Entrevista a Cecilia Carballo, Diretora de Programas da Greenpeace Espanha

Cecilia Carballo, Diretora de Programas da Greenpeace em Espanha e membro do Conselho da Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (CEAR) é especialista na área de políticas públicas e sustentabilidade. Desafiámo-la a falar dos grandes desafios que 2020 trará no combate às alterações climáticas e do papel das grandes potências mundiais na mudança de paradigmas de consumo e exploração intensiva do planeta Terra.

As alterações climáticas são um problema dos nossos tempos. A intensificação na utilização de combustíveis fosseis e o aumento da emissão de gases de efeito estufa têm contribuído para alterar o clima, tendo consequências devastadoras para o meio ambiente no nosso planeta; isto como consequência do crescimento exponencial das economias mundiais. Do ponto de vista da Greenpeace qual é a maior preocupação sobre o que é que as alterações climáticas representam para a sociedade contemporânea?

A maior preocupação para a Greenpeace é a sobrevivência do planeta como o conhecemos. Os dilemas que podemos vir a enfrentar em consequência do desastre ecológico, como a precariedade das economias e a crise dos nossos sistemas políticos e familiares, prendem-se com a nossa essência e existência.

A Greenpeace tem uma posição muito particular de associar as alterações climáticas à questão da segurança da população mundial. Como é que encaram esta relação e os seus efeitos?

A globalização não foi capaz de implementar a liberdade de movimento entre territórios. Longe disso, os muros são a arquitetura de fronteiras do século XXI, uma paisagem fronteiriça que recorda as cidades medievais. Hoje em dia estamos igualmente distantes, ou mais até, de converter as fronteiras em espaços de encontro e conhecimento do outro. As fronteiras estão a converter-se em delimitações territoriais altamente fortificadas, que não deixam passar nem ver a realidade que nos rodeia, isolando-nos da mesma. Acontece o oposto com a natureza, onde existem corredores biológicos e se partilham diferenças, os ecossistemas são inevitavelmente enriquecidos. Não se desenham fronteiras assim. A atual situação de insegurança global tem que ser entendida pela nossa incapacidade de garantir o direito do ser humano ao seu desenvolvimento e dignidade. 2019 acabou com o número mais alto da história de pessoas refugiadas e deslocadas à força, segundo o ACNUR, com 68,5 milhões de pessoas deslocadas em 2018, sem contar com as pessoas que migram por insegurança ou desigualdades económicas e pelos efeitos que as alterações climáticas causam nas suas vidas. Existem já relações diretas entre a segurança humana e as migrações por motivos climáticos. Durante as próximas décadas, os focos de atenção devem fixar-se nestas questões. Novamente, vemos como as tensões sobre a hegemonia de determinados combustíveis fósseis determinam conflitos bélicos ou os agudizam. Durante este século, continuaremos a ver guerras pelo controle de recursos alimentares, energéticos, minerais e água…

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De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas), a extensão das alterações climáticas terá efeitos diferentes em diversas regiões do mundo, que irão variar com o tempo, o que levará as sociedades a terem de se adaptar de modos diferentes. O que é que isto poderá implicar para a construção de uma política ambiental global e comum?

Sem dúvida, abordar as questões relativas aos mecanismos de governança global ambiental, deve ser uma prioridade das agendas governativas. O mundo mudou, muito e muito rapidamente. Hoje há menos pobreza absoluta, mas as desigualdades ganham grande importância no seio de uma crise grave de legitimidade dos estados nação e de muitas entidades supranacionalistas. No princípio da década, parecia inquestionável que o mundo avançaria numa direção de multipolaridade, com uma governança global mais democrática e em que a voz dos países periféricos ressoasse com mais força. Esta tendência fosse protagonizada pelos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), um grupo de países emergentes cujo crescimento económico os levaria a assumir a primeira linha. É verdade que continuam a ser considerados países relevantes do ponto de vista económico e energético, mas o seu discurso perdeu influência e inclusivamente, parece ter-se tornado obsoleto. A recente cimeira do clima (COP25) foi um cenário em que o multilateralismo conhecido até agora como uma fonte de colisão entre estados e em que as novas hegemonias evidenciaram as posições adotadas por muitos países.

