AMI convida Gonçalo Henriques

O trabalho diário junto da população em situação de sem abrigo e vulnerável na cidade de Lisboa constitui-se, muitas vezes, como a primeira mão que se estende entre a sociedade civil e os seus, que por vários motivos se afastaram ou isolaram da mesma, vivendo longe dos olhares ou mesmo à vista de todos e lidando à sua maneira com as barreiras que impuseram ou lhes foram impostas.

Todos nós, que já notámos várias tendas de campismo pelas ruas, e que tantas vezes acorremos ao pedido de uma moeda ou um cigarro quando passamos na rua, vamos ao supermercado ou estacionamos o nosso carro, habituámo-nos a que estas pessoas fizessem parte da paisagem dos “não lugares” que frequentamos, assim definidos por Marc Augé. Estão também muitas vezes resistentes à intervenção e até de costas voltadas a qualquer aproximação que se assemelhe com o mesmo sistema de proteção social que por algum motivo falhou ou não resultou, processo que se convencionou chamar de desfiliação social pelo sociólogo Robert Castel.

O trabalho de rua para além de ir junto das pessoas a todos esses pontos da cidade de Lisboa, é muito mais que uma prestação de um serviço pontual, é um trabalho metódico entre a observação e a ação, até que sejamos aceites nesses espaços por todos os intervenientes, e é preciso que este “não lugar” passe a ser também nosso, e que a nossa sala de atendimento social ou o nosso gabinete de apoio psicológico se edifique naquele banco de jardim ou parque de estacionamento, espaço esse que, pela evolução e acessibilidade dos serviços ao longo do tempo se transformou também numa qualquer repartição ou serviço à distância de um clique através desta intervenção de rua.

Em 2020 o mundo mudou, a liberdade ficou condicionada por uma ameaça invisível e estes espaços movimentados, cheios de pessoas, tornaram-se perigosos e ficaram vazios, deixando a nú todas as fragilidades das pessoas, mas também as nossas enquanto sociedade, e perante a urgência foi preciso reagir, encontrar respostas formais ou informais que de forma rápida e transitória albergassem estas pessoas num sitio seguro, onde todas as suas necessidades fossem colmatadas, sendo que não mudaram a sua condição de pessoas em situação de sem abrigo, apenas deixaram de ser pessoas sem teto, estando agora em respostas de emergência, centros de acolhimento e quartos e pensões na cidade de Lisboa, que perante o consequente decréscimo do turismo, voltaram a abrir portas e a praticar preços que permitam que as pessoas continuem a viver na mesma cidade e dos mesmos recursos formais ou informais que tinham antes.

Existiu também uma aposta forte na cidade e um pouco por todo o país em respostas de Housing First ou apartamentos partilhados que visam dar mais condições, autonomia e dignidade a todas as pessoas, e todo o acompanhamento que era feito em contexto de rua, passou a ser feito em cada um destes espaços, nos nossos Centros Porta Amiga, por telefone, videochamada e isso obrigou-nos a todos a repensar a forma como nos relacionamos, como trabalhamos e os planos traçados em conjunto, tornando-se uma realidade mais complexa e desafiante, mas ao mesmo tempo obrigou-nos a focar nas potencialidades e mais valias de cada beneficiário, e por outro lado permitiu a muitos deles renovar a confiança nas instituições, deixando claro que por mais nefasta que seja a ameaça, continuaremos presentes, a mão que se estende e a que alcança não poderão deixar de existir, faz parte da nossa existência, e esse “toque” é fundamental, mesmo que o mundo nos imponha a distância social.

Gonçalo Henriques é psicólogo e técnico da equipa de rua da AMI em Lisboa.