2004: Sri Lanka – e depois da ajuda de emergência?

2020-01-14 srilanka_tsunami

A imagem de um mar calmo e sereno a banhar as margens de Colombo, capital administrativa do Sri Lanka, contrasta com páginas e páginas de uma narrativa aterradora sobre os vários sismos seguidos de Tsunami que atingiram o sudeste asiático no dia 26 de dezembro de 2004. A catástrofe, cujo epicentro teve lugar na província indonésia de Aceh, teve um efeito devastador, contabilizando 228.000 mortes em 14 países do Sudeste e do Sul da Ásia, e até em África, e afetando quase 2,5 milhões de pessoas, segundo a ONU. Foi um dos desastres naturais mais fatais das últimas décadas e mudou o curso da Ação Humanitária. 

O Sri Lanka foi um dos países mais afetados por esta tragédia, com 30.000 perdas humanas e 860.000 deslocados, tendo o seu Governo declarado estado de emergência e lançado um pedido de auxílio internacional visto que não dispunha dos meios necessários para fazer face a uma devastação daquela dimensão. 

Numa entrevista à AMI em 2017, o Padre Rohan Silva, responsável por várias organizações parceiras da AMI no país, relembrou as primeiras impressões do fatídico dia, quando começou a ver na televisão, “imagens daquela área, não muito longe de Maggona. As pessoas estavam a fugir das estradas em direção aos templos no topo da colina. Então, soubemos que um tsunami tinha atingido o Sri Lanka. (…) alguém me disse que o mar tinha chegado às estradas principais e que as casas estavam todas destruídas.” 

A AMI decidiu partir para o Sri Lanka nas 48h após a catástrofe, não só porque foi um dos países mais afetados, mas também por ser um dos mais vulneráveis. No aeroporto, a Asian Human Rights Commission esperava a equipa.  

A esta missão exploratória juntou-se uma equipa de 8 voluntários no dia seguinte, num avião fretado pela AMI com 10 toneladas de alimentos, equipamentos e outros bens de ajuda humanitária. 

Depois de um processo de desalfandegamento moroso, os bens foram distribuídos às populações deslocadas. Sediada no sul da costa este do Sri-Lanka e em parceria com uma organização local, a equipa começou a operar em pleno, prestando assistência médica em campos de deslocados num raio de 30 km de Beruwala.  

A resposta da sociedade civil em Portugal, tal como em muitos outros países, foi tão célere e generosa que proporcionou uma intervenção rápida e alargada, quer em ações quer no tempo. O apoio dos portugueses, no valor de perto de 2 milhões e 800 mil euros, permitiu à AMI manter uma equipa expatriada no Sri Lanka durante um ano e financiar por mais de 10 anos, projetos de várias organizações locais.  

Esta onda de solidariedade levou centenas de grupos humanitários para o Sri Lanka, desde a ONU e organizações internacionais a pequenas equipas de médicos e voluntários (alguns dos quais foram integrados na missão da AMI), o que sobrecarregou as autoridades locais. 

Perante este cenário e para ajudar a localizar todas as organizações que estavam a prestar ajuda, de forma a perceber se esta estava a chegar a todas as comunidades e a evitar uma duplicação de esforços, a OCHA (gabinete da ONU para a coordenação dos assuntos humanitários) criou a base de dados 3W (Who does What, Where – Quem faz o quê e onde), que se revelou uma ferramenta de trabalho fundamental de organização da ajuda, tendo sido reconhecida pelo Governo do Sri Lanka como o formato standard de reporting para a gestão de catástrofes.  

Depois da tempestade, não se seguiu de imediato a bonança, pois era necessário reedificar o país, revitalizar a economia, chorar os mortos e reconstruir vidas, mas muitas lições aprendidas mudaram o curso da Ação Humanitária. 

A antiga Subsecretária-Geral da ONU para os Assuntos Humanitários, Valerie Amos, referiu, a propósito de um evento sobre o 10.º aniversário do Tsunami, que se aprendeu a importância da coordenação e o valor das parcerias, a necessidade fundamental de continuar a apoiar as populações afetadas após a catástrofe para que possam recuperar completamente, e a crucial implementação de sistemas de alerta precoce e de preparação para catástrofes, de forma a conseguir salvar o máximo de vidas. 

Toda esta aprendizagem culminou numa grande reforma da coordenação humanitária em 2005, de que é exemplo o sistema Cluster, que procurou implementar novas abordagens com o objetivo de aumentar a previsibilidade, a prestação de contas e o trabalho em parceria. 

Os Clusters são grupos de organizações humanitárias em cada um dos principais setores da Ação Humanitária, como água, saúde, abrigo e logística, entre outros, que são designados pelo IASC (Inter-Agency Standing Committee), um organismo da ONU, e têm responsabilidades claras e definidas de coordenação. A imagem de uma ajuda necessária, mas descoordenada, deu lugar a uma ajuda fundamental, concertada, coordenada e que conta com a participação de todos os atores humanitários envolvidos. 

A missão de emergência da AMI no Sri Lanka terminou no dia 20 de janeiro de 2006, com o regresso dos dois últimos membros da equipa expatriada que ainda se encontravam no terreno. 

Porém, a intervenção da AMI no Sri Lanka continuou ao longo de 2006 e mantém-se até hoje de forma significativa nas áreas da saúde, apoio social e educação, tendo-se iniciado um forte apoio a projetos locais, com especial destaque para a criação da Sri Lanka-Portuguese Burgher Foundation, face à forte herança portuguesa no país, de que são exemplo apelidos como Silva, Dias e Fernando e o crioulo português (papiamento) que ainda sobrevive na memória dos mais velhos da comunidade luso-descendente (burghers), que fazem questão de receber sempre a AMI com um “Grandi Mercê” (obrigado). 

Depois da Ajuda de emergência é imperativo continuar a ajudar!