Entrevista a Marcelino Sambé

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Fotografia: André Uspensky

Move-se na dança clássica e por ritmos africanos com a fluidez de quem carrega o talento no sangue. Marcelino Sambé, português e guineense é aos 26 anos o principal solista da Royal Opera House, em Londres. Aceitou o convite da AMI para abordar os desafios de ser jovem, bailarino e imigrante, numa reflexão sobre os tempos de hoje e a esperança do amanhã.

Em que fase da sua juventude é que descobriu que dançar era algo que queria perseguir?

A minha descoberta da dança aconteceu quando eu era bastante novo, no Centro Comunitário do Alto da Loba, em Paço de Arcos. Tive imensa sorte, porque frequentava este lugar, em que uma das disciplinas que podia escolher era a dança africana. Isto foi determinante para mim, porque o meu pai é guineense e senti que estava a fazer uma coisa que me fazia identificar com este lado da minha cultura. Acho que isso fez com que eu realmente perseguisse a dança e que encontrasse algo que me fazia sentir feliz, completo e especial. A dança sempre ocupou esse espaço desde o início. Desde sempre que tem sido algo muito especial que faz parte de mim.

Tem raízes em Portugal e na Guiné. Na sua infância, essas heranças suscitavam-lhe algumas questões de identidade?

Sim, vim de um background com dificuldades. De repente estava num mundo “de elite”, o do ballet e da dança. Foi um contraste muito forte e estranho, mas também me abriu portas para descobrir que podia ser muito mais do que aquilo que o meu início de vida poderia ter determinado para mim.

Sentiu que pôde projetar a sua diversidade cultural na arte de dançar, ao longo do seu crescimento?

Desde o início do meu percurso que me identifico com essa dualidade. Penso que ter esta minha base africana e esta versatilidade me dá toda uma outra dinâmica, que é invulgar em relação a outros bailarinos. Tenho noção que eu sou único nesse sentido.

Começou a dançar aos 12. Encontrou muito cedo uma vocação… Mas para muitos jovens é impercetível qual o caminho a seguir… Quais é que considera serem os grandes desafios que os jovens enfrentam nos dias de hoje? 

Penso que o rumo que o mundo está a tomar de momento, do ponto de vista político e económico, tendo em conta a influência da pandemia também, faz com que os jovens se vejam obrigados a pensar no imediato. Do ponto de vista da dança, é um percurso muito específico. Este tipo de carreira é de longa distância, são maratonas, e por isso não podemos ter resultados rápidos. Temos de ser humildes ao máximo para compreendermos que, como nós, há muitos outros.

Sentiu-se apoiado quando descobriu que era este o caminho que queria seguir? Ou sentiu algum tipo de preconceito por ser homem e bailarino?

A dança foi uma salvação para mim e nunca senti que esses aspetos me fossem deixar para trás, inclusive no que toca à minha raça. Nunca me foquei no que os outros diziam, daquilo que um rapaz deveria fazer ou não, sempre tive um apoio enorme da minha família, que me fez acreditar que, com vontade, tudo é possível.

É o solista de destaque da Royal Opera House, em Londres. Sente que já chegou onde queria chegar?

Acredito que estou na primeira plataforma da minha profissão, ainda tenho muita aprendizagem a adquirir. Sinto-me mais que eu mesmo, sei que isto é maior do que eu, que o Marcelino. Sei também que inspiro muitos jovens que talvez queiram seguir a mesma carreira e que não acreditam que isso seja possível e que, olhando para mim, passam a acreditar. A posição que estou a ocupar agora na Royal Opera House é uma posição de inspiração, de desenvolvimento e de divulgação. Prova que a arte da dança e do ballet está a mudar e que tudo é possível nestas áreas. Acredito que o meu percurso só começou agora e que só agora vou começar a perceber o impacto que posso ter na vida das outras pessoas e influenciá-las de forma positiva.

A Forbes considerou-o um dos mais destacados “30 jovens europeus com menos de 30 anos” em 2018. Sentiu uma responsabilidade acrescida com esse reconhecimento, na medida em que será um exemplo a seguir por jovens de todo o mundo que queiram perseguir uma carreira na dança ou um outro sonho?

Esse reconhecimento foi incrível, porque muitas vezes os jovens são levados a acreditar que uma carreira na dança é difícil, que existem poucas possibilidades e que são carreiras em que não há grande retorno financeiro. Quando saí na Forbes pensei que foi ótimo no sentido de desconstruir a ideia de que as artes não te trazem reconhecimento, não te dão um bom rumo de vida e por isso acho que ter tido esse reconhecimento mostra também que o mundo do ballet pode trazer riqueza, não só financeira, mas também pessoal e social.

Considera que no mundo da indústria da dança, em particular do ballet, existem pré-conceitos que devem ser desconstruídos de modo a haver mais igualdade de acesso a oportunidades na área?

Eu penso que o preconceito e a falta de diversidade nesta indústria vêm do início, do recrutamento de jovens bailarinos de todas as origens e backgrounds. Eu não culpo as companhias de bailado e as suas direções, responsabilizo mais a forma como se recruta jovens bailarinos. A arte por si só não é racista. A Arte é feita para abranger, divulgar e diversificar. No ballet, isto tem de vir do começo, fazendo os jovens acreditar que há um caminho a seguir e que é possível para todos.

Que novos desafios espera encontrar na próxima temporada de espetáculos, em que as salas terão audiências reduzidas devido ao novo coronavírus?

Estava a pensar no outro dia que o ser humano está a viver um período de sufoco eletrónico, tecnológico e comercial e que nos estamos a esquecer que as máquinas, por mais maravilhosas que sejam, nunca vão conseguir simular a arte ou expressar emoções da mesma forma com que os humanos o fazem. Nestes tempos de pandemia, temo-nos focado tanto na saúde e no auto-isolamento que penso que as pessoas estão sedentas de arte, de ver e de expressar emoções. Acho que o desafio de ter as salas mais vazias não será uma coisa má, será com certeza carregadíssimo de emoções e de expectativas.

E depois da dança, o que é que se segue?

Para mim, todos os meus sonhos estão ligados aquilo que eu posso fazer com o meu talento. Quero usufruir dele o máximo possível, ou seja, poder aprender através de muitos e diferentes bailarinos e fazer parte de uma mudança, porque penso mesmo que o ballet ainda está a viver a sua infância, é uma arte ainda muito jovem que falta desenvolver bastante. Posso contribuir para esse desenvolvimento. Também quero imenso fazer parte de uma direção artística e coreografar.

Se pudesse deixar uma mensagem de incentivo a todos os jovens que querem entrar no mundo das artes e da cultura, o que é que lhes diria?

Dir-lhes-ia que se têm um talento e se dedicarem ao que estão a fazer, quando as oportunidades surgirem, agarrem-nas a 100%. Não é tempo para dúvidas, inseguranças ou pensamentos negativos. Temos todos de ser positivos e continuar em frente, porque no momento em que começamos a pensar demasiado, perdemos tempo essencial para crescermos. Dir-lhes-ia também que a dedicação a uma carreira é lembrarmo-nos daquilo que nos fez começar.

“(…) a dedicação a uma carreira é lembrarmo-nos daquilo que nos fez começar.”