Entrevista a Pedro Matos, coordenador do Programa Alimentar Mundial

2 - Pedro Matos WFP Saikat Mojumder

Foto: WFP / Saikat Mojumder

Português, licenciado no Instituto Superior Técnico em Engenharia do Território, já trabalhou no setor espacial e em empresas privadas. Mas foi no Programa Alimentar Mundial (PAM) que encontrou a sua missão, colaborando com esta agência das Nações Unidas há 13 anos e tendo já passado pelo Darfur, Bangladesh, Moçambique, Mali e Sudão, sempre em situações de catástrofe. Está, agora, destacado na Ucrânia, alternando a sua presença entre este país e os países vizinhos.

Como foi o seu percurso pessoal no setor da ação humanitária?

Eu tive muitas carreiras antes de chegar ao PAM. Sou engenheiro urbanista, passei por start-ups e depois fiz muitos anos no setor espacial – em agências espaciais e em empresas privadas que trabalham para o espaço. E foi por aí que eu entrei para o PAM. Entrei como SIGs/GIS – Geographic Information Systems – que consistia em analisar imagens de satélite para monitorizar as nossas operações no Darfur. E foi depois de eu estar nesta área dos assessments que eu passei para as operações – para o Programa – e é isso que tenho feito desde essa altura.

Esteve já em inúmeros cenários de catástrofe. Consegue destacar um fator comum a todos eles em que, havendo uma organização diferente, diminuiria o impacto nas populações?

A posteriori, sim, é evidente. A questão é se fizemos o melhor que pudemos com a informação que tínhamos na mão, no momento. Olhando para trás, sim, é sempre possível ter feito melhor. Boa parte da razão pela qual as emergências correm bem ou mal tem a ver com quanta preparação é que nós fazemos para elas. Por exemplo, no nosso caso – alimentação – quantas anticipatory actions é que nós fazemos, quanto forecast é que nós podemos fazer com algum tempo de aviso, quanta comida é que pre-posicionamos e onde, em antecipação dessas emergências, etc. Por exemplo, se nós não tivéssemos pre-posicionado na Beira, Moçambique, 4 mil toneladas, quando vimos o ciclone chegar, nunca teríamos conseguido alimentar aquelas pessoas todas depois dele bater. Portanto, as anticipatory actions são o fator mais importante. E, às vezes, a red tape – a burocracia – impede-nos um pouco de fazer isso. Há uma série de coisas que nós, olhando para trás, podíamos e continuamos a poder fazer melhor, simplificando muitos dos processos, que nos impedem de ter uma melhor preparação para as emergências.

No seguimento do que está a dizer, na sua opinião, uma maior coordenação e enquadramento da ação humanitária (referimo-nos ao sistema Cluster e ao manual Esfera, por exemplo) implica uma burocratização e complexificação da ajuda? Ficou mais demorada e complicada ou, pelo contrário, tornou-se mais eficiente e rápida?

Pelo contrário: tornou-se mais eficiente e rápida! Os clusters facilitam muito a intervenção. Acho que, mesmo assim, toda a gente entra um bocadinho em over drive em altura de emergência e há uma troca de informações absolutamente estonteante, em que é difícil separar o trigo do joio. Mas isso é inerente à quantidade de recursos – de pessoas – que se alocam a estas emergências e é inerente ao facto de toda a gente estar focada em produzir informação. Eu acho que os clusters e a coordenação da OCHA ajudam a que essas informações façam sentido. E acho que, principalmente, nos organiza em setores, que sem os clusters não teríamos. Estaríamos todos “à mesa uns com os outros”, a misturar educação e nutrição e saúde. E digo mais: os clusters são o único momento em que a diferença entre as ONG e as Nações Unidas se esbate e em que estamos todos no mesmo barco, a usar os mesmos serviços e a fornecer os mesmos serviços.

A crise que vivemos atualmente, na Ucrânia, trouxe aspetos inéditos à resposta de emergência: cidadãos em carros particulares a ir buscar famílias que atravessassem a fronteira; instituições públicas como Câmaras Municipais, a recolher bens localmente e enviar camiões; organizações do setor social a fretar aviões para transporte de refugiados… Acha que se deu um passo atrás na organização, coordenação e estruturação da resposta ou, pelo contrário, se devem adaptar futuras respostas e encontrar novos papéis para os agentes de ação humanitária? Devemos analisar o que está a suceder de que prisma?

