalho fixo e vive da sua atividade agrícola nos campos e à beira-lago, cultivando e colhendo os produtos para a subsistência própria e da sua família e tentando vender de forma ambulante o excedente. Desta forma, os rendimentos que a maior parte da população tem são parcos e isso nota-se quando os mesmos recorrem aos Serviços de Saúde. Em Madagáscar, para além dos Serviços de Saúde serem, por vezes de longe alcance, também eles cobram todo o tipo de serviço aos seus utentes. Este serviço que é cobrado abrange a mais pequena intervenção ou consulta até aos consumíveis básicos como luvas, desinfetantes e outros materiais absolutamente necessários na observação de um doente. O resultado disto é que, frequentemente, as pessoas que recorrem ao Centro ou têm pouco dinheiro para gastar ou não o têm de todo e isso reflete-se depois nos cuidados a que poderão ter acesso. A Change Onlus criou este Centro exatamente para tentar colmatar esta carência, oferecendo cuidados de saúde a preços muito mais acessíveis e fornecendo medicamentos a preços baixos e, por vezes, de forma gratuita. Não é, então, de admirar que o Centro tenha tido um crescimento exponencial da afluência de utentes nos últimos 6 meses, tendo crescido de cerca de 300 consultas/mês para 2500/mês. A qualidade de cuidados e recursos existentes aqui também providencia uma maior segurança na orientação dos doentes, pelo que acaba por ser uma mais-valia muito grande para a população de Ampefy e arredores.

Ao nível da saúde infanto-juvenil, quais são as patologias mais identificadas pelas equipas médicas de St. Paul?

As patologias mais observadas a nível infantojuvenil não são surpreendentemente diferentes das que atingem a maior parte do resto do mundo e mesmo nos países desenvolvidos. Desta forma, a patologia respiratória com infeções respiratórias das vias aéreas superiores e inferiores, bem como a patologia gastrointestinal com maior foco nas gastroenterites agudas são as que predominam. Apesar da nosologia ser semelhante, o que difere é a gravidade das mesmas, as possíveis complicações e dificuldade na orientação das mesmas. As infeções respiratórias que facilmente poderiam ser tratadas no domicílio aqui apresentam-se já mais avançadas com necessidade de oxigenoterapia e de antibioticoterapia endovenosa. Por outro lado, as gastroenterites agudas frequentemente apresentam-se já em graus avançados de desidratação e de desnutrição, que preconizam uma ação prontificada e mais agressiva.
Para além da patologia acima referida, também me deparei algumas vezes com situações agudas potencialmente graves de sépsis ou insuficiência respiratória que precisavam de admissão hospitalar, e por esse motivo, tinham de ser transferidas para o hospital distrital mais próximo.

Quais têm sido os principais desafios no exercício da sua profissão, no decorrer desta experiência em Madagáscar, nomeadamente ao nível da gestão de necessidades de tratamento da população local?

Penso que o principal desafio sentido por mim ao longo desta missão tem sido a dificuldade da orientação dos doentes, não pela falta de recursos de saúde, mas sim porque a família não dispõe do mínimo apoio financeiro para providenciar medicamentos simples aos seus filhos para continuar o tratamento em ambulatório. O mesmo era particularmente crítico quando se julgava ser urgente a transferência para um hospital para a continuação de cuidados, visto que o Centro não dispunha de mais capacidade para tal. Muitas vezes as famílias alegavam simplesmente não ter dinheiro para se poder deslocar ao Hospital mais próximo e, tão pouco, para comportar o custo dos tratamentos. Em casos extremos, os familiares acabavam mesmo por se resignar e aceitar que não se podia fazer mais nada e à revelia médica decidiam levar os seus filhos doentes para casa. Por outro lado, a falta de recursos de meios complementares de diagnóstico mais completos (determinados exames como hemograma, ionograma, culturas microbiológicas, etc) limitavam bastante a atuação clínica e raciocínio, fazendo com que o os mesmos fossem mais guiados por dados semiológicos (que hoje em dia sabemos serem bastante pouco sensíveis ou específicos na abordagem ao doente).

Ainda assim, tenho plena noção que os cuidados oferecidos no Centro são muito mais amplos do que aqueles oferecidos noutras entidades de saúde locais, pelo que o pouco que se consegue fazer tem um impacto fundamental na melhoria da saúde das crianças.

Como é que tem sido a dinâmica de formar um médico pediatra da equipa local e quais os principais enfoques deste processo de formação que tem assumido?