O trabalho da Greenpeace concentra-se em diversas áreas, no que toca ao combate às alterações climáticas. Procura proteger as florestas, defender os oceanos, promover a agricultura sustentável, conter o desperdício de substâncias químicas tóxicas e pôr fim à era nuclear. São grandes desafios que não têm nem uma resolução simples, nem um fim à vista… Como é que estes desafios se traduzem no quotidiano das vossas práticas?

Nos próximos quatro anos, a Greenpeace irá trabalhar em dois vetores fundamentais. A luta contra a emergência climática e a crise de biodiversidade que assola o planeta. Em relação a ambas as prioridades queremos que estas sejam garantidas como direitos fundamentais, para que a humanidade tenha direito a um progresso digno e equitativo.

Em muitos países, assistimos agora a uma vasta ação e ao crescimento de diversos movimentos intergeracionais sobre o clima e de combate às alterações climáticas; os impactos de crise civilizacional em que vivemos atentam contra os direitos humanos. Por este motivo, é muito importante que estas ações porque o que é ambiental é social e económico. A primeira investigação sobre a responsabilidade das alterações climáticas e direitos humanos no mundo, foi ganha em dezembro passado, quando a Comissão de Direitos Humanos declarou que as grandes empresas de combustíveis fósseis podem ser responsabilizadas pelos danos relacionados com o clima. Os representantes de catorze cidades importantes, incluindo Guadalajara, Lima, Barcelona, Cidade de Quézon e Seul, comprometeram-se a reduzir o consumo de carne, a proliferação das emissões de carbono. As nossas ações chegaram às manchetes de todo o mundo: desde a cúpula dos escândalos, do mar à terra, desde atos únicos de coragem até Atos de Não Violência Direta (NVDA) em massa, e muito mais! Estamos orgulhosos de cada pessoa que contribuiu para este esforço maciço. Também temos tido testemunhos de manifestações inesperadas, espontâneas. Produziu-se outra onda de mobilização importante em torno das desigualdades, no Chile, no Líbano, em França…e ainda a ligação com as alterações climáticas está por se fazer. 2019 estabeleceu uma mensagem para o nosso trabalho em 2020. Deve ser audaz e diferente se queremos resultados melhores.

A Cop25 esteve reunida em Madrid, com representantes governamentais de 200 países, para definir uma estratégia para que a temperatura global não ultrapasse 1,5ºC até ao final do século. Neste encontro, os países mais vulneráveis às alterações climáticas tiveram um papel fundamental de pressionar os estados mais industrializados a assumirem a responsabilidade de colaborar para a transição energética, para um modelo renovável. Considera que foram alcançados resultados concretos?

Creio que os resultados foram insuficientes e dececionantes. No decorrer da COP25 celebrada em Madrid comprovou-se que a pressão exercida pelos lobbies e corporações de combustíveis fósseis só defendem os seus próprios interesses. De novo, o medo que os seus lucrativos negócios sejam afetados fez com que tenham exercido toda a sua influência para evitar um acordo multilateral que aborda de forma decidida a emergência climática. Durante a passada COP25, fechou-se por completo a porta à ciência e às exigências da sociedade civil que pediram soluções urgentes e ambiciosas no que toca ao tema da emergência climática. Em matéria de mudança, os políticos debateram-se pelo modelo de tráfego de emissões do “Artigo 6”, que ameaça os direitos dos povos indígenas e põe um preço no meio ambiente. No decorrer das negociações, os partidos políticos enviados pelos países mostraram pouca ou nenhuma intenção de alcançar compromissos para reduzir as emissões, a velocidade e a intensidade que, segundo a informação científica, é necessária para delimitar o aquecimento global de 1,5 ºC. A Greenpeace considera que para além da Cimeira COP são necessários outros âmbitos de debate e decisão política, que não estejam contaminados pela influência de grupos de “pressão fóssil”. A COP deixou demasiado trabalho pendente, que não pode esperar um ano para culminar. A ação política em Espanha e em toda a Europa deve assumir desde já a luta contra as alterações climáticas como máxima prioridade, atendendo aos interesses da sociedade e não aos oligopólios industriais. Reconheço que Espanha tem feito um bom trabalho com a organização da COP25, tem conseguido um importante apoio social e político para o reforço da luta contra as alterações climáticas. A isto somou-se a decisão do Conselho Europeu de pedir à Comissão que apresente os objetivos climáticos mais ambiciosos para 2030, para chegar a tempo à COP26. Tudo isto deve servir de impulso definitivo para que o novo governo reveja e faça um levantamento a curto prazo do seu Plano Nacional de Energia e Clima e aprove urgentemente a Lei das Alterações Climáticas e Transição Energética, e que se reflita em ambas as medidas, um objetivo mais ambicioso de redução das emissões a nível nacional de menos de 55% para 2030 face a 1990. 2020 será um ano chave.