Eu não acho nem que isto seja novo, nem que seja específico da Europa. Eu estive na resposta do Idai, em Moçambique, e nós demorámos alguns dias a responder. E quando chegámos finalmente às aldeias, as primeiras repostas eram das próprias aldeias e das organizações que já existiam no terreno, que tinham tratado de salvar pessoas, de apoiar pessoas, de partilhar os recursos que existiam. Esse tipo de resposta, que é primordial, existe em todo o lado. Penso é que, em certas zonas do globo, não é coberta pelos media e, portanto, imaginamos que não existe e, como não é feita da forma como nós a fazemos aqui, com autocarros e camiões, etc, parece que é diferente, mas é exatamente a mesma coisa. Acho que é impossível impedir as pessoas que sentem que querem ajudar de o fazer, dizendo-lhes que há outras organizações que já estão a tomar conta disso. As pessoas sentem muita necessidade de serem solidárias e não sei se algum dia vamos impedir as pessoas de fazerem isso. Agora, podemos é tentar explicar-lhes que aquilo que elas querem fazer, já há outras instituições a fazer – que há instituições a fazer esse trabalho na Polónia e que não vale a pena irem a conduzir até à Polónia; que no caso de irem buscar pessoas, é exatamente esse o modelo que os traficantes usam para desviar crianças e mulheres para o tráfico e que portanto, lá porque nós temos boas intenções, não quer dizer que os refugiados tenham maneira de distinguir uma camioneta com boas intenções de outra com más e podemos estar a contribuir para essa confusão. E, portanto, temos de dirigi-los para as estruturas como os clusters (a maioria das pessoas não sabe o que são os clusters) ou, pelo menos, para uma instituição. As pessoas que se liguem a uma instituição portuguesa que já tenha uma relação com o terreno ou que estabeleça essa relação, durante este período – por exemplo, falar com a Cáritas em Portugal para que esta fale com a Cáritas na Polónia – e que pelo menos haja uma coordenação entre instituições e um acordo escrito em que estas coisas se enquadrem e que haja uma ligação entre a oferta (do lado das pessoas que querem ajudar) e a procura (do lado das necessidades).

Na sua opinião, como se explica a um cidadão comum que é preferível doar 5€ todos os meses, durante um ano, a uma instituição da sua confiança, do que fazer um único donativo em bens no valor de 100€?

Essa é uma mensagem muito difícil de transmitir. Eu ando a “martelar nessa tecla” há muitos anos. No caso do Idai, em que as pessoas estavam a comprar latas de atum para serem enviadas de avião, eu fiz as contas na altura e uma dúzia de latas de atum ou de salsichas custavam 250€ (com o transporte). Eu, com 250€, consigo alimentar 300 pessoas. Ainda há uma perceção de que os bens não podem ser roubados e que o dinheiro pode. É uma perceção estranhíssima. Eu não percebo porque é que um pacote de açúcar – que é exportado por milhares de kms com imensas pessoas a manusearem esse pacote de açúcar e que fica não sei quanto tempo num armazém, até nós conseguirmos mobilizar as pessoas para irem abrir aqueles contentores e ver o que está dentro – é menos sujeito a ser roubado do que uma transferência bancária entre instituições e que só sai fisicamente da nossa mão no momento em que nós damos o bem diretamente à pessoa. Mas as pessoas não acreditam. Resta continuar a martelar nessa tecla.

Tem-se falado e escrito bastante na antecipação das crises (e na sua preparação atempada) como forma de melhorar a resposta. Como vê a utilização da inteligência artificial e de modelos preditivos nesta área? Será o próximo passo, na otimização da Ação Humanitária?

