“D” de coragem

Tem 27 anos e nasceu na Costa do Marfim. “Não cresci na minha família, cresci sempre na família dos outros”. Perdeu a mãe cedo e o pai mandou-o para a cidade, para ser criado por um amigo da família e poder estudar. A guerra civil no seu país eclodiu quando tinha 9 anos. E durou quase 10.

A situação em Abidjan nunca melhorou, em termos de segurança. Diz ter visto muita coisa e muita gente a morrer e ter chegado a um ponto em que “não aguentou mais” e em que deixou de acreditar numa mudança. Tinha saúde, força, coragem (a palavra que mais repetiu durante a nossa conversa) e, principalmente, a vida toda pela frente. Decidiu sair do país. Queria estudar numa Universidade e
sabia que ali, mesmo que o fizesse, não teria futuro. Combinou com um amigo e foram de autocarro para o Gana. Dali, apanharam um avião para o Congo. Do Congo, o amigo queria seguir para Angola. Apanharam um barco que demorou 3 dias a chegar a Luanda e por ali ficaram. Arranjaram um emprego, juntos. Passaram alguns meses, em que não foi feliz e não encontrou aquilo que procurava. Pelo contrário: por ser estrangeiro, não saber falar a língua e ter um emprego, foi assaltado e espancado mais do que uma vez, tendo ainda hoje uma cicatriz na cabeça, de um desses episódios. Pensou que, para viver assim, teria sido melhor ter ficado no seu país. Sentiu que em África nunca conseguiria encontrar a paz que procurava e começou a sonhar com a Europa. De Luanda foi para a Nigéria, depois Níger – Agadez, onde ficou o tempo necessário para conseguir arranjar uma viagem para a Líbia, em janeiro de 2016. De Agadez para a Líbia, a viagem foi um pesadelo. Para passar a fronteira, dividiram o grupo e “num carro bem pequeno” puseram 27 pessoas. O trajeto é muito longo e chegar ao destino é “uma questão de sorte”. O carro anda de noite e depressa e leva todo o tipo de pessoas, desde crianças a pessoas mais velhas. E os passageiros são avisados que, se alguém cair, o carro não pára nem volta atrás “porque isto é uma coisa de tráfico”. No ponto de chegada seguinte, teve de pagar mais, a muita gente diferente (alguns polícias incluídos). E diz, “qualquer pessoa tem uma arma. E ali, se alguém com uma arma apanha um africano que não saiba falar árabe, fica dono dele. Tira tudo o que essa pessoa tem, inclusivamente os sapatos. E a qualquer momento o vende a outro homem”. Foi o que lhe aconteceu. A si e aos outros que com ele faziam a viagem. Foram os 27 para uma casa “com uma porta” onde só tinha direito a uma refeição por dia (pão e água), até pagar para ser libertado. Conseguiu pedir ajuda a um conhecido, que “pagou o que faltava” e foi, pelas mãos de outro homem, para outra casa, onde já não estava preso, mas de onde tinha receio de sair, por não falar árabe. As viagens eram sempre feitas de noite. Chegou à costa mediterrânica após dois meses e sem confiar em mais ninguém, contando só consigo e com a sua coragem. Foi apresentado ao “rapaz que anda a recolher gente para fazer a marcação”, ou seja, a pessoa que tratava de arranjar a passagem para a Europa, por barco. Fez o pagamento que lhe foi solicitado e ficou, já sob as indicações desse homem, com um grupo de 420 pessoas, numa “sala grande”, durante duas semanas. Sem tomar banho. Com uma refeição por dia. E, outra vez, sem dinheiro nenhum. Como nos disse “é sempre uma questão de sorte… se tens sorte entras; se não tens sorte, vão-te repatriar”… E D., o jovem com coragem, não fazia mais nada desde que saíra da Costa do Marfim, senão tentar a sua sorte. Por isso aguentou… Do lado de fora da sala ouvia, constantemente tiros. A meio da estadia, chegou a notícia de que “a marcação” estava feita. Três barcos. Três grupos. D. estava incluído no primeiro. Havia que esperar pela noite certa. E essa noite chegou uma semana depois. Um barco com 120 pessoas, o único dos três que conseguiu “entrar na Europa”. Tiveram sorte. Saíram num domingo às 23h, com a roupa que tinham no corpo. E ao fim de 11h ou 12h no mar, o barco parou. D. não sabe se foi uma avaria ou falta de gasolina. O “capitão” não falava com ninguém. Chegou a ligar para alguém, mas não obteve ajuda. E ficaram à deriva. Viram barcos grandes a passar e lembra-se que o capitão do barco despiu a camisa que tinha e que era vermelha, para sinalizar e chamar a atenção. Mas os barcos continuaram. Recorda-se que havia um bebé muito pequenino que esteve sempre a chorar. Ao fim de 18h, e após outro telefonema que não sabe para quem foi, apareceu um barco “bem grande”, de trás, com as luzes apontadas ao seu. Havia outros barcos à deriva. O barco grande pediu-lhes calma, através de um megafone e atirou, em primeiro lugar, coletes salva-vidas para todos. Era um barco da Cruz Vermelha. Mulheres com crianças primeiro e homens depois, todos passaram para o barco que os levou para a Sardenha.