Em virtude do que se prevê, a Península Ibérica será das áreas mais afetadas pelas alterações climáticas. Considera que Portugal e Espanha estão a fazer o suficiente para promover a mudança de consumos e mudanças no paradigma da exploração terrestre e marítima?

Temos de ser conscientes de que as emissões que fazemos aqui têm efeitos em todo o mundo, a natureza não entende limites administrativos. Isto é fundamental para compreender o impacto das alterações climáticas sobre o território peninsular e desenvolver atuações de adaptação mais coordenadas. A resiliência deve trabalhar-se em termos de eco-regiões.

A Greenpeace tem lutado em várias frentes, sempre com o objetivo de proteger as diversas áreas de atuação que abordam a sobre-exploração de determinado recurso natural para além da sua capacidade. 2018 foi um ano significativo na conquista de algumas garantias que promovem a proteção do nosso meio ambiente e combatem a sobre-exploração industrial, nomeadamente na área da pesca. Quer enumerar algumas?

Portugal e Espanha são referências no que toca à promoção da proteção marinha através da criação de Áreas Marinhas Protegidas que permitam um maior controle das atividades marítimas, dentro da União Europeia e no âmbito do Tratado Global dos Oceanos.

Quais as ações da Greenpeace que vieram contribuir para estas vitórias?

A Greenpeace luta há quase 50 anos por um planeta mais verde e mais pacífico, pelo que são muitas as ações que temos levado a cabo durante este tempo em todo o mundo. Tentando sintetizar, posso destacar algumas vitórias que contribuíram, sem dúvida, para melhorar o mundo:

Em 1971 ocorreu a primeira ação da Greenpeace, que foi chave para que em 1972, os Estados Unidos abandonassem os campos de testes nucleares na Ilha Amshitka, no Alasca. 1982 foi um ano em que várias ações foram desenvolvidas contra o baleeiros industriais, a Comissão Baleeira Internacional adotou a moratória da casa das baleias em 1982. Em 1991, a pressão que a Greenpeace exerceu, em colaboração com outras organizações, conseguiu que 39 países assinassem o Tratado Antártico, acordando uma proibição de 50 anos de exploração de minerais no continente. Em 2011, lançámos a publicação informativa “Dirty Laundry”, denunciando as principais marcas de roupa e fazendo-as comprometerem-se a eliminar produtos químicos perigosos das suas cadeias de produção e de todos os seus produtos em 10 anos. Em 2018, tanto em Espanha, como no resto do mundo, conseguiram-se grandes vitórias que podem ser consultadas no nosso balanço anual e nos nossos objetivos para 2020.

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Enquanto Diretora de Programas da Greenpeace, qual é a sua maior preocupação, especialmente naquilo que deve ser prioritário resolver e sensibilizar para o combate às alterações climáticas?