Sim. Em relação a toda a informação que nós geramos em assessments, em índices, etc. (muita informação que nós já analisamos com programas estatísticos) há uma grande vantagem em alargarmos a algoritmos e inteligência artificial que possam tentar encontrar correlações entre índices que nós recolhemos há anos e aquilo que são os resultados da nossa ação; percebermos onde é que o nosso euro é melhor gasto: por exemplo, no caso do Programa Alimentar Mundial, nós não trabalhamos só a dar comida… nós, muitas vezes, entramos nas cadeias de valor e tentamos trabalhar mais a montante. Quando as pessoas têm fome, não há muito mais a fazer do que dar-lhes ou comida ou dinheiro para comer, mas a partir de um certo momento, quando já estamos na fase de recovery e temos vários caminhos à nossa frente “OK, estas pessoas já não precisam de comida de graça. O que é que é melhor a seguir? Fazermos um programa de comida por trabalho para a comunidade, construir um reservatório de água para a comunidade usar, por exemplo, no seu gado ou na sua irrigação? Ou é melhor fazermos um programa de nutrição na aldeia? Ou é melhor darmos alimentação escolar às crianças?”. A partir do momento em que já não estamos na fase de life-saving, na fase crítica, há uma série de caminhos à nossa frente e nós acabamos por decidir fazer um ou outro com base na nossa experiência passada e, se calhar, há uma série de dados que nós temos recolhido ao longo dos anos, dados que informam estas decisões e, depois, monitorizam os resultados destas decisões, em que se calhar a inteligência artificial é ótima para perceber se ao longo destes anos, por exemplo, entre comida por trabalho ou alimentação escolar, qual é que maximiza melhor os resultados naquela comunidade. Utilizar a inteligência artificial para analisar estes dados é importantíssimo. E nós usamo-la para outras coisas: por exemplo, nós fazemos muitos voos de drones, agora, para fazer mapeamento de zonas de crise e a identificação de objetos em imagens, mapeamento 3D, tudo isto é feito pela inteligência artificial e é muito mais fácil. E ainda estamos só no princípio, na infância, da inteligência artificial.

Poderemos ter as mesmas linhas orientadoras para coordenação da Ação Humanitária para toda e qualquer catástrofe? Ou deverá haver diferenciação, dependendo da geografia da crise (por ex. uma catástrofe na Europa Vs uma catástrofe em África) ou do tipo de catástrofe? 

Acho que geograficamente não deve haver diferença nenhuma e acho até perigoso acharmos que intervir na Ucrânia ou em Moçambique são coisas diferentes. Acho que há um risco xenófobo de dizer que as pessoas na Europa não são as mesmas que noutra parte do Mundo. Acho que devemos utilizar exatamente a mesma abordagem: articularmos com os governos. Acho que, quando chegamos aos países, devemos sempre fazer a mesma coisa: que é falarmos com as autoridades e perguntarmos o que é que elas precisam. Nalguns casos, as autoridades já sabem. Noutros não sabem e nós devemos ajudá-las a entenderem o que precisam. Nesse momento, as autoridades dizem-nos o que precisam, o que conseguem fazer e o que nos pedem para nós ajudarmos. E depois vamos transferindo competências ou beneficiários até nos dizerem que já não fazemos falta. Acho que devemos fazer isto em todo o lado e é o que estamos a fazer aqui na Ucrânia. Eu estou baseado no Sudão, atualmente, e é o que fazemos lá. Quanto a diferentes tipos de catástrofes (naturais ou conflitos) acho que são muito diferentes. Nas naturais, toda a gente puxa para o mesmo lado, incluindo os grupos armados/exércitos. Tipicamente, respondemos todos na mesma direção e tem muito mais a ver com coordenação civil-militar, o que deve fazer um exército e o que deve fazer uma organização humanitária. Nos casos em que há conflitos, com várias partes envolvidas, como é o caso do Sudão ou da Ucrânia, temos de facto, às vezes, opções difíceis para fazer. Por exemplo, quando é que um grupo rebelde se torna um governo com o qual nós podemos interagir oficialmente? Por exemplo, os talibãs, ou quando é que os hutis, no Iémen, deixam de ser rebeldes e passam a ser a autoridade de facto? Acho que há uma série de questões destas que são difíceis de responder e que têm formas de respostas muito diferentes. Há um governo a combater forças rebeldes e pessoas a fugir desse conflito e nós chegamos para apoiar o governo e a sua população. E a dada altura, os rebeldes consolidam uma zona que controlam, com pessoas que estão a sofrer também de insegurança alimentar. A partir de que ponto é que nós estamos a ajudar a reconstruir um país e um governo a assegurar a manutenção do seu país livre e a partir de que ponto é que estamos a lidar com duas partes do conflito, com as quais temos de lidar separadamente? É que não há um ponto claro onde uma coisa deixa de acontecer e passa a acontecer outra. E, portanto, somos nós que temos de definir a partir de que ponto é que temos de considerar duas partes em conflito e não um governo que está a ser apoiado com forças contra a sua unidade. É por isto que desastres naturais e conflitos são claramente duas coisas diferentes. 

