Cenários e impactos das Alterações Climáticas: refletir sobre o passado para mudar o futuro

De acordo com o último relatório* de avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), órgão das Nações Unidas encarregado de avaliar todas as questões científicas relacionadas com as alterações climáticas, “a influência humana no sistema climático é clara e as recentes emissões antropogénicas de gases com efeito de estufa são as mais altas na história. As mudanças climáticas recentes estão a ter impactos generalizados nos sistemas humanos e naturais.”

A existência de alterações climáticas é inequívoca e os dados científicos observados ao longo de décadas e reportados pelo IPCC comprovam-no. A temperatura média global combinada da superfície terrestre e oceânica aumentou 0,85 °C durante o período compreendido entre 1880 e 2012, e 90% da energia acumulada entre 1971 e 2010 deveu-se ao aquecimento do oceano, o que reflete a sua importância para todo o sistema climático. Também o ciclo global da água tem sofrido alterações. O aumento da precipitação sobre as áreas terrestres de latitude média no Hemisfério Norte durante o séc. XX e as mudanças na salinidade da superfície oceânica são exemplificativas dessas alterações no ciclo da água. Desde o início da era industrial, a absorção oceânica de CO2 resultou na acidificação do oceano. Por todo o planeta, os glaciares têm diminuído de tamanho e, no hemisfério norte, a cobertura de neve existente na primavera continua a regredir. A extensão média anual do gelo marinho do Ártico diminuiu durante o período de 1979 a 2012, a uma taxa de 3,5 a 4,1% por década. No período de 1901 a 2010, o nível médio global do mar aumentou 0,19 m. A taxa de aumento do nível do mar que se tem verificado desde meados do séc. XIX é superior à taxa média dos dois milénios anteriores.

Os impactos das alterações climáticas nos sistemas naturais e humanos são muitos e variados e estendem-se por todos os continentes e oceanos. Estes impactos incluem, entre outros, a afetação dos recursos de água em temos da sua quantidade e qualidade, a alteração de padrões de migração, abrangência geográfica e abundância de espécies terrestres e aquáticas e ainda impactos na população humana, nomeadamente na sua saúde e qualidade de vida.

Eventos climáticos extremos como ondas de calor, secas, cheias, ciclones e fogos florestais podem trazer consequências devastadoras para a população humana. Apesar de o termo “refugiado climático” não existir no direito internacional no sentido em que, segundo a Convenção de 1951, um “refugiado” é definido como uma pessoa que atravessou uma fronteira internacional “devido ao medo bem fundamentado de ser perseguido por razões de raça, religião, nacionalidade, pertença a um grupo social ou político específico”, em certas regiões do planeta, famílias e comunidades já começaram a sentir as consequências das alterações climáticas, que as forçaram a deixar as suas casas em busca de um novo começo. É uma nova realidade que traz grandes preocupações, quer se queira chamar “refugiados climáticos” ou “pessoas deslocadas no contexto de desastres e alterações climáticas” a estas populações,. nomeadamente para Organizações como a AMI que atuam também em Ação Humanitária.

Perspetivando o futuro, o IPCC elaborou no seu quinto relatório (2014) uma série de cenários relativos às emissões de gases com efeito de estufa, concentração de poluentes atmosféricos e uso da terra para o séc. XXI. Neste estudo, ficou patente que o risco de mudanças irreversíveis e catastróficas associadas ao clima será muito maior se o aquecimento global médio da superfície terrestre exceder os 2 °C acima dos níveis pré-industriais. Avaliando então os vários cenários, mesmo aquele que implica mais medidas de mitigação e que tem como objetivo manter o aquecimento global médio inferior a 2 °C, relativamente à temperatura da era pré-industrial, o futuro avizinha-se difícil.

Porém, o combate às alterações climáticas e a luta pela preservação do ambiente não se faz só ao nível das políticas governamentais. O planeta “pertence” a todos e por isso cada cidadão deve fazer a sua parte. Pequenos gestos como reciclar, economizar o consumo de água, preferir o uso de transportes públicos, evitar o uso de plásticos descartáveis e reduzir o consumo fazem a diferença na preservação dos recursos naturais do planeta e na diminuição da pegada de carbono de cada cidadão.

 

*IPCC, 2018: Summary for Policymakers. In: Global Warming of 1.5°C. An IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5°C above pre-industrial levels and related global greenhouse gas emission pathways, in the context of strengthening the global response to the threat of climate change, sustainable development, and efforts to eradicate poverty [Masson-Delmotte, V., P. Zhai, H.-O. Pörtner, D. Roberts, J. Skea, P.R. Shukla, A. Pirani, W. Moufouma-Okia, C. Péan, R. Pidcock, S. Connors, J.B.R. Matthews, Y. Chen, X. Zhou, M.I. Gomis, E. Lonnoy, T. Maycock, M. Tignor, and T. Waterfield (eds.)]. World Meteorological Organization, Geneva, Switzerland, 32 pp