O ano 2019 demonstrou-nos que a disrupção climática já está connosco. Incêndios florestais nos Estados Unidos, Brasil, Rússia, Indonésia, Austrália: a lista continua. Ondas de calor na Europa e na Ásia. Inundações, secas, tufões, ciclones. Literalmente, um desastre climático todas as semanas. Os interesses das indústrias dos combustíveis fósseis continuam a deteriorar o progresso e transição para um mundo livre de emissões. A agricultura industrial e as grandes corporações pesqueiras continuarão a sua expansão à custa da saúde dos nossos ecossistemas. Para além de tudo isto, o mundo vive tempos obscuros, lastimosamente assistimos à limitação dos nossos direitos e liberdades em prol de uma mal concebida segurança das nossas vidas. O movimento ecologista tem demonstrado a coragem, determinação e ação de que somos capazes, no entanto este movimento deve fundir-se com outros movimentos e fazer com que a década de 20 deste século seja aquela que confronta o sistema capitalista patriarcal que explora e consume os recursos deste planeta a velocidades vertiginosas.

Olho para 2020 com determinação, entusiasmo e esperança. No seio da nossa ação, existe a crença de que se as pessoas se unirem a nós, se organizarem e se conectarem com a nossa causa, podemos ganhar esta luta e mudar o sistema. Ao longo da nossa história, a Greenpeace realizou um trabalho importante, mas não seríamos nada sem a colaboração de um conjunto de movimentos em todo o mundo. Estamos em estado de emergência, por isso, devemos continuar a desafiar-nos a procurar novas iniciativas e possíveis soluções que respondam aos problemas que ainda não conseguimos resolver.

A nossa casa está em chamas? Sim, literalmente, numa escala sem precedentes. Os lobbies dos combustíveis fósseis continuam vivos e a prosperar? Sim, sem dúvida.

Está a utilizar-se a crise social como uma narrativa para evitar a ambição sobre o clima? Sim, e, entretanto, com má fé por parte dos líderes que não querem ver progresso nestas frentes. O movimento climático ainda se encontra sub-representado? Sem sombra de dúvida, os desafios são enormes. Os nossos adversários têm mais poder, mais dinheiro e estão melhor organizados. Mas ainda não nos conseguiram derrotar e nunca nos iremos render. Como diria Angela Davis: “Deves atuar como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E há que fazê-lo o tempo todo… (…) o otimismo é um ato político”.

Pensa que deveria ser tomado um conjunto de medidas fundamentais a nível mundial no que se refere à limitação da produção e exploração como solução eficaz para o planeta em áreas como a agropecuária, indústria, energia, etc? Quais poderiam ser estas medidas? E como é que vê o mundo em 50 anos, se estas medidas não forem implementadas?

Em 2050 a terra terá alcançado 9.800 milhões de habitantes. Graças aos avanços tecnológicos, a maioria das doenças que nos preocupam em 2019 terão sido erradicadas ou serão doenças crónicas. Uma das maiores preocupações nessa altura, serão as infeções imunes aos antibióticos e as alterações climáticas. As temperaturas terão aumentado entre 3 e 4 graus, o nível do mar terá subido 25 centímetros e algumas das espécies que povoavam o nosso planeta há trinta anos terão desaparecido. Diversos estudos assinalam resultados extremamente graves relativamente às ameaças à segurança no que toca ao clima. Estes resultados são muito mais prováveis do que aquilo que se assume convencionalmente. O cenário do clima em 2050 que se apresentou neste novo estudo levado a cabo em 2019, advertindo que se não se alterarem os modelos de negócio das indústrias que prejudicam o meio ambiente, a terra provavelmente sofrerá um aumento de, pelo menos, 3 graus de aquecimento global. Isto causaria a destruição de ecossistemas chave, incluindo sistemas de recifes de coral, a selva amazónica e o Ártico. Os resultados seriam devastadores. Cerca de um milhão de pessoas ver-se-iam obrigadas a realojar-se e 2 milhões de pessoas enfrentariam a escassez de provisões de água. A agricultura colapsaria nos países subtropicais e a produção de alimentos ver-se-ia dramaticamente afetada em todo o mundo. Se tivermos em conta um aquecimento de 2ºC, mais de mil milhões de pessoas podem ter que ser realojadas. A escala de destruição está além da nossa capacidade de projeção, com uma alta probabilidade de a civilização humana chegar ao seu fim. Assim, vejo um mundo muito complexo na sua governação, e totalmente diferente, em que as fronteiras como as conhecemos serão distintas, em que alguns Estados terão desaparecido e os eixos de poder ter-se-ão transformado radicalmente.

MB