Estando a ação humanitária cada vez mais estruturada e orientada por standards, indicadores e sujeita a reports e avaliação, é cada vez mais fácil obter financiamento?  

Acho que sim. Acho que os doadores se estão a tornar mais exigentes e, em resposta a isso, as organizações estão a tornar-se mais exigentes, também. Há aqui um desafio de se encontrar um equilíbrio entre sermos pragmáticos e respondermos depressa e termos accountability ou capacidade de prestação de contas e transparência. Temos todos feito um esforço para haver mais mecanismos de controlo e isso é bom, mas acho que, a dada altura, os mecanismos de controlo não trazem mais accountability e acho que devemos ter a capacidade de olhar para os mecanismos de controlo e perceber se estamos simplesmente a introduzir mais mecanismos sem que isso nos dê mais transparência. Mas acho que sim: que a profissionalização da resposta humanitária trouxe consigo mais confiança por parte dos doadores e mais fundos. 

Para que tipo de emergências está a ação humanitária mais oleada/preparada? As de causas naturais ou as de causas humanas?  

Não sei… talvez mais para as de causas humanas. Porque, para as de causas naturais, quase todos os países têm sistemas de proteção civil que se preparam e se organizam para isso. Enquanto que raramente um país está equipado ou preparado para dar serviços a populações que estão do lado contra o qual os governos estão a combater. E eu acho que aí, nós estamos mais preparados para trabalhar dos dois lados de um conflito, de uma forma que os governos não estão. Nunca tinha pensado nisso, mas talvez estejamos mais preparados e sejamos mais úteis (apesar de sermos muito úteis em catástrofes naturais a que os governos não conseguem dar resposta) num cenário de conflito a estabelecer, por exemplo, corredores humanitários e outras situações que nenhuma parte do conflito faria por si. 

É possível responder a uma emergência, preparando ao mesmo tempo a fase de desenvolvimento? Como se coordenam as duas áreas/fases em termos de recursos humanos e estratégias de organização e atuação, já que têm objetivos tão diferentes, mas tão intrinsecamente ligados?

Eu tenho alguma dificuldade em perceber que a Ação Humanitária e o Desenvolvimento tenham objetivos diferentes. Eu acho que criámos essa divisão artificial há muito tempo e agora tentamos com esta linguagem estranha dos nexos, que são nomes artificiais, como triplo nexo Humanitária-Desenvolvimento-Paz, em que estamos agora a tentar integrar coisas que já estão integradas na realidade. Isto é um processo contínuo. Penso que há um ciclo que é natural que é um ciclo de desastre/recovery/desenvolvimento/disaster risk reduction, para que, no próximo desastre que aconteça, as pessoas estejam mais preparadas, tenham melhores almofadas (financeiras, gado, água). Acho que este ciclo faz imenso sentido. A divisão entre Ação Humanitária e Desenvolvimento acho que cada vez faz menos sentido. E, por exemplo, o Programa Alimentar Mundial, há cerca de 15 anos, fez uma mudança estratégica que foi deixar de dar de comer às pessoas, para passar a garantir que as pessoas têm algo para comer. Isso, em muitos casos, continua a ser dar de comer, mas fez com que começássemos por analisar as causas da fome e depois encontrássemos os melhores mecanismos para responder a essas causas. E, portanto, quando chegamos a um sítio e fazemos avaliação de necessidades e chegamos à conclusão de que não há comida, trazemos comida. Mas se chegarmos à conclusão de que a comida existe, mas as pessoas não conseguem chegar a ela, por causa do custo, se calhar, damos dinheiro. Mas também pode ser que seja um problema de más práticas agrícolas e, por exemplo, os agricultores colherem as suas sementeiras e depois elas apodrecerem, e aí devemos trabalhar na redução das perdas agrícolas. E essa mudança estratégica que o PAM fez há cerca de 15 anos, fez-nos entrar mais a montante na cadeia de valor e isso dilui ou entra naquilo que é, tradicionalmente, a parte de desenvolvimento. Mas a mim parece-me ser uma coisa boa: não trabalharmos só nas consequências, mas trabalharmos mais nas causas, o que faz com que as pessoas não caiam tantas vezes numa situação em que nós tenhamos de vir ajudá-las. Por isso, acho que esta diluição dessa fronteira, entre Ação Humanitária e Desenvolvimento, é boa.