“Um bom homem, para conseguir qualquer coisa, tem de ter coragem.”

Estava na Europa. Recorda que, muitas vezes, o pai lhe dizia, quando o mandou para a cidade: “Um bom homem, para conseguir qualquer coisa, tem de ter coragem!”. Nunca se esqueceu disso.

Decidiu que não ia ficar a depender de ninguém, enquanto esperava que a sua situação legal fosse discutida. Em primeiro lugar, quis aprender italiano. E com a ajuda de uma instituição conseguiu ser aceite numa escola, sem documentos. Queria saber falar italiano e “aprender as regras”. Todos os dias ia à escola e estudava. E quando teve a audiência com as autoridades para tratar do estatuto com que podia ficar (se fosse autorizado a ficar), já sabia “Um bom homem, para conseguir qualquer coisa, tem de ter coragem!”
falar um pouco. E impressionou os agentes que o entrevistaram, com a sua postura. Fez a entrevista toda em italiano. Mas o estatuto de refugiado foi-lhe negado. Não desistiu, recorreu e à segunda conseguiu.

Estava na Europa e estava legal, com estatuto de refugiado por 2 anos.

Mas a situação social em Itália pode não ser pacífica para imigrantes e começou a sentir um ambiente hostil e alguns episódios de racismo nos autocarros e na rua. Ao fim de um ano e meio, pegou na sua coragem e foi para França. E de França veio para Portugal, de avião, país de que tinha ouvido falar em Angola.

Aterrou sem conhecer ninguém. Dormiu no Aeroporto na primeira noite e de manhã apanhou um autocarro para “o centro da cidade”. Chegado não se lembra aonde, pediu ajuda a um senhor da Guiné Bissau, que o acompanhou a um serviço da Câmara. Dormiu na rua nessa noite, depois num abrigo da Câmara e, depois, foi encaminhado para a AMI e ficou no Abrigo Noturno. Desde então, apoiado pelos técnicos da AMI, já encontrou um emprego com contrato. Já conseguiu alugar um quarto, que paga mensalmente. Está a tratar dos seus documentos, “com paciência”, porque está à espera de um papel que tem de vir da Costa do Marfim.

Diz que, aqui, sente a paz que há muito não sentia. Que as pessoas o tratam bem, mesmo na rua, quando precisa de alguma informação. Quer estudar mais. Quer trabalhar, tirar a carta de condução e daqui a 5 ou 6 anos ter um negócio seu. Diz que o segredo para ser respeitado é mostrar respeito. E diz que o único conselho que tem para alguém que esteja agora a chegar é “Primeiro: coragem, muita coragem!; Segundo: não seguir conselhos de amigos no banditismo. Ser sério.”

D. acabou a entrevista como começou: sem grandes sorrisos, mas com toda a disponibilidade para partilhar a sua história. E reforçando que, qualquer boa pessoa, em qualquer situação, tem de ter coragem. Como o pai lhe ensinou.

E toda a conversa foi tida em português. Porque D. também já fala português.