A dinâmica tem sido muito favorável. A médica Seheno é uma pessoa jovem, empenhada, inteligente e sensível que tem um gosto grande pelo trabalho que faz e isso reflete-se diariamente na sua atividade. Tendo em conta que o percurso de estudante de Medicina em Madagáscar é muito difícil por ser feito em regime de voluntariado, com muitas horas de urgência e de cuidados aos outros de forma totalmente benevolente e num contexto de “apenas se cuidam dos doentes que podem pagar os seus cuidados”, é preciso ser muito resiliente para continuar a ter um empenho grande na melhoria da saúde de outrem. Assim sendo, formar ou melhor, facilitar a formação de um colega médico de tal forma dedicado é uma tarefa com uma responsabilidade grande. O objetivo é fornecer ferramentas para que a médica possa desenvolver uma maior autonomia no seu processo de abordagem ao doente. Uma vez que, num futuro próximo, já deixarei de estar presente para a discussão dos casos clínicos, é essencial que a formação seja orientada para este efeito. Não se propõe apenas uma sessão de formação com conteúdos teóricos, mas também uma integração ativa dos mesmos no quotidiano dos cuidados às crianças. A possibilidade de identificar algumas necessidades na formação de apoio aos recém-nascidos, na reanimação neonatal e noutros processos de qualidade de cuidados de saúde tem sido vital, na medida em que discutimos frequentemente medidas para melhorar os mesmos. Estas medidas podem resultar na elaboração ou atualização de protocolos já existentes e, mesmo, no acrescento de alguns dados aos dossiers clínicos dos doentes, de forma a aumentar a informação clínica dos mesmos.

Daria algum tipo de recomendação às Instituições de Saúde, em termos dos cuidados e proteção da saúde de crianças e jovens, em Madagáscar, nomeadamente no que toca a técnicas e procedimentos a serem adotados pelas mesmas?

Penso que este trabalho já é largamente realizado por entidades da Organização Mundial de Saúde, nomeadamente, a UNICEF. No entanto, as mesmas têm a sua ação em instituições de saúde estatais, que por sua vez carecem de recursos e de qualidade na atribuição de cuidados aos seus doentes. Apesar de ter noção que se faz o melhor que se pode, dadas as circunstâncias, penso que as instituições estatais deveriam estar mais atentas a grande parte da população que vive longe dos Centros de Saúde e que acabam por receber poucos cuidados de saúde ao longo da sua vida. Uma solução para isto poderia, por exemplo, ser a fomentação de clínicas móveis de forma regular. Estas são feitas regularmente, mas dando apoio apenas a cuidados nutricionais e de vacinação (que já por si são de extrema importância). Os cuidados de seguimento em Saúde Infantil acabam por ser muito escassos, sendo que o que acaba por acontecer é uma consulta de doença aguda.

Pretende continuar a fazer missões humanitárias? Que mensagem deixaria a quem gostaria de enveredar por este caminho?

Penso que, para aqueles que decidem iniciar um percurso de vida com desafios deste género, nunca deixa de querer aproveitar uma nova aventura e ter a oportunidade de levar as suas aptidões e conhecimentos para o benefício de outrem. Porém, como em tudo, isso depende muito da disponibilidade de cada um de nós, não só em termos profissionais, mas também em termos pessoais e de projetos de vida. Quando a oportunidade surge e tudo se alinha nesse sentido, é uma emoção sentir que partiremos novamente à descoberta de novas culturas, novos sistemas de saúde e de como podemos ajudar os outros. Este tem sido o meu caminho até agora, em que consigo aproveitar alguns momentos para poder sair fora da minha zona de conforto e tentar aprender a viver um pouco mais e aprender com tudo aquilo que vejo à minha volta noutros pontos do mundo, ou mesmo do meu país. Contudo, não acho que é uma tarefa para todos os Médicos, nem tão pouco, acho que a ideia que devemos ter é uma de “salvar o mundo”. Muitas vezes partimos nestas missões com essa máxima em mente, mas cedo aprendemos que acabamos por trazer connosco muito mais do que aquilo que deixamos nos locais que visitamos. Cabe a cada um de nós pegar nessa aprendizagem e partilhá-la, semeando a curiosidade em outros colegas e nos nossos amigos, de forma a consciencializá-los para o verdadeiro Mundo fora da “janela” do nosso quotidiano. Portanto, se conseguir com a minha inquietude, vontade de ajudar mais crianças com necessidades, resiliência e principalmente, curiosidade pelo futuro da nossa geração, motivar alguém a participar numa experiência semelhante é uma grande concretização.

“Este tipo de formação é muito importante para o Centro pois vai ajudar a melhorar o serviço de pediatria e começar em breve com o internamento. Esperemos que assim continue.”