Foto: Johnny Shipley

Quais são as maiores diferenças que deteta entre o modus operandi do PAM de há 13/14 anos e o atual?

Há 13/14 anos é menos claro, mas se compararmos com o que era há 30 anos… nós chegávamos quase como cowboys, com camiões e há aquelas histórias dos antigos do PAM a dizer que atravessavam em camiões entre as linhas da frente do MPLA e da UNITA, em que os líderes só confiavam no chefe de escritório do PAM e ele conduzia o camião através das linhas da frente de conflitos… isso já não existe. Já não existe esse tipo de atitude. Já não existe nós chegarmos e assumirmos que toda a gente é incapaz e que vamos substituir os governos. Já não existe a atitude de chegar e dar comida, independentemente de percebermos se os mercados estão lá ou não e se não estamos a empobrecer uma série de agricultores que também estavam a sofrer… essa é a grande diferença. Nós, hoje, fazemos muita análise de mercado, tentamos perceber se a nossa ajuda está a causar inflação ou não e se temos de mudar (fazemos isso todas as semanas, em todos os mercados em que estamos a operar). Mudámos não só nós a nossa mentalidade, mas conseguimos que os doadores mudassem também para perceberem que dar dinheiro vivo às pessoas não é um risco e pode ser a intervenção certa (porque nós também não aceitamos que quando recebemos o abono de família, o Estado venha querer saber se usámos em material escolar… por isso, se não aceitamos, não devemos achar que as outras pessoas vão tomar piores decisões do que nós). Acho que estas diferenças são imensas. A Ação Humanitária mudou radicalmente.

Qual foi a crise humanitária mais difícil em que já esteve envolvido e porquê?  

O Idai, em Moçambique. Foi a mais impactante. Porque foi muito grande. Porque foi uma mistura de resposta e preparação: eu cheguei à Beira uma semana antes do Idai bater e, portanto, nós estivemos a preparar-nos para uma coisa que era uma destruição por vento e acabámos com uma das maiores cheias que o Mundo já viu. Criou-se um oceano de 30km por 130km com 11m de água de altura, a 20km da costa. Era um oceano interno, do tamanho do Luxemburgo, no meio de Moçambique, com 11m de água por cima das aldeias. Por isso, tivemos esse ciclo de nos termos preparado para uma coisa e vermos aquilo transformar-se noutra, à nossa frente, e num dos maiores desastres das últimas décadas, foi muito impactante. Ainda me deixa arrepiado pensar nisso. Mas, também, porque foi um desastre natural e porque toda a gente estava a puxar na mesma direção – desde a Vodafone que chegou e nos perguntou “Onde é que querem que nós reponhamos primeiro os 10 000 postos de retransmissão que caíram? Onde é que é mais importante?” até grandes empresas de transportes e mudanças, que normalmente estão muito focadas no lucro, que se sentaram connosco no aeroporto da Beira e nos perguntaram “O que é que vocês precisam? Todos os nossos camiões estão à vossa disposição.” Toda a gente estava a puxar na mesma direção. Isso foi muito bonito e também foi muito claro que, apesar de ter sido muito traumático para todos nós e principalmente para as pessoas a quem o ciclone afetou, foi também muito recompensador, porque sabemos exatamente quantos milhares de pessoas é que salvámos naqueles primeiros dias e quantos milhões salvámos nos meses seguintes, quando por exemplo, as pessoas falharam a sua colheita nesses meses… E, portanto, essa ligação entre um desastre e salvar vidas foi muito impactante. 

Se pudesse dar um conselho a um responsável de um meio de comunicação, sobre a cobertura de uma catástrofe, qual seria esse conselho (ou pedido)?   

Acho que nenhum! Acho que há um win-win entre a comunicação social à procura de histórias e nós a tentarmos fazer sair histórias. Também para, pelo que falámos há bocadinho, tentarmos aproximar aquilo que fazemos, daquilo que é a perceção das pessoas. A ideia que as pessoas têm é que o dinheiro e a comida são desviados, etc. Não há muito mais a fazer se não mostrarmos o nosso trabalho por um olhar externo, que não tem nenhuma relação connosco e que venha contar as nossas histórias e, portanto, há aqui um win-win. De resto, acho que há um trabalho que todos temos de fazer na nossa cabeça que é o de tentar reportar tudo, da forma mais igual possível, por exemplo reportar histórias da Ucrânia e do Sudão da forma mais parecida possível, de forma a que as pessoas comecem a perceber que uma tragédia é uma tragédia, uma pessoa que morre é sempre uma tragédia para a sua família e amigos onde quer que eles estejam, que não há vidas mais importantes que outras e que se por um lado a proximidade geográfica é uma realidade (um desastre em Espanha afeta-nos mais do que um desastre na Indonésia e isso é normal), um desastre com pessoas que são diferentes de nós não nos devia afetar menos que um desastre com pessoas que são parecidas connosco. Acho que esse é um trabalho que temos todos que fazer, jornalistas incluídos, porque somos todos um bocado parciais, quer queiramos quer não. Mas, de resto, acho que sem os jornalistas e sem os media era impossível nós fazermos o nosso trabalho e que pessoas do outro lado do mundo se mobilizassem ou para contribuírem financeiramente ou para se importarem o suficiente para que os seus Governos contribuam financeiramente para organizações internacionais ou nacionais dos países onde as coisas estão a acontecer. Acho que esta simbiose é muito importante.  

Em relação à comunicação interna, das nossas organizações, ela não tem que ser imparcial. Tem um objetivo muito específico de fazer passar a mensagem para os media e depois compete aos media perceber em que histórias é que pegam tentando ser imparciais. 

De acordo com as últimas informações do ACNUR sobre os nº de refugiados, em que as pessoas estão a ficar mais na Hungria do que acontecia de início e em que há, inclusive, pessoas a voltar para a Ucrânia, como é que explica este fenómeno, com uma situação de conflito ainda tão presente no País? 

Eu só estive na Hungria 3 semanas, no início do conflito, para fazer a resposta de emergência aos refugiados e agora tenho estado na Ucrânia e não tinha essa noção. Nós estamo-nos a preparar, desde há algum tempo, aqui no centro da Ucrânia, para movimentos migratórios inversos. O Oeste da Ucrânia está com milhões de pessoas, começa a haver muita pressão sobre o alojamento e estamos a começar a esperar que as pessoas venham mais para o centro da Ucrânia, onde há mais espaço. Portanto, não me surpreende que as pessoas que fugiram para a Roménia, para a Hungria, para a Polónia e não continuaram para outros países (na expectativa de poder voltar o mais depressa possível) o façam. Por que essa é uma aspiração que eu vejo nos refugiados em todo o Mundo. Os sudaneses do sul fogem para o Uganda e ficam o mais perto possível, na expectativa de poder voltar assim que puderem. E assim que volta a paz, as pessoas voltam o mais depressa possível. Por exemplo, eu lembro-me de um campo no noroeste do Quénia que se chama Kakuma, e assim que o Sudão do Sul conquistou a independência e houve paz durante algum tempo, o campo de refugiados praticamente esvaziou. Por isso, essa aspiração, quer na Ucrânia, quer no Norte do Quénia, é